Guilherme Fernando com o braço machucado a caminho do Hospital Miguel CoutoArquivo pessoal

Rio - Um homem foi preso por engano após ser supostamente reconhecido por meio de uma foto, em um caso envolvendo uma tentativa de assalto na Tijuca, Zona Norte. Guilherme Fernando da Conceição Gomes foi detido enquanto era atendido no Hospital Municipal Miguel Couto, na Gávea, Zona Sul, no domingo (3). Segundo seus advogados de defesa, ele estava em um ponto de ônibus a caminho da unidade de saúde no momento em que o crime aconteceu.
Segundo o registro de ocorrência, ao qual O DIA teve acesso, um PM sofreu uma tentativa de assalto por parte de dois indivíduos em uma motocicleta, enquanto estava de carro com a família, entre eles uma criança de 5 anos, na Rua Pareto, altura do número 55, próximo à UPA da Tijuca, por volta das 11h45 de domingo. A vítima reagiu e houve troca de tiros.

Os criminosos fugiram e o policial os perseguiu a pé. Um dos ocupantes da moto foi encontrado caído na entrada da UPA e morreu em seguida. O outro, que segundo relatos de testemunhas teria caído de moto mais à frente, fugiu.

Ao DIA, a advogada Yara Moraes, responsável pela defesa de Guilherme, disse que o motoboy, de 33 anos, sofreu uma queda de moto por volta das 6h de domingo. No entanto, por não achar ter sido grave, voltou para casa e dormiu. Ele acordou com dores no braço e procurou assistência médica.

Por volta das 11h45, mesmo horário da tentativa de assalto, ele estaria em um ponto de ônibus, no Rio Comprido, Zona Central, com a mulher, a caminho do Hospital Municipal Miguel Couto.

Na unidade de saúde, um policial tirou uma foto de Guilherme enquanto aguardava atendimento. A imagem foi enviada para a vítima da tentativa de assalto, que em princípio não o reconheceu como autor do crime. Porém, os familiares que estavam no carro no momento do assalto afirmaram se tratar de Guilherme.

O motoboy foi preso ainda no hospital e levado à 19ª DP (Tijuca). "Guilherme não foi ouvido na delegacia, a mulher dele também não. A polícia não fez nenhum tipo de investigação – mesmo com ele dizendo que não estava no local – lavrou o auto de prisão em flagrante e ele foi encaminhado para Benfica, na segunda-feira. Na audiência de custódia, que aconteceu na terça-feira, o Ministério Público pediu a prisão dele com base no entendimento policial que eles receberam. A defesa entende que foi um reconhecimento totalmente ilegal mediante uma foto. O policial que tirou a foto do Guilherme não está identificado no registro de ocorrência. A foto que foi supostamente tirada também não está”, afirmou Yara.

Nesta quinta-feira (7), a defesa teve acesso às câmeras de segurança de um edifício próximo ao ponto de ônibus que Guilherme esteve no domingo. As imagens, que marcam 11h34 do dia 3 de maio, mostram o motoboy e a mulher caminhando pela Rua do Bispo e, em seguida, pela Avenida Paulo de Frontin, no Rio Comprido. Ele, inclusive, apoia o braço machucado por dentro do casaco.

“A gente tem um print do celular da mulher do Guilherme, de 11h38, com busca de rotas para o Miguel Couto, saindo do Rio Comprido. Às 11h45, tem um print dela pedindo dinheiro para uma amiga para pagar um carro de aplicativo, porque o ônibus estava demorando”, relatou a advogada.

Além disso, no horário em que Guilherme estava no hospital, deu entrada na mesma unidade de saúde um homem baleado que teria alegado cair de moto no mesmo local em que aconteceu a tentativa de assalto. Segundo apurado pela defesa de Guilherme, este paciente estaria envolvido no crime.

"A gente insistiu na 19ª DP, mas não teve nenhum tipo de investigação. Até terça, recebi a informação de que esse homem ainda estava internado no Miguel Couto, baleado. Quando eles chegaram à delegacia para fazer o reconhecimento supostamente formal, já estavam contaminados, porque eles viram a foto do Guilherme antes”, explicou a advogada. A ocorrência foi registrada às 16h33.

Segundo Yara, Guilherme está abalado e se sentindo abandonado, além de injustiçado. Para a defesa, a prisão do motoboy é completamente ilegal.

“Eu estive com ele, que se mostrou bem abalado. A sensação que eu tive foi de indignação, Se sentindo totalmente injustiçado, uma situação de abandono, uma injustiça. Não dá para descrever absurdo. Totalmente ilegal. Não teve nada de legalidade no pedido de prisão, no Ministério Público ou na decisão do juiz. Na audiência de custódia, ele me pediu para não abandonar ele, que a vida dele dependia disso. O correto seria ao contrário: investigar para depois prender. A prisão é sempre exceção. A liberdade é regra. Está tirando um direito da pessoa”, afirmou Yara.

Por meio de nota, a Polícia Civil disse apenas que "de acordo com a 19ª DP (Tijuca), um homem foi conduzido por policiais militares à unidade e reconhecido por três vítimas como autor de tentativa de roubo. Ele foi assistido por advogados durante todo o processo e não quis prestar depoimento. O homem foi autuado em flagrante e o caso foi encaminhado à Justiça".