Rio - A defesa de Jairo Souza Santos Júnior, o Jairinho, acusado de matar Henry Borel em março de 2021, já estudava estratégias para adiar o julgamento desta segunda-feira (23). Antes da sessão, o assistente de acusação, Cristiano Medina da Rocha, informou que os advogados pretendiam abandonar o plenário, o que foi realizado no início da tarde.
"Estamos vendo manobras da defesa de Jairo no sentido de tentar adiar esse julgamento. Jairo e sua defesa estão com medo desse julgamento. A defesa já está apontando, nos últimos dias, que talvez abandone, de forma covarde, a plenária. Mas, caso isso aconteça, vou requerer à juíza que multe a defesa, porque é um descaso com o Judiciário e com a família, já que isso causa sofrimento à família, que está aguardando há cinco anos. Se abandonarem, vou requerer à juíza que a Defensoria Pública assuma o caso", disse Medina.
Durante a audiência, os advogados pediram o adiamento alegando falta de acesso ao material completo do notebook de Leniel Borel, pai do menino. Após negativa da magistrada Elizabeth Machado Louro, a defesa abandonou a sessão.
À princípio, o novo júri foi marcado para 22 de junho, porém, devido a Copa do Mundo, precisou ser remarcado para 25 de maio. No entanto, a data ainda pode sofrer alteração.
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Ainda no 2º Tribunal do Júri, no Centro do Rio, o assistente de acusação havia declarado que há provas irrefutáveis sobre a autoria do crime e o envolvimento de Monique Medeiros, mãe da criança.
"Não há dúvida alguma de que Jairo, na madrugada de 8 de março de 2021, torturou de forma cruel Henry Borel. Não há dúvida alguma de que Henry Borel teve uma morte cruel. E esse crime só aconteceu porque sua mãe abdicou do dever sagrado de proteger seu filho para ter uma vida de luxo ao lado daquele que era considerado príncipe de Bangu (...) Monique era sabedora de que aquela criança sofria calada, pedindo ajuda para sua mãe. Ela manipulou todos que estavam à sua volta — o pai, sua própria mãe e a babá — porque não queria ter qualquer interferência na sua vida luxuosa", afirmou.
Medina voltou a frisar que a defesa de Jairinho pretendia fugir da responsabilidade. "Não tenho dúvidas de que ambos serão condenados", acrescentou.
Ainda antes da sessão, um dos advogados que representa o ex-vereador, Zanone Júnior, revelou que o próprio réu teria solicitado que o julgamento não ocorresse sem que a defesa tivesse acesso a todo o material.
"Entendemos que é imprescindível que a defesa se debruce com mais calma sobre esse material (...) Conversamos com o nosso constituinte no interior do presídio, e ele nos informou que seria temerário, por parte de toda a banca defensiva, conduzir um plenário dessa envergadura — nós estimamos por volta de 10 a 12 semanas de júri", explicou.
A defesa de Jairinho também incluiu no processo mensagens que Leniel enviou para seu advogado e uma perita nos dias que sucederam a morte de Henry. Para os advogados, a interação com a médica legista Gabriela Graça, da Polícia Civil, coloca em dúvida a credibilidade dos laudos produzidos pelo Instituto Médico Legal (IML).
Além disso, Zanone descreveu que o cliente estaria confiante e alegou inocência de Monique Medeiros, mãe da criança.
"Ele está ótimo, inocente, está triste, cinco anos no cárcere, quem ficaria feliz!? mas está confiante e nós acreditamos no povo do Rio de Janeiro, acreditamos no jurado, mas não há como adentrarmos aquele plenário e, de forma desidiosa, de forma temerária, tocarmos essa liturgia, um procedimento tão grande que envolve a vida de duas pessoas, porque nós sempre batemos pela inocência da Munique também, que é um absurdo, um absurdo o que estão fazendo com essa mãe”, narrou.
Defesa já havia tentado suspender julgamento
Pouco mais de 10 dias antes do julgamento, a defesa do ex-vereador tentou suspender o Tribunal do Júri e impedir o uso dos laudos de necrópsia na sessão. Eles alegaram que o perito responsável pelo caso modificou os documentos após conversar com outra perita, contratada por Leniel Borel, pai do menino. Os advogados afirmam que os relatórios foram manipulados e evidências "falsas" foram incluídas.
Eles alegam que, na verdade, o menino chegou ao hospital vivo e sem hematomas e que as marcas teriam sido causadas pela própria equipe médica, em manobras de ressuscitação.
Juíza define abandono como ação 'ilegítima'
A juíza Elizabeth Machado Louro definiu a ação como "ilegítima" e "premeditada", pois os advogados já tinham comentado sobre a hipótese de abandono em reunião anterior.
"A conduta adotada pela defesa do acusado Jairo, para além de não encontrar qualquer respaldo legal, resulta na interrupção indevida do curso processual. Combater a presidência do ato e afrontar o respeito a atividade profissional dessa magistrada na condução dos trabalhos, culminando no abandono do plenário e consequente adiamento, é conduta que fere os princípios que norteiam as sessões de julgamento, além dos direitos dos acusados e da família da vítima. É ilegítimo abandono de plenário, dando a entender ao juízo que tal estratégia já era premeditada", disse a magistrada.
A magistrada condenou os cinco advogados de Jairo ao pagamento dos prejuízos causados para realização da sessão, definindo a conduta dos patronos como "ato atentatório contra a dignidade da Justiça". Caso aconteça um novo abandono por parte da defesa, a sessão será realizada mesmo assim, sendo Jairo defendido por um defensor públic
Monique tem liberdade concedida
Em meio a suspensão do júri desta segunda (23), a defesa de Monique solicitou à liberdade da cliente alegando excesso de prazo e que ela contribuiu para a realização do julgamento.
O pedido foi aceitou e a juíza determinou a expedição do alvará de soltura, condicionado ao cumprimento de medidas cautelares, ainda a serem definidas.
Protesto
Na porta do TJRJ, um grupo de manifestantes pede por Justiça. Entre eles, estão parentes de vítimas de violência, como a mãe da modelo Eliza Samudio, modelo assassinada em 2010, aos 25 anos, a mando do goleiro Bruno Fernandes.
Relembre o caso
Henry Borel foi levado ao hospital no dia 8 de março de 2021 com manchas roxas em várias partes do corpo. Imagens divulgadas posteriormente mostram o menino sendo carregado já sem vida no elevador do prédio em que Monique morava com Jairinho. Segundo o laudo de necropsia, Henry sofreu 23 lesões na madrugada em que morreu.
O caso foi investigado pela 16ª DP (Barra da Tijuca) que concluiu, em maio do mesmo ano, que o ex-vereador agredia a criança. O inquérito também revelou que Monique sabia que o filho vinha sendo vítima do padrasto, mas se omitia.
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