Juliana Ferreira teve que se adaptar a uma nova rotinaDivulgação

O crescimento dos casos de diabetes tipos 1 e 2 no Brasil tem ampliado o risco de complicações cardiovasculares e renais, aumentando a demanda sobre o sistema de saúde e reforçando a necessidade de ampliar ações voltadas à prevenção, ao diagnóstico precoce e à organização do cuidado. Nesse contexto, o Vozes do Advocacy e o Instituto da Criança com Diabetes do Rio Grande do Sul (ICDRS) realizaram, em Porto Alegre, o I Fórum de Diabetes, Doenças Cardiovasculares e Renais.O encontro reunirá associações de diabetes de diferentes regiões do país, especialistas e representantes do poder público para discutir caminhos que integrem evidências científicas, experiências de cuidado e propostas para fortalecer as linhas de atenção no Sistema Único de Saúde (SUS) e na saúde suplementar. A iniciativa integra as mobilizações da Campanha do Dia Mundial do Rim, que busca ampliar a conscientização sobre a prevenção, o diagnóstico precoce e o tratamento da Doença Renal Crônica (DRC).
De acordo com levantamento da Sociedade Brasileira de Nefrologia, o Brasil conta atualmente com mais de 172 mil pessoas em diálise, sendo que 85% dependem do SUS para realizar o tratamento. Entre esses pacientes, 94,6% fazem hemodiálise, procedimento que exige acompanhamento especializado e estrutura complexa. As Diretrizes Clínicas do Ministério da Saúde indicam que a Doença Renal Crônica também é um fator decisivo para o desenvolvimento de problemas cardiovasculares, responsáveis por cerca de 30% das mortes no mundo.
A Organização Mundial da Saúde estima que aproximadamente 10% da população global conviva com algum grau da doença. No Brasil, a prevalência estimada por exames laboratoriais é de 6,7% entre adultos, podendo triplicar entre pessoas com 60 anos ou mais, segundo dados do Boletim Epidemiológico do Ministério da Saúde divulgado em 2024.
Doença silenciosa exige investigação precoce
Segundo o médico nefrologista Paulo Henrique Fraxino, vice-presidente Sul da Sociedade Brasileira de Nefrologia, um dos grandes desafios da doença renal crônica é que muitas pessoas convivem com a condição sem saber.
"Entre os grupos de risco estão pessoas com hipertensão, diabetes, obesidade, infecções urinárias de repetição, histórico de cálculos renais e o próprio envelhecimento. Para que o diagnóstico seja feito precocemente, é necessário que a doença seja investigada. E isso pode ser feito com exames muito simples, como a dosagem sanguínea de creatinina e o exame de urina que avalia a relação entre albumina e creatinina. São exames de baixo custo, disponíveis na rede básica de saúde, que permitem identificar a doença no início e iniciar o tratamento adequado, evitando que o paciente evolua para fases mais avançadas que exigem diálise ou transplante renal", afirma o médico.
Vivência do paciente reforça a importância do cuidado contínuo
A experiência de quem convive com o diabetes ajuda a compreender os desafios impostos pela doença e pelas possíveis complicações associadas. A publicitária e técnica de enfermagem Juliana Ferreira, de 40 anos, convive com diabetes tipo 1 e, há dois anos, também recebeu o diagnóstico de cardiopatia e faz hemodiálise 3 vezes por semana.
Para manter o controle da condição, ela adotou uma rotina disciplinada de cuidados com a saúde e acompanhamento constante.
"Preciso controlar alguns nutrientes, como potássio e fósforo, além da ingestão de líquidos. Também faço contagem de carboidratos diariamente por causa do diabetes tipo 1", explica. Segundo ela, receber o diagnóstico cardíaco foi um momento delicado. "A aceitação foi bastante difícil no começo", lembra. Com o passar do tempo, porém, ela conseguiu reorganizar sua rotina e encontrar equilíbrio para seguir com qualidade de vida. "Hoje lido com isso de forma tranquila. Tenho uma vida muito boa, como qualquer outra pessoa que não tenha a doença", afirma.
Integração entre diabetes e saúde renal
Reconhecido como referência no atendimento a crianças e adolescentes com diabetes tipo 1 na América Latina, o Instituto da Criança com Diabetes do Rio Grande do Sul participa do fórum levando a experiência acumulada em quase três décadas de assistência a mais de 5 mil pacientes. A instituição, reconhecida pela International Diabetes Federation (IDF), reforça que o controle adequado do diabetes é um fator decisivo para reduzir complicações renais e cardiovasculares.
"Nosso objetivo é ampliar a educação em diabetes e fortalecer o debate sobre prevenção de complicações cardiovasculares e renais, com diagnóstico precoce e acompanhamento adequado em todos os níveis de atenção", afirma o médico endocrinologista Balduino Tschiedel, diretor-presidente do Instituto.
Debate técnico e articulação de políticas públicas
A programação do primeiro dia do fórum será dedicada à capacitação técnica, com painéis sobre diagnóstico, tratamento, custos das complicações e a jornada do paciente nos sistemas público e privado. Já no segundo dia, o encontro será voltado ao diálogo com gestores e lideranças do setor, abordando o cenário nacional, os desafios de acesso a exames e terapias e possíveis estratégias para conter o avanço dessas condições no Brasil, no Rio Grande do Sul e em Porto Alegre.
Para Vanessa Pirolo, presidente do Vozes do Advocacy, enfrentar as complicações do diabetes passa necessariamente pelo fortalecimento das estratégias de prevenção e pela coordenação adequada do cuidado. "Quando o sistema de saúde investe em diagnóstico e manejo precoce, é possível reduzir desfechos graves, como internações evitáveis, além de diminuir os custos relacionados a tratamentos de alta complexidade", conclui Vanessa.
O que é o Vozes do Advocacy?
É um coletivo formado por 25 associações e dois institutos de todas as regiões do Brasil. Integrantes da Federação de Associações e Institutos de Diabete e Obesidade, essas entidades unem forças para:
- Ampliar o acesso: Lutar por diagnósticos precoces e tratamentos modernos no SUS.
- Influenciar Políticas Públicas: Atuar junto ao Congresso Nacional para a aprovação de leis que protejam pacientes com diabetes e obesidade.
- Educação e Conscientização: Combater a desinformação e o preconceito (gordofobia) que impedem o tratamento adequado.