Se Bênção, Pai, de autoria e direção de EdLopes, também ator, fosse feito em 1990, com certeza ele não teria nem sido rodado e muito menos ganharia o prêmio de melhor curta-metragem no Festival LGBTQIAPN+ de Toronto e Los Angeles. Neste domingo, o curta poderá ser visto, às 17h, nas Casas Casadas, em Laranjeiras. Até aquele ano, mais precisamente em 17 de maio, o homossexualismo era considerado transtorno mental. Nesta data, é celebrado o Dia Internacional contra a LGBTfobia (ou contra a Homofobia, Transfobia e Bifobia), quando a Organização Mundial de Saúde (OMS) retirou a homossexualidade da Classificação Estatística Internacional de Doenças (CID), fato muito relevante como explica Cláudio Nascimento, presidente do Grupo Arco Íris de Cidadania LGBTI+ e diretor de Políticas Públicas LGBTI+.
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"Essa conquista foi fundamental porque rompeu com uma perspectiva pseudocientífica que, durante décadas, legitimou o preconceito, a discriminação e a violência contra pessoas LGBTI+. A ideia da homossexualidade como doença servia, inclusive, para justificar exclusão social e negação de direitos. Ao retirar a homossexualidade da lista de doenças, tanto o Brasil quanto a OMS ajudaram a desmontar a ideia de que pessoas LGBTI+ seriam 'doentes', 'desviantes' ou 'anormais', fortalecendo o reconhecimento de que são cidadãs e cidadãos com plenos direitos", diz ele, acrescentando que o preconceito ainda persiste principalmente no que diz respeito à religião.
"Infelizmente, ainda hoje, setores religiosos fundamentalistas e grupos políticos extremistas continuam alimentando uma cultura de preconceito e discriminação. Os dados mostram a gravidade disso. No Brasil, uma pessoa LGBT é assassinada, em média, a cada 18 horas. Pesquisas realizadas na Parada do Orgulho LGBTI+ do Rio de Janeiro apontaram que mais de 70% das pessoas entrevistadas já sofreram discriminação por serem LGBTI+, e mais de 65% declararam já ter sofrido agressão física. Mais do que celebrar uma conquista histórica, o Dia Internacional contra a LGBTfobia reafirma o compromisso com uma sociedade democrática, plural e inclusiva, onde nenhuma pessoa seja discriminada ou violentada por sua orientação sexual ou identidade de gênero.
"Ainda hoje existe muito preconceito e discriminação contra a população LGBTI+, e parte disso é alimentada por setores religiosos fundamentalistas e grupos políticos extremistas que tentam misturar respostas que o poder público precisa dar à sociedade com visões religiosas privadas, confundindo Estado, política e religião."
Trajetória é mais comum do que se imagina
De acordo com EdLopes, que dá vida a Antonio no Benção, Pai e representa o pai opressor que leva homens para a casa onde vive com a esposa, interpretada pela atriz Ayala Rossana, essa trajetória é muito mais comum do que se imagina. "Foi uma honra interpretar o Antônio. Era o tipo de papel que já conhecia muito bem. Eu cresci dentro da igreja evangélica e via o comportamento dos homens casados, pais de família e que se intitulavam os fiéis e tementes à Deus, mas que traíam as suas esposas com outros homens. Isso era bem visível dentro da igreja. Não houve avanço na cultura, parece que cada vez mais estamos retrocedendo", diz.
Ele acredita que a relação entre homens heteros casados e homossexuais aumentou muito. "As redes contribuiram bastante nessa área. Hoje temos várias plataformas de vendas de conteúdos adultos. A maioria dos homens que usa são os heteros casados. Ficou mais fácil esse encontro. Muitos nem praticam sexo, apenas se exibem em fotos e vídeos. É um meio de aumentar a sua renda. Alguns chegam até se envolver. Alguns heteros procuram gays por interesse financeiro mesmo, alguns por curiosidade e usam esse meio de pagamento como forma de ocultar os seus desejos", explica.
'Transfobia atinge mais a mulheres trans'
No curta, a trans Mar Moraes faz a sua primeira protagonista, de nome Tássia, que sai da casa dos pais e quando volta vem com o companheiro Nando, intepretado por Wallacce Codozi. O pai hipócrita não aceita. "Este curta-metragem representou um grande marco na minha trajetória, pois foi minha primeira protagonista e também um dos trabalhos mais desafiadores que já realizei. A personagem exigia uma construção profunda, marcada por traumas de infância, transtorno de estresse, neurose de abandono e traços de personalidade borderline. Dar unidade a essas camadas emocionais foi um processo intenso e sensível, especialmente por dialogar diretamente com minhas próprias vivências enquanto mulher trans. Apesar de toda a dor que carrega, a essência da personagem é simples e humana: o desejo de ser aceita", pontua.
Apesar de alguns avanços, o preconceito existe. "Acredito que a transfobia atinge mais as mulheres trans, principalmente por estar diretamente ligada ao machismo estrutural. Mulheres trans negras sofrem tripla violência: por serem mulheres em uma sociedade misógina, racista e por serem trans em uma sociedade transfóbica. Essa combinação resulta em maior exposição à violência física, simbólica e institucional, além da exclusão social e da dificuldade de acesso a direitos básicos, como trabalho, saúde e segurança", afirma Mar.
