Rio - Faltando pouco mais de um mês para a Copa do Mundo, a Rocinha, na Zona Sul, já está em clima de festa. Em um resgate de tradição, moradores coloriram a Via Ápia, principal rua da comunidade, com desenhos e bandeiras que revelam a expectativa pelo campeonato. O projeto, que contou com a participação de 35 pintores locais e mais de 80 voluntários, começou a ser produzido na madrugada de terça-feira (5) e foi concluído em menos de 24h.
A ideia é transformar o local em um grande ponto de encontro nos dias de jogos. Ao todo, foram mais de 1.000 m² de pintura. Segundo o presidente da Associação de Moradores, João Bosco, o espaço se transformou em uma verdadeira galeria a céu aberto.
"É uma coisa magnífica, a gente gosta de mostrar ao mundo todo como a Rocinha é um local de encanto. Nós ficamos muito orgulhosos da nossa comunidade, é uma coisa fantástica. Ainda mais que a Rocinha está sendo referência para outras comunidades, o que é bom para todo mundo", explica.
Entre cores e memórias
Para o social media e morador da comunidade, Vinícius de Medeiros, 23 anos, participar do projeto foi uma honra. Ao DIA, ele relembra o passado e frisa que muitas crianças da geração atual estão tendo a chance de vivenciar esse costume pela primeira vez.
"É um momento histórico para muitas crianças, essa nova geração que está vindo aí, que não viveu isso, sabe, no passado. Não viveu essa coisa que contagia, essa coisa que move todos nós, que é torcer pelo nosso país, torcer pelo Brasil. É uma cultura que estava meio esquecida assim. Tem muita gente que está vendo isso daqui pela primeira vez. Tem pessoas com o brilho no olhar novamente. É um entretenimento natural da gente, do brasileiro, que gosta de vestir a camisa mesmo, gosta de ter o nosso patriotismo", afirma.
Ao falar sobre processo de decoração, Vinícius conta que o trabalho começou ainda de madrugada, por volta das 4h, mas diz que todo o esforço valeu a pena.
"Foi um processo bastante árduo no quesito de obra. Tivemos o apoio da Associação de Moradores, que limparam a via, fecharam, fizeram a parceria, deram todo o suporte para a gente, todo o auxílio. E eu, como morador, poder participar disso, poder ajudar, foi incrível. Foi árduo? Sim, foi árduo, mas valeu a pena cada segundo, cada minuto. Depois, quando ficou tudo pronto, a galera ficou jogando bola aqui, as crianças com o olho brilhando, gravando vídeo, subindo drone... foi incrível", ressalta.
Para o social media, o resultado é melhor ainda do que o esperado. "Eu vivenciei um pouco no passado quando tinha as pinturas aqui nas ruas... tem ainda, vai ter agora a competição, mas tinha mais competição da rua mais pintada, da mais bonita. Mas isso daqui ficou, tipo assim, de outro mundo. Ficou demais assim. Além de ficar incrível, passou uma mensagem também, como a gente da Rocinha recepciona os nossos turistas", conta.
Representação e coletividade
Para a grafiteira e arte-educadora Malu Vibe, 30 anos, o projeto também leva a importância da coletividade para os jovens.
"Esse projeto foi uma idealização coletiva, com os artistas e pintores locais. Eu fiquei na parte de coordenação e, como sou arte-educadora, a gente trouxe a juventude local para fazer parte dessa cena que tem como propósito trazer a coletividade e mostrar que eles são capazes de transformar o lugar onde estão diariamente. É uma área super comercial, são 200 metros de pintura, com mais de 30 moradores, além da produção da associação que fechou a rua, o que foi um desafio por causa do comércio", explica.
Malu também relembra seu início na arte através da Copa do Mundo. "A primeira vez que vi um mutirão de pintura na Rocinha foi na época de Copa. Hoje trabalho há nove anos com arte e, como artista, para mim participar da obra é poder estar somando. Fiquei na coordenação levando minha experiência para que a cena acontecesse da melhor forma (...) A ideia é que isso fosse um espelho para mostrar que somos capazes, uma vitrine para as próximas ruas. Agora estamos fazendo as bandeirinhas", acrescenta.
Sobre o resultado final, a grafiteira reforçou orgulho da comunidade. "Como artista, a gente vê muitas emoções. É cansativo, mas o resultado final, ver as pessoas se sentindo representadas, ver a mídia registrando esse momento que não é violência, é arte, cultura e potência... isso é muito significativo. Ver o quanto está reverberando e a comunidade feliz, as pessoas já querendo trazer esse resgate de pintar as ruas para outras localidades também. Para a gente é só orgulho, pois a Rocinha hoje é um dos bairros mais visitados.
