A médica residente Juliana Cintra optou pelo congelamento de óvulosArquivo pessoal

O sonho de ser mãe pode ser adiado por vários motivos: foco na carreira, falta de grana para manter um filho ou até o fato de não encontrar o parceiro ideal. O fato é que cada vez mais mulheres estão optando pelo congelamento de óvulos, como diversas artistas como Paolla Oliveira, Fernanda Paes Leme, Natália Lage, entre outras que resolveram fazer o procedimento. Este é o caso de Juliana Cintra, de 32 anos, médica residente do terceiro ano de Genética Médica, que realizou o  congelamento de óvulos.
"Resolvi fazer por causa da minha profissão e planos futuros de curto a médio prazo, além do meu status de relacionamento. Na área da genética, com a qual eu trabalho, temos bastante conhecimento a respeito dos impactos da idade materna no futuro reprodutivo", diz ela, que acredidta muito na técnica. "Até por compartilharmos experiência profissional com a equipe de reprodução, tive a possibilidade de realizar as consultas e o procedimento com profissionais que eu conhecia e confiava no trabalho. Então sim, acredito na técnica, ressaltando a importância de que esta seja realizada em clínicas credenciadas, por profissionais aptos e especializados. É fundamental checar todas estas informações antes de dar início ao processo de congelamento de óvulos", orienta ela, que ainda não tem filhos.
Para Juliana, a decisão é pessoal, mas ela conversa muito sobre o tema com amigas e pacientes. "Debater este tema é fundamental para que nós, mulheres, estejamos munidas de informação e autonomia pra tomarmos a melhor decisão - baseada em nossos valores pessoais e propósitos futuros, pontua.
Embora estudos indiquem que entre 5,7% e 11,1% das mulheres retornam para utilizar os óvulos congelados, segundo publicações na Human Reproduction Update e na American Journal of Obstetrics and Gynecology, especialistas destacam que esse número não diminui o valor da técnica. Pelo contrário, reforça seu papel como ferramenta de autonomia e planejamento. Mais do que uma solução única, o congelamento de óvulos, com nome científico de criopreservação, passou a integrar uma abordagem estratégica da medicina reprodutiva.
De acordo com o médico geneticista Paulo Zattar Ribeiro, o principal ganho está na ampliação de possibilidades. “A medicina não promete interromper o tempo, mas oferece às mulheres a chance de preservar o potencial reprodutivo em uma fase mais favorável da vida. Isso muda completamente o ponto de partida no futuro", explica.
Hora para congelar
Se há um consenso na literatura científica é este: o momento do congelamento faz toda a diferença. Mulheres que congelam óvulos antes dos 35 anos podem alcançar cerca de 50% de chance de ter nascido vivo com aproximadamente 10 óvulos preservados, segundo estudos publicados no New England Journal of Medicine. Já após os 40 anos, essa probabilidade pode cair para menos de 20%, conforme meta-análises da Human Reproduction Update.
Na prática, isso significa que a decisão precoce tem impacto direto nos resultados. Segundo a ginecologista Melissa Cavagnoli, entender esse timing é essencial. "Quando o congelamento é feito mais cedo, trabalhamos com óvulos de melhor qualidade, o que aumenta significativamente as chances de sucesso no futuro. É uma estratégia que pode fazer muita diferença lá na frente", afirma a profissional.
Além da idade, a quantidade de óvulos congelados também influencia os resultados, mas sempre associada à qualidade genética.Com o passar dos anos, aumentam as chances de alterações cromossômicas, o que pode impactar a formação de embriões viáveis. Ainda assim, os avanços laboratoriais têm melhorado de forma consistente as taxas de sobrevivência dos óvulos após o descongelamento. "A grande virada da medicina reprodutiva foi permitir que qualidade e tempo trabalhem a favor da mulher e não apenas contra”, explica Paulo Zattar Ribeiro.
