"A dança é a minha liberdade. Foi através dela que ganhei o mundo, superei preconceitos, quebrei paradigmas e construí minha própria trajetória. A dança sempre foi e continuará sendo o caminho que me move, me expressa e me conecta com a vida". A declaração do dançarino Carlinhos de Jesus só mostra o que muita gente está aprendendo e dá o tom para o Dia Internacional da Dança, celebrado em 29 de abril. Se a música é remédio para a alma, a dança faz bem para o corpo e mexe com as emoções. E isso o professor Lucas Caderusso, que integra a Cia de Dança de Carlinhos de Jesus, sabe muito bem.
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"Eu danço desde os meus 5 anos de idade, comecei pela dança de salão, fui para o ballet, jazz e danças urbanas mais tarde. E a dança virou um grande amor na minha vida! A dança, para mim, é uma forma de cuidar do corpo e da mente ao mesmo tempo. Ela fortalece, melhora o equilíbrio e ainda libera aquela sensação boa de bem-estar. Além disso, me ajuda a expressar o que às vezes nem consigo falar. É movimento, é energia e é uma conexão comigo mesmo", conta Lucas.
A dança também tem o poder de melhorar a saúde mental. "Ela contribui porque movimenta o corpo, libera hormônios de bem-estar e melhora a autoestima. Além disso, ocupar a mente com música e movimento ajuda a aliviar a ansiedade e dá uma sensação de leveza. Em muitos casos, isso auxilia no enfrentamento da depressão e da ansiedade", pontua.
Lucas é bailarino e professor e não tem predileção por alguma modalidade em especial. "Danço um pouco de tudo, é difícil pra mim responder se me identifico mais com uma ou com outra. Eu gosto mesmo é de estar em movimento, dançando e sendo feliz. A dança é tudo na minha vida, foi ela quem me proporcionou viajar pelo mundo, dançar em festivais nacionais e internacionais, fazer show com cantores. E também foi ela que me mostrou que posso mudar a vida de alguém com a minha arte, deixando tudo mais leve e divertido", afirma.
Paixão pessoal
A também professora de dança, Amanda Borges Falco só vê beneficios. "Considero a dança uma paixão pessoal, é umas das atividades mais completas, traz força e movimento para o corpo todo. Mexe com a autoestima, melhora o humor das pessoas, alivia o estresse do dia a dia, une pessoas diferentes em um mesmo ambiente com o objetivo de se divertir", diz ela, acrescentando que alunos seus já diminuíram doses de remédios antidepressivos depois que começaram a praticar. "Alguns até pararam de tomar por ter incluído aulas de dança sua vida e isso é uma das maiores conquistas para um professor", comemora.
Amanda dança desde os 6 anos, começou na ginástica rítmica e logo depois na dança de salão, mas gosta de todas. "Eu amo dançar independente do ritmo ou estilo de música, mas me identifico mais com a dança de salão que também é a que prático por mais tempo. Mas tocou música estou me movimentando".
E a dança foi além na vida da professora que nem imaginava estar à frente de uma turma. "Durante minha história trabalhar com dança não era exatamente o meu plano, então cheguei a ficar uns anos sem frequentar aulas ou bailes. Adoeci ao longo desse tempo e decidi voltar para os exercícios e cuidar da minha saúde, foi onde a dança me chamou de volta e me curou. Hoje não é apenas uma profissão, é onde me sinto bem, onde encontro minha cura de corpo e alma, meu refúgio em dias ruins e onde encontro pessoas incríveis que tenho o prazer de chamar de alunos e amigos!", finaliza.
Disciplina, gingado e fluidez
Quem pratica dança sabe da importância que ela tem em suas vidas, seja como diversão, atividade física, cura ou terapia. A arquiteta e urbanista Émilie Pourbaix, de 45 anos, é praticante de ballet clássico e de street jam e adora as duas. "Embora visualmente pareçam opostos — um pautado pela estrutura e pela busca da perfeição técnica, e o outro pela pulsação urbana , fluidez e expressão — para mim, o ballet clássico e o street jam são as duas faces de uma mesma moeda que refletem minha identidade. O ballet me trouxe a disciplina e a consciência dos músculos e a força que imprimimos para que nós equilibremos e pareçamos muito leves, enquanto o street me deu o chão, um gingado e a fluidez. Praticar ambas é como falar dois idiomas diferentes para expressar o mesmo sentimento. Em uma, eu busco a elevação; na outra, a descarga de energia. Juntas, elas me completam".
