O médico Leonardo Teixeira diz que obesidade deve ser tratada de forma integradaDivulgação

Da farmacoterapia à cirurgia, o Brasil dispõe de um espectro terapêutico completo. O que não existe é a lógica de cuidado que conecta essas peças na jornada de cada paciente. "A medicina já sabe que a obesidade é uma doença crônica. O problema é que continuamos tratando-a como se não fosse", diz  o médico Leonardo Teixeira, especialista em tratamento endoscópico da obesidade.
Organizações internacionais de saúde reconhecem a obesidade como uma doença crônica, recorrente e multifatorial, cuja abordagem terapêutica exige estratégias integradas e de longo prazo.A mensagem central dessas recomendações é direta: nenhuma intervenção isolada, seja farmacológica, comportamental, procedimental ou cirúrgica, é suficiente quando aplicada como estratégia única. O tratamento eficaz exige combinação e continuidade.
No Brasil, a dimensão do problema torna essa discussão inadiável. A pesquisa Vigitel 2024, do Ministério da Saúde, registrou prevalência de obesidade em 25,7% dos adultos, 3 um salto de 118% desde 2006. Quando se inclui o sobrepeso, são 62,6% da população. Dados do Sisvan, na atenção primária do SUS, apontam 36,3% de obesidade entre adultos atendidos. São números de pandemia. E não se enfrenta pandemia com intervenções pontuais.
O paradoxo é que nunca houve tantas ferramentas disponíveis. Nos últimos cinco anos, o arsenal terapêutico se ampliou de forma expressiva. "Agonistas de GLP-1 e outros fármacos demonstraram eficácia robusta em ensaios clínicos.Procedimentos endoscópicos como a gastroplastia endoscópica acumularam evidência publicada em periódicos científicos",  explica o profissional.
"Técnicas cirúrgicas evoluíram em segurança. Protocolos nutricionais e comportamentais ganharam base científica sólida. Mas cada uma dessas ferramentas, na maioria dos serviços, opera de forma isolada.
O endocrinologista prescreve. O nutricionista orienta. O endoscopista realiza o procedimento. O cirurgião opera. Cada um no seu consultório, com seu prontuário, no seu tempo. Não há plano de acompanhamento integrado. Não há protocolo de transição entre modalidades", pontua o médico.
"O paciente navega entre profissionais como se estivesse montando sozinho um quebra-cabeça que ninguém lhe mostrou completo", alerta o endoscopista. A jornada típica ilustra essa fragmentação. O paciente começa com mudanças comportamentais, como dieta e exercício, quase sempre por conta própria.

Estudos mostram que intervenções baseadas exclusivamente em estilo de vida apresentam grande dificuldade de manutenção de resultados no longo prazo. Quando os resultados não se sustentam, parte avança para a farmacoterapia.
Outra parte, frustrada, abandona. Muitos pacientes sequer chegam a conhecer intervenções endoscópicas como a gastroplastia ou o balão intragástrico, frequentemente por falta de informação sobre essas opções terapêuticas.
Esse dado é revelador. Estudos observacionais indicam que o conhecimento da população sobre procedimentos endoscópicos para obesidade ainda é limitado. Não se trata de recusa informada. É ausência de informação. E essa lacuna não está no paciente. Está no modelo assistencial que não apresenta o espectro completo de recursos disponíveis.
O espectro terapêutico para a obesidade, quando desenhado como jornada, tem uma lógica clínica clara. Na base, permanente e contínua, estão as mudanças comportamentais: reeducação alimentar, atividade física, acompanhamento psicológico. Sobre essa base, a farmacoterapia atua como aliada em momentos
específicos, sob monitoramento rigoroso.
Os procedimentos endoscópicos, como a Gastroplastia Endoscópica (ESG), que reduz o volume gástrico por suturas internas sem incisões, e o Balão Intragástrico (BIB), que promove saciedade por ocupação volumétrica temporária, oferecem suporte estrutural minimamente invasivo para quem precisa de intervenção além da farmacoterapia, mas não necessita ou não deseja cirurgia E a cirurgia bariátrica segue como recurso para os casos elegíveis. Nenhum desses níveis compete com os demais. Todos fazem parte do
mesmo percurso.
De acordo com o profissional, a diretriz ASGE-ESGE de 2024, publicada no Endoscopy, documentou perda
média de 18,2% do peso corporal total com gastroplastia endoscópica no grupo de tratamento. O estudo MERIT, publicado no Lancet em 2022, demonstrou que 68,3% dos participantes mantiveram pelo menos 25% de perda do excesso de peso após 104 semanas. Estudos clínicos também demonstram eficácia do
balão intragástrico quando combinado a mudanças de estilo de vida e acompanhamento multidisciplinar.
Protocolos que integram diferentes modalidades terapêuticas vêm demonstrando resultados clínicos relevantes no manejo da obesidade, reforçando a importância de abordagens combinadas e acompanhamento contínuo.
Diabetes e hipertensão já são tratados com essa lógica há décadas. "Nenhum cardiologista prescreve um anti-hipertensivo por seis meses e espera que a pressão permaneça controlada após a suspensão. Nenhum diabetologista interrompe metformina e assume que a glicemia se manterá estável. Na obesidade, por razões culturais e estruturais, a lógica ainda é outra: trate, pare, espere o melhor. Os dados mostram que o melhor não acontece sozinho, afirma.
O paciente não precisa de mais uma ferramenta. Precisa de um mapa. "Um percurso clínico contínuo, com cada recurso ativado no momento certo, por profissionais que conversam entre si. Enquanto não construirmos isso, continuaremos tendo o melhor arsenal terapêutico do mundo, e os piores
resultados populacionais", finaliza.