Planejamento, não promessa
O fato de muitas mulheres não utilizarem seus óvulos congelados também revela um aspecto positivo: a vida reprodutiva não segue um único roteiro. Mudanças de planos, gravidez espontânea ou novos contextos pessoais fazem parte desse cenário. Nesse sentido, o congelamento funciona como uma espécie de reserva de possibilidades. Não usar os óvulos não significa que a decisão foi desnecessária. Significa que a mulher teve opções e isso, por si só, já é um ganho importante", esclarece Melissa Cavagnoli.
Especialistas são unânimes ao afirmar que o congelamento de óvulos ganha maior valor quando encarado como uma medida preventiva. Realizado antes dos 35 anos, o procedimento pode representar uma diferença significativa nas chances reprodutivas futuras.

Como resume Paulo Zattar Ribeiro: "A autonomia reprodutiva não está em garantir a maternidade, mas em aumentar as possibilidades de escolha. E, nesse contexto, o tempo quando bem utilizado pode ser um aliado poderoso.”. Em entrevista ao jornal O DIA, Paulo Zattar e Melissa Cavagnoli falam mais detalhadamente sobre o assunto.
O DIA: Existe algum aspecto negativo em congelar os óvulos?
Paulo Zattar Ribeiro: O congelamento de óvulos é hoje uma técnica bastante consolidada e segura dentro da medicina reprodutiva. Porém, é importante que ele não funciona como uma “garantia” de gravidez futura. O principal ponto é que a idade em que os óvulos são congelados impacta diretamente na qualidade deles. Quanto mais jovem a mulher realiza o procedimento, maiores costumam ser as chances de sucesso no futuro.
Além disso, o processo envolve estimulação hormonal dos ovários e um procedimento para coleta dos óvulos, que apesar de seguros, não são totalmente isentos de riscos e desconfortos. Outro ponto importante é o aspecto emocional: muitas mulheres acabam criando uma falsa sensação de segurança absoluta em relação à fertilidade futura, quando na verdade o congelamento reduz o impacto da idade ovariana, mas não elimina completamente as dificuldades reprodutivas relacionadas ao envelhecimento.
Melissa Cavagnoli: O único aspecto negativo no meu ponto de vista é que o congelamento de óvulos não é uma garantia de uma gravidez no futuro porque vai depender da idade que ela congelou os óvulos e da quantidade, quanto mais óvulos nós conseguimos congelar e quanto mais jovem essa paciente, de preferência antes dos 35 anos maiores sao as probabilidades. No momento do congelamento a gente não consegue avaliar a qualidade desses óvulos, a gente supõe a qualidade através da idade da paciente, mas certeza só vamos ter quando formos fertilizar esses óvulos e a paciente for engravidar. O aspecto negativo é que o fato de congelar óvulos não é uma garantia de gravidez no futuro
O DIA: Tem algum limite de idade para a fertilização, seja no âmbito da medicina ou legalmente? Eu congelei com 35 anos mas pretendo que a fertilização seja feita com 60. Existe algum problema?
Paulo Zattar Ribeiro: Do ponto de vista biológico, utilizar óvulos congelados aos 35 anos é muito melhor do que tentar engravidar naturalmente em idade avançada, porque a qualidade genética do embrião dependerá da idade em que o óvulo foi congelado.
Porém, existe uma discussão médica e ética importante em relação à idade gestacional avançada. No Brasil, o Conselho Federal de Medicina recomenda cautela em gestações após os 50 anos, principalmente pelos riscos maternos aumentados, como hipertensão, diabetes gestacional, complicações cardiovasculares e maior risco obstétrico geral.
Ou seja, o principal problema não é o óvulo congelado em si, mas sim a capacidade do organismo de sustentar uma gestação em idade mais avançada. Cada caso precisa ser avaliado individualmente, considerando saúde cardiovascular, metabólica e condições clínicas da paciente.
