Para a diretora Janaina Cisi, usar celular na primeira infância é um crimeArquivo pessoal

O mundo está cada vez mais digital. Parece até mesmo que o celular virou uma extensão do corpo e não tem como sobreviver sem ele. Quem nunca voltou em casa para apanhar o aparelho tão poderoso que atire a primeira pedra. Se você entra no metrô, no ônibus, na barca e até mesmo dirigindo muita gente não deixa de dar aquela espiadinha no celular. Mas será que o excesso não prejudica as pessoas, o que dirá aquelas bem pequenininhas que ainda estão com seu cérebro em formação? Nâo é raro pais deixarem seus filhos com celulares, mas será que isso é bom na primeira infância? A maioria dos especialistas diz  que não.Pensando nisso, a Escola Fun Kids, na Tijuca, que atende alunos dos 4 meses até o segundo ano do Fundamental, resolveu fazer um projeto para evitar o uso das telas do celular e os alunos puderam fazer pesquisas na internet, sob a supervisão de cada responsável em casa, e no ambiente escolar, supervisionado pelas professoras.Há mais de 25 anos na educação, Janaina Cisi, diretora da creche, vê o uso do celular, principalmente na primeira infância, como um crime. "Enxergo muita permissividade das famílias com o uso do celular. Algumas crianças inclusive , através de desenhos, reproduzem jogos  personagens e até cenas de violência . Não há razão , justificativa para o acesso . Até porque, se a criança tem é porque alguém deu . O estrago está sendo cada vez MAIOR é assustador com o que nos deparamos'', diz a profissional, acrescentando que na escola o uso do celular não é permitido em hipótese alguma.
A cidade pelo olhar dos alunos
Orgulhosa, Janaina fala sobre o trabalho e dos belos resultados que virou uma exposição na unidade. "Nasceu da necessidade de cada criança enxergar através dos seus próprios olhos a cidade do Rio de Janeiro . Não pensávamos em fazer nada sozinhos , pois sempre acreditei no potencial de cada professor, sendo ele o condutor para que cada aluno virasse o protagonista de um lindo trabalho . O resultado foi extraordinário. Cada mãozinha , cada pincelada de tinta , cada papel amassado … tudo eles participaram e nossa EXPO RIO foi um sucesso !".
Ela conta que os pequenos retrataram, de forma criativa, o Bio Parque, Floresta da Tijuca, Corcovado , Praia de Copacabana , o bairro da Tijuca , a Rocinha e pontos turísticos na nossa cidade. "A creche proporcionou essa experiência não só para os alunos e equipe, mas também para cada família que nos prestigiou. Envolvemos cada um com ajuda de materiais, arrecadação de sucatas e pesquisas para dados serem estudados. O conhecimento acontece dessa forma na nossa escola'', explica Janaína. A profissional  pontua que cada aluno aprende através de experiências , vivências e parceria . "Usamos a tecnologia a nosso favor para o enriquecimento do trabalho , curiosidades e até inspirações . Porém , o verdadeiro sentido dessa aprendizagem vai muito além de uma tela , ela acontece de forma natural e espontânea". Além disso, os alunos também fizeram entrevistas com os funcionários da escola para confecção de um jornal.
Pedagoga com especialização em Educação Infantil, Janaína defende a primeira infância como a fase mais importante na vida de uma criança, e isso traz o não uso de telas , podendo proporcionar experiências reais , estímulos naturai , o direito de aprender sendo criança de verdade . "Não podemos enquanto educadores negligenciar e normalizar o uso de aparelhos celulares dentro e fora do ambiente escolar . Conseguimos fazer desse projeto uma oportunidade incrível de elevar o quanto nossa cidade pode e deve ser considerada um dos mais lindos cartões postais pelo olhar de cada criança'', finaliza

Importância do não uso das telas

A diretora da Fun Kids não está sozinha na luta pelo não uso de celulares por crianças pequenas. Diversos especialistas foram ouvidos para essa matéria. Veja a opinião deles sobre o assunto


