Para Carlos Nhanga, é preciso planejamento obrigatório para toda operação policialDivulgação
A violência no Rio assusta diariamente. Mães, esposas e filhos chorando. Famílias devastadas porque tiveram seus entes queridos assassinados em assalto ou troca de tiros. E, apesar de o número de tiroteios ter diminuído neste ano, o de pessoas baleadas aumentou, segundo dados do Instituto Fogo Cruzado. Em março, menos tiroteios não se traduziram em mais segurança no Grande Rio. Apesar da queda de 13% nos registros de disparos, o número de pessoas baleadas cresceu, atingindo 139 vítimas no mês.
Os dados são do Instituto Fogo Cruzado e mostram que, enquanto os tiroteios passaram de 170 em março de 2025 para 148 neste ano, o total de baleados cresceu 6%, saindo de 110 para 139 pessoas. Ao todo, 72 morreram e 67 ficaram feridas. Em entrevista ao jornal MEIA HORA, o coordenador Regional do Instituto Fogo Cruzado, no Rio de Janeiro, Carlos Nhanga, fala sobre o assunto.
MEIA HORA: Por que aumentou o número de baleados no Rio, mesmo com os tiroteios diminuindo?
Carlos Nhanga: Menos tiroteios não significa necessariamente mais segurança. O que estamos observando é um aumento na letalidade e na gravidade dos confrontos. Em março, os tiroteios caíram 13% em relação ao mesmo período do ano passado, mas o número de baleados cresceu 6%, chegando a 139 vítimas. O principal fator por trás desse crescimento está nas ações policiais. Mais da metade dos tiroteios do mês, 51%, ocorreu nessas circunstâncias, e os baleados durante essas ações cresceram 63% em relação a março de 2025. Isso indica que, mesmo que os confrontos estejam ocorrendo com menor frequência, eles estão se tornando mais letais e impactando mais pessoas.
Também registramos um aumento preocupante nos baleados durante assaltos, que dobraram no período. Esses dados reforçam que a queda nos tiroteios não pode ser lida como um indicador isolado de melhora na segurança pública. É preciso olhar para o conjunto: quem está sendo baleado, em que circunstâncias e com que resultado. Enquanto as políticas de segurança não avançarem para além do confronto, incorporando inteligência, investigação e prevenção, continuaremos vendo esse descolamento entre menos tiroteios e mais vítimas.
MEIA HORA: São tantas balas perdidas. Acredita que a polícia seja despreparada?
Carlos Nhanga: As operações policiais precisam ser melhor planejadas e não podem ser a principal ação da política de segurança. Falta ao Rio um plano amplo, com metas, objetivos e que articule as diversas ações das forças de segurança. Em março, ao menos oito pessoas foram vítimas de balas perdidas no Grande Rio, metade delas atingida justamente durante ações policiais.
Em 2025 registramos 114 vítimas de balas perdidas, delas, 61 durante ações policiais. A questão não é simplesmente de preparo individual dos agentes. É uma questão estrutural. Precisamos avançar em pelo menos três frentes: planejamento criterioso das operações, com justificativa prévia baseada em inteligência; uso ampliado de câmeras corporais com acesso efetivo ao sistema de Justiça; e transparência sobre os resultados. Sem esses mecanismos, continuaremos contabilizando vítimas que não deveriam estar na linha de tiro.
MEIA HORA: O que pode ser feito para que pessoas inocentes não sejam feridas ou mortas?
Carlos Nhanga: O primeiro passo é exigir planejamento obrigatório para toda operação policial, orientada por um plano de segurança que seja baseado em dados e com foco na preservação da vida. Cada ação precisa ser justificada com base em investigação prévia, ter objetivos claros e contar com acompanhamento do Ministério Público. Operações sem planejamento colocam a população na linha de tiro, e os dados mostram isso mês a mês.
O segundo ponto é o uso efetivo das câmeras corporais. Elas existem, mas ainda são subutilizadas. Sem imagens, sem transparência, não temos responsabilização. Terceiro, é fundamental respeitar a presença de população civil no entorno das operações. Escolas, unidades de saúde, horários de maior circulação de moradores… tudo isso precisa ser considerado no planejamento. Por fim, e talvez o mais importante: a redução de vítimas inocentes passa por uma política de segurança que invista em inteligência e investigação. Quando você prende com base em informação qualificada, o confronto deixa de ser o único caminho. O Rio de Janeiro tem capacidade para isso. O que falta é vontade política para virar essa chave."
MEIA HORA: Como acha que o Instituto Fogo Cruzado possa colaborar ainda mais com a sociedade?
Carlos Nhanga: O Fogo Cruzado nasceu com uma missão clara: produzir dados qualificados sobre a violência armada para que a sociedade, a imprensa e o poder público possam tomar decisões informadas em evidências. Também acreditamos que podemos colaborar mais diretamente com gestores públicos. Dado bom nas mãos certas salva vidas.
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