Melissa Cavagnoli: Para colher o óvulo é sempre mehor antes dos 35 anos que é o momento onde a gente tem a maior quantidade e a melhor qualidade dos óvulos,mas depois disso não é que não vale a pena congelar os óvulos. Tem que avaliar cada caso, mas talvez tenha que fazer mais rodadas de congelamento para ter mais óvulos congelados. A idade limite recomendada pelo Conselho Federal de Medicina para engravidar é 50 anos. Apos os 50, as mulheres podem sim engravidar mas os riscos aumentam e elas precisam ser muito bem avaliadas, e precisam ter autorização do médico que vai acompanhar a gestação. Peço avaliação com cardiologista e clínico geral para que se tenha segurança nessa gravidez.
Técnicas de reprodução assistida

Existem outras formas de procriar além do congelamento de óvulos como a Fertilização In Vitro (Fiv), normalmente mais usada para casais homoafetivos femininos. Um marco decisivo ocorreu em 2015, quando o Conselho Federal de Medicina (CFM) alterou suas resoluções para garantir explicitamente os direitos de casais homoafetivos ao uso de técnicas de reprodução assistida, estabelecendo regras claras e seguras para os procedimentos no país.
O impacto dessas mudanças é visível nos números recentes. Segundo dados da Associação Brasileira de Reprodução Assistida (SBRA), a procura de casais homoafetivos por tratamentos de fertilidade vem crescendo exponencialmente nos últimos anos. Esse movimento acompanha uma tendência social mais ampla: apenas em 2024, o Brasil registrou mais de 14 mil casamentos homoafetivos, um aumento de 26% em relação ao ano anterior, e mais de 50 mil crianças foram registradas por casais do mesmo sexo nos últimos três anos.
Para casais formados por duas mulheres, o processo envolve a utilização de sêmen de um doador que sempre será anônimo, selecionado em bancos especializados de acordo com características desejadas pelas futuras mães. O doador abdica de todos os direitos e deveres legais sobre a criança, garantindo segurança jurídica para a família. A idade máxima permitida para doadores é de 50 anos para homens e 35 anos para mulheres.
Duas técnicas disponíveis: Diferenças e indicações

A Inseminação Intrauterina é um procedimento de baixa complexidade, rápido e indolor, realizado no próprio consultório. Nela, uma das parceiras passa por indução de ovulação e recebe o sêmen do doador preparado em laboratório diretamente no útero durante o período fértil. A fecundação ocorre naturalmente dentro do corpo da mulher. Esta técnica é geralmente recomendada para mulheres mais jovens, com ovulação regular e trompas uterinas saudáveis. As taxas de sucesso da IIU variam de acordo com a idade: até 20% por tentativa para mulheres com menos de 35 anos, caindo para 5% a 15% entre 35 e 39 anos, e aproximadamente 1% a 5% para mulheres com 40 anos ou mais.
A Fertilização In Vitro (FIV) é uma técnica de alta complexidade que oferece maiores taxas de sucesso e abre a possibilidade da 'gestação compartilhada'. Neste método, o óvulo de uma das mulheres é fecundado em laboratório com o sêmen do doador, e o embrião resultante é transferido para o útero da outra parceira. Dessa forma, ambas participam ativamente do processo – uma com a carga genética e a outra com a gestação. A FIV é frequentemente a escolha preferida quando há fatores de infertilidade associados, idade materna avançada, ou quando o casal deseja vivenciar a maternidade de forma biológica e gestacional conjunta.
Elegibilidade e limites de idade
Uma dúvida comum entre as pacientes é sobre quem pode realizar o procedimento e se existe um limite de idade. A legislação brasileira não estabelece uma idade máxima rígida para a realização de tratamentos de reprodução assistida, deixando a decisão a critério médico com base na saúde geral da paciente e acompanhamento psicológico, que é obrigatório para todas as partes envolvidas.
"A medicina não tem preconceitos. Nosso papel é utilizar a ciência para ajudar as pessoas a construírem suas famílias com amor e segurança. A possibilidade de uma gestação compartilhada, onde uma mãe doa o óvulo e a outra gesta o bebê, é um dos avanços mais bonitos da reprodução humana moderna, pois fortalece ainda mais o vínculo do casal com a criança desde o primeiro momento", afiira o médico  Alfonso Massaguer, especialista em Reprodução Humana e diretor da Clínica Mãe.