NEUROLOGISTA INFANTIL ROBERTA MACHADO
"Do ponto de vista neurológico, o cérebro da criança pequena ainda está em formação e precisa de estímulos adequados para se desenvolver de forma saudável. O uso excessivo de telas pode interferir na atenção, na linguagem e até na qualidade do sono. Quando utilizado, deve ser por períodos curtos, sempre com supervisão e conteúdo apropriado, mas o mais importante ainda é garantir tempo de qualidade com interação, movimento e brincadeiras”, afirma a Dra. Roberta Machado, neurologista infantil, com formação pela Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP) e pela Universidade de Barcelona, atuando na área de neurodesenvolvimento.
NEUROPSICOPEDAGOGA GABRIELA MAZARO
"A primeira infância é um período em que o aprendizado acontece por meio da vivência concreta e das relações. Quando a tela passa a ocupar esse espaço, a criança perde oportunidades importantes de desenvolver criatividade, autonomia e habilidades sociais. Na escola e em casa, é essencial que adultos proponham atividades lúdicas, interação e experiências reais, além de estabelecer limites claros para o uso de dispositivos", afirma Gabriela Mazaro, Diretora Escolar e Neuropsicopedagoga, graduada em Pedagogia, História e Arte, com especializações em Gestão Escolar, Neuropsicopedagogia e Educação Inclusiva, além de MBA em Gestão Escolar pela USP, e com 23 anos de experiência na área da educação.
OFTALMOLOGISTA LARA MURAD
"O uso precoce e excessivo de telas em crianças de creche pode trazer impactos importantes para a saúde ocular. Nessa fase, o sistema visual ainda está em desenvolvimento e a exposição prolongada a celulares, tablets e televisores pode favorecer o aparecimento de miopia, além de causar ressecamento ocular, irritação e redução da frequência do piscar. Outro ponto de atenção é a distância e o tempo de foco em objetos próximos, que sobrecarrega a visão e pode interferir no desenvolvimento visual adequado. O ideal é evitar ao máximo o uso de telas nessa faixa etária e priorizar atividades ao ar livre e estímulos visuais naturais”, orienta a médica oftalmologista Dra. Lara Murad.
PEDIATRA RENATA CASTRO
"A criança pequena precisa explorar o mundo com o corpo, com o olhar e com a interação com outras pessoas. O uso frequente de telas pode atrasar o desenvolvimento da fala, prejudicar o sono e até impactar o comportamento, deixando a criança mais irritada ou menos interessada em brincadeiras. O ideal é evitar ao máximo nessa fase e priorizar atividades como leitura, brincadeiras e convivência em família", explica a pediatra Renata Castro.

PSICÓLOGA ALICE ARAUJO
"A primeira infância é um período fundamental para o desenvolvimento da criança. Na Terapia Cognitivo-Comportamental, entendemos que experiências iniciais influenciam pensamentos e emoções. É importante que ela não fique excessivamente conectada a telas e aparelhos, mas que tenha acesso a vivências que estimulem criatividade, curiosidade e pensamento crítico. Escolas e pais podem incentivar o lúdico, brincadeiras, visitas a museus, contato com livros e histórias, formas de aprender brincando. Esses momentos ajudam a formar autonomia, imaginação e capacidade de relação com o mundo, sendo decisivos para o desenvolvimento emocional e cognitivo ao longo da vida", diz Alice Araujo, que é Diretora Clínica da Psicare na Tijuca.
PSIQUIATRA ANA CAROLINE SANTANA

"O uso de telas, sobretudo em crianças menores de 6 anos, está associado a diversos prejuízos. Nos primeiros anos de vida, o desenvolvimento neurológico depende de experiências humanas, concretas e presentes: vozes reais, rostos expressivos, toque,movimento, troca. Quando uma tela ocupa esse espaço, não é apenas um entretenimento inocente, é uma substituição com custos altos em termos de neurodesenvolvimento. O neurocientista francês Michel Desmurget, autor do livro A fábrica de cretinos digitais (La
Fabrique du crétin digital) reuniu centenas de estudos para documentar esses prejuízos. O uso precoce de dispositivos digitais está associado a atrasos na linguagem e na fala: a
criança aprende a falar ouvindo adultos que respondem a ela, e a tela não responde.
Está associado também a dificuldades de atenção e funções executivas: o ritmo acelerado os estímulos fragmentados das telas são incompatíveis com o desenvolvimento do córtex pré-frontal, que ainda está em desenvolvimento. A luz azul e a superestimulação antes de dormir comprometem o sono, e o sono, nessa fase, não é só descanso: é consolidação de memória, regulação emocional e maturação cerebral. Há ainda um prejuízo menos visível, mas igualmente grave: o vínculo. Quando o cuidador está absorvido nas telas - ou quando a tela substitui o colo e a interação-, a criança perde uma das ferramentas mais essenciais do desenvolvimento: a sincronia afetiva com outro serhumano.
A OMS e a Academia Americana de Pediatria recomendam zero telas antes dos 2 anos euso restrito inclusive até na adolescência. O cérebro em formação precisa de estímulos  fora das telas para se tornar capaz de pensar, sentir e se relacionar. Por isso, proteger esse tempo é uma medida de saúde pública", alerta. Ana Caroline Santana é médica formada pela Faculdade de Medicina de Petrópolis epós-graduada em Psiquiatria pelo IEP do Hospital Israelita Albert Einstein.