Émilie também comprova que a dança cura. "Eu não apenas acredito, eu compreendo ser a prova viva disso. Quando sofri um acidente durante a pandemia e quebrei a tíbia e a fíbula, ouvi na emergência que nunca mais voltaria a dançar o ballet. Reconstruí o osso com titânio, tive complicações e sequela e removi através de nova cirurgia. Foi um caminho longo e doloroso, mas a dança foi o meu horizonte, eu tinha esse objetivo porque sabia como me sentia e como me curou inúmeras vezes. Quando finalmente consegui volrar, a dança não curou apenas o meu corpo e a minha mobilidade; curou a minha alma. O ballet me ensinou a ter paciência com o processo, e hoje, estar de volta há quase quatro anos, é o meu maior triunfo. A dança me devolveu a mim mesma", reflete.
Para a arquiteta, "dançar é o reflexo da nossa alma e a minha forma mais pura de expressão. Quando estou no palco, a sensação é de que a gravidade deixa de existir; é como se eu estivesse, finalmente, voando. Tanto no street quanto no ballet, o que sinto é uma liberdade absoluta. É aquele instante em que o mundo lá fora silencia e resta apenas a felicidade de estar viva e em movimento. É o momento em que nosso corpo pode se tornar poesia", diz.
Atividade completa
A cientista de dados Iane Coutinho, de 37 anos. "Dança é a minha vida praticamente porque comece aos seis anos de idade. Fiz ballet até os 18 anos, parei por um tempo e na academia faço o street jam, outra modalidade de dança que consegue me satisfazer, me faz feliz. Às vezes quando eu não estou muito bem ou triste, venho para cá e consigo relaxar, me divertir, trabalhar a minha mente. É uma atividade completa, trabalho a mente, o espírito, você consegue socializar", diz ela, que gosta muito de ballet, mas está descobrindo no street jam uma nova forma de se expressar e uma paixão. "A dança me transforma, é como se fosse uma terapia, me satisfaz como ser humano e me traz muita felicidade", destaca.
'Amor, expressão e salvação'
Com formação técnica em dança pela Faetec, Kayana Lima, de 21 anos, tem completa paixão por estar sempre em movimento com o seu corpo. "Vejo a dança como uma das formas de expressões mais lindas, onde o seu corpo coloca para fora qualquer tipo de sentimento em formato de dança e isso engloba todas as modalidades possíveis. Uma das coisas sensíveis e lindas é ver e saber o como isso toca o público de uma maneira emocionante, o retorno que temos ao fim de cada apresentação e saber o que cada pessoa sentiu e de como aquilo tocou ela é especial. É perceber que na coreografia e no significado de tudo que você criou, tinha outras interpretações maravilhosas diante de outros olhos que a vezes nós mesmos que criamos, não conseguimos ver", avalia.
Kayana conta que a dança sempre esteve em sua vida. "Sou do teatro desde que me entendo por gente, mas a maneira como a dança se firmou na minha vida foi de uma forma inesperada e surpreendentemente necessária. Sabe quando você sabe que precisa de algo a mais, mas não sabe exatamente o quê? Esse algo era ela, a dança! Chegou com tudo, balançando toda a minha rotina e me mostrando o como eu era forte, capaz e o quanto eu ainda podia me surpreender de fazer algo novo. A importância e o significado dela são nada mais nada menos do que amor, expressão e salvação. É algo genuíno e puro que só se sente", destaca.
Caminho para a paz
A empresária Cris Luz, de 44 anos, conta que sua trajetória não aconteceria sem a dança. "Sempre esteve na minha vida, desde pequena, na adolescência até os dias de hoje. Encontrei, na dança, quando pequena, paz nesse caminho por faltar elementos fundamentais no meu caminho. Então, a dança preencheu esse espaço. E assim foi cada momento, cada dia. Eu sempre digo que a dança cura, faz bem para a vida, para a saúde".
E o movimento foi tão importante que ela virou liderança de um grupo de dança de funk das antigas. "Isso me faz bem, eu fico orgulhosa. Eu danço com a minha alma, esqueço de tudo. E sempre foi assim e hoje está mais explícito na minha vida. Se hoje estou aqui com todos os problemas do dia a dia do brasileiros é porque me agarrei muito a dança. Faço de salão e passinho das antigas. Sempre incentivo as pessoas. Várias meninas que entraram no grupo vieram com depressão, outras com casos de separação e estão bem, elas agradecem. Isso não tem preço. A dança cura e ela me curou", festeja ela.
Movimento ritmado estimula o cérebro
Terapeuta Sistêmica, Adriana Ribeiro afirma que a dança é uma linguagem ancestral do corpo, capaz de promover saúde mental, equilíbrio emocional, autoestima e reconexão interna. "Quando dançamos, ativamos áreas cerebrais relacionadas ao prazer, à memória, à coordenação e à criatividade. Há liberação de neurotransmissores como endorfina, dopamina e serotonina, associados à sensação de bem-estar, motivação e redução do estresse. Por isso, a dança pode ser uma grande aliada no combate à ansiedade, ao desânimo e ao excesso de tensão acumulada no dia a dia", afirma a profissional.