Por fim, Malu detalha a composição da obra, que possui três personagens centrais: um jovem negro com a tinta na mão pintando sua rua; um homem mais velho, tratando a longevidade que temos na Rocinha; e a representatividade feminina. Além do "caramelo", os cachorros que também representam o local.
"Tentamos trazer a representatividade local dentro da arte e as pessoas de fato se sentiram representadas, tanto pelas cores do Brasil quanto pela cultura do Rio de Janeiro de se reunir na rua através do futebol. Agora estamos no clima de Copa e, independente de não ser no Brasil, mostramos nossa potência", finalizou.
Atrativo turístico
Para Merynha Sorriso, guia de turismo, 35 anos, os desenhos são mais um ponto turístico.
"Os turistas estão parando pra tirar foto, os moradores. Ontem, por exemplo, aqui na Via Ápia, tinha crianças jogando futebol, as pessoas jogando capoeira, como se fosse um domingo de Copacabana, em que o pessoal para o trânsito só para a recreação. Esse resultado surpreendeu muito, fez eu me lembrar da época de criança, quando era pequena. Que essa Via Ápia encha, que venham muitos turistas e moradores para assistir os jogos aqui embaixo. Esse vai ser o diferencial”, disse.
Guia de turismo e influenciador digital, Guilherme Valentim, de 38 anos, destaca o significado da iniciativa.
"Pra gente foi muito significativo. Eu trabalhei na parte da divulgação, do marketing. Pra gente é um resgate de como era a Copa raiz, que a última vez que a gente viu essa tradição foi em 2002, no Penta, e em 2014 ainda teve um pouquinho do pessoal que foi no Mundial, mas aos poucos foi se perdendo. A gente resgatando isso, aqui na nossa favela, traz uma motivação a mais", afirma.
Ele frisa que a ideia já está alcançando outros lugares e chamando atenção das pessoas.
"É maravilhoso, não só pra mim, mas pra todos nós, todo mundo que participou do processo. Trazer essa tradição, poder fazer isso aqui no nosso quintal de casa e trazer e ver o colorir, ver as crianças se encantando quando veem o resultado, para a gente, é maravilhoso. Espero que isso não venha a morrer, que a gente venha a reacender e novamente manter isso adiante", acrescenta.
Veja vídeo do resultado final:
Movimento na economia local
Segundo o diretor de projetos e articulação da Associação de Moradores, William de Oliveira, o projeto contou com apoio da Tinta Coral e visa movimentar a economia local.
"A gente não quer uma favela que seja vista com violência, então, todos os dias a gente trabalha para que venha gerar emprego e renda, como gerou. Todas as pessoas ali, ou grande parte, eram moradores. A gente gera economia, empreendedorismo, até quando se gera divulgação, nossos influenciadores comunitários também ganham recurso com isso. Então, de todas as formas que a gente trabalha, gera emprego, renda e visibilidade para Rocinha", diz
O líder comunitário também comenta sobre a importância da visibilidade de projetos como esse.
"A gente tem um jargão que é o seguinte: O melhor lugar do mundo é o Brasil, o melhor lugar do Brasil é o Rio de Janeiro, e o melhor lugar do Rio é a Rocinha. A gente trabalha todo dia para que a Rocinha esteja pautada na mídia de uma forma boa, que venha trazer motivações. Em janeiro e fevereiro recebemos quase 80 mil turistas, então temos um desafio diário de cada dia levar uma proposta empreendedora e alegria para o morador", afirma.
William conta que a rua reuniu dezenas de crianças e adolescentes. "Ontem à noite, vários meninos ficaram jogando futebol na Via Ápia, jogando altinha... E a gente só vê isso, às vezes, em Copacabana, Leblon, em vias fechadas, e a gente pode vivenciar isso ontem à noite. A galera jogando bola, comércios cheios, o povo gostou, vimos a alegria do morador, das crianças (...) Para a gente ver a Rocinha ser uma provocadora de outras favelas, de viralizar para o mundo, para o planeta, é o que trabalhamos todo dia para isso", relata.
A Copa do Mundo de 2026 será a maior edição da história, ocorrendo de 11 de junho a 19 de julho com um formato inédito de 48 seleções. Pela primeira vez, o torneio terá três países-sede: Canadá, Estados Unidos e México.
Tradição
A tradição de enfeitar ruas teve início na Copa do Mundo de 1970, quando o Brasil conquistou o tricampeonato. Na década de 1990, bandeirinhas e desenhos nas vias se tornaram cada vez mais populares. Com o passar dos anos, no entanto, a decoração acabou perdendo força.
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