Além dos benefícios neurológicos, a dança também favorece foco, concentração, presença e criatividade. "O movimento ritmado estimula o cérebro e contribui para uma mente mais ativa e saudável em todas as fases da vida. No campo emocional, dançar permite expressar sentimentos que muitas vezes não encontram palavras: raiva, alegria, medo, tristeza, amor e sensualidade podem ganhar espaço por meio do corpo. Muitas pessoas relatam sentir-se mais leves, vivas e conectadas consigo mesmas após dançar", diz Adriana.
A especialista explica que a dança tem papel transformador na autoestima. "O corpo deixa de ser apenas alvo de críticas e passa a ser instrumento de expressão e potência. Isso fortalece a autoconfiança e a presença". Ela conta que o quadril merece destaque especial. "Essa região está simbolicamente ligada ao prazer, à criatividade e ao impulso para a vida. Ao movimentá-lo, muitas pessoas sentem mais energia vital e leveza."
Além disso, dançar em grupo fortalece vínculos sociais, reduz a solidão e amplia a sensação de pertencimento. "Mais do que aprender passos, dançar é permitir que o corpo solte pesos antigos e lembre que viver também é movimento. Em muitos casos, aquilo que não conseguimos dizer com palavras, o corpo consegue transformar quando dança", finaliza.
'Nunca force a barra'
Com mais de 10 anos de experiência, Thais Rodella é mentora, professora e palestrante em Medicina do Estilo de Vida e Comportamento. Ela atua conectando ciência, bem-viver e performance sustentável, ajudando pessoas, equipes e empresas a construírem rotinas mais humanas, com atenção, saúde e resultados reais. Thais Rodella iniciou sua trajetória no movimento ainda jovem, como bailarina, profissão que exerceu até os 24 anos. Aos 15, já dava aulas e desde então nunca deixou de ensinar.
"A dança é uma das formas mais completas de movimento porque ela integra corpo, mente e emoção ao mesmo tempo. Dentro da Medicina do Estilo de Vida, a gente entende que saúde não vem de ações isoladas, mas da forma como conduzimos nossas escolhas diariamente. E a dança entra exatamente aí. Ela melhora condicionamento físico, coordenação, equilíbrio, mas também regula o sistema nervoso, reduz estresse e aumenta sensação de prazer, pontos fundamentais para sustentar qualquer hábito. Diferente de atividades mais mecânicas, a dança envolve significado, conexão e presença. E isso aumenta muito a chance de continuidade".
De acordo com Rodella, também existe a reconexao consigo mesmo e a sua expressão corporal te faz muito mais pertencente à sua saúde. Além disso, ela salienta que a ''a dança me ensinou algo que carrego na minha rotina- o corpo fala antes da gente perceber. Falando na linguagem que outros bailarinos entenderão: "nunca force a barra!", brinca, aos risos.
De olho no palco
A diretora de produção Tati Garcias, ex-bailarina, comemora o Dia Internacional da Dança de olho no palco, no ensaio e em 30 grupos de whatsapp. Tati é sócia do coreógrafo Alex Neoral, com quem fundou a Focus Cia de Dança, declarada Patrimônio Imaterial do Rio. Gestora, Tati acerta o passo para o 26° ano seguido de amor à arte, em movimento pleno. O celular é extensão do seu corpo para mensagens com técnicos, bailarinos, figurinistas, produtores e, claro, Neoral.
Daqui a uma semana, a Focus segue novamente para a Europa – apresenta o espetáculo “Still Reich” em Leiria, Torres Novas, Cascais e Torres Vedras, em Portugal -, mas a cabeça da diretora também mira o Rio, onde "Cinequanon" volta para nova temporada dia 28 de maio, no Teatro Carlos Gomes, na Praça Tiradentes.
Ao longo de 2026, será a primeira vez da companhia na China e Argentina. Aqui no Brasil, a Focus celebra um feito: faz temporada em Macapá, a única capital do país em que ainda não tinha subido ao palco. "Disciplina, adrenalina e amor embarcam com a gente por toda parte. É minha vida", resume.
Saiba mais
A data não foi escolhida ao acaso. Instituída em 1982 pelo Comitê Internacional da Dança da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO), o dia 29 de abril é uma homenagem ao nascimento do bailarino e professor francês Jean-Georges Noverre (1727-1810).
Considerado o criador do balé moderno, Noverre foi um visionário que lutou para que a dança deixasse de ser um mero entretenimento decorativo nas cortes para se tornar uma arte com narrativa, capaz de expressar emoções profundas através da pantomima e do rigor técnico.
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