Vários desafios ao mesmo tempo
Para Wallace Codasi, a experiência é de grande valia em sua carreira."Foi um personagem extremamente importante para mim porque representou vários desafios ao mesmo tempo. Eu, Wallace, nunca havia vivido uma relação afetiva ou sexual com uma mulher trans. Apesar de sempre ter tido uma visão livre sobre sexualidade, confesso que, quando comecei a estudar o personagem, senti aquele frio na barriga diante de algo novo e emocionalmente intenso. E acho isso natural para qualquer ator que se entrega verdadeiramente ao processo. Esse trabalho também marcou muitos ‘primeiros momentos’ na minha trajetória: meu primeiro trabalho audiovisual como ator, meu primeiro beijo técnico e meu primeiro nu artístico. Foi um mergulho muito intenso emocionalmente, mas extremamente positivo, porque fui acolhido em todos os momentos pela equipe", afirma.
Identificação com o mundo real
A atriz Ayala Rossana que interpreta Sandra, evangélica casada com Antonio, que a trai com homem dentro de sua própria casa e ela aceita, fala do filme e da importância do tema para que o preconceito contra gays e trans diminua. "Fui buscar memórias de entrevistas que eu já li sobre mulheres que passaram e passam pela história que Sandra vive. Quantas mulheres hoje não aceitam seus filhos trans e gays ? Quantas mulheres hoje vivem submissas dentro de um relacionamento e ainda escutam homens, não trabalham e vivem para casa achando que o casamento é o único lugar da vida? No curta-metragem, Sandra tem todo um peso corporal mesmo. Sua tristeza está em seu corpo. A mente dessa mulher não para também, mas isso tudo reverbera", afirma.
Para a atriz, o trabalho tem uma identificação real com o mundo de hoje. "A gente ainda tem problemas com preconceito, muito fortes a sigla LGBTQIAPN+. Politicamente falando poderia até citar hoje uma das questões muito primordiais que a gente está vivendo que a Erika Hilton. Além disso, o curta fomenta a reflexão. Possivelmente alguém que assistiu deva ter uma amiga, um parente ou alguém que viva essa situação. Acreito que daqui a 10 ou 20 anos alguém veja esse curta e os preconceitos ainda estejam acontecendo e ele vai servir de material para que alguém se cure já que a arte tem essa missão''.
De acordo com Rossana, o fato de homens buscarem garotos de programa ou travestis para se relacionar fora do casamento não é de hoje. "E quem paga esse pato é a mulher. Se você está casado comigo e diz que também gosta de homens e foi combinado, tudo bem pois estou sabendo, mas na maoria das vezes não existe a opção da escolha'', diz Ayala, acrescentando que a religião, muitas vezes, prega o amor, mas acaba esquecendo que ele é para todos: homens, mulheres, trans, gays.
Fortalecimento de políticas públicas
Por falar em religião, é ela que muitas vezes acaba fazendo com que pessoas esqueçam de como é o nosso estado como diz Cláudio Nascimento. "A Constituição Brasileira é muito clara ao afirmar que o Estado é laico e deve garantir direitos e bem-estar para todos os cidadãos e cidadãs, independentemente de orientação sexual, identidade de gênero ou crença religiosa. Todas as pessoas têm direito à liberdade religiosa, mas isso não dá licença para discriminar ou negar direitos a ninguém".
Para Nascimento, o enfrentamento ao preconceito passa pelo fortalecimento das leis e das instituições democráticas. "A decisão do Supremo Tribunal Federal, em 2019, que equiparou a LGBTIfobia ao crime de racismo, foi fundamental diante da omissão histórica do Congresso Nacional em aprovar uma legislação específica sobre o tema. O STF também teve um papel histórico, em 2018, ao reconhecer o direito de pessoas trans alterarem o prenome e a identidade de gênero nos registros civis sem necessidade de cirurgia ou autorização judicial, reafirmando o direito à autodeterminação e à liberdade de identidade de gênero".
Presidente do Grupo Arco Irís de Cidadania vai além e fala sobre o enfrentamento do preconceito. "Também tem havido ações no Poder Judiciário contra setores religiosos que utilizam o púlpito para disseminar discursos de ódio e estimular discriminação. Ao mesmo tempo, é fundamental fortalecer políticas públicas de acolhimento, proteção e cidadania. Experiências como o Programa Rio sem LGBTIfobia mostram a importância de estruturas públicas especializadas. Além disso, precisamos ampliar campanhas de esclarecimento e informação contra o preconceito e a discriminação. Nesse sentido, as Paradas do Orgulho LGBTI+ no Brasil, que hoje acontecem em mais de quinhentas cidades e mobilizam em torno de dez milhões de pessoas, cumprem um papel estratégico como grandes campanhas públicas de utilidade pública contra a LGBTIfobia, mostrando que pessoas LGBTI+ são seres humanos com dignidade, cidadania e direitos como qualquer outro indivíduo", pontua.
'Ocupação Mutante' transforma corpos trans em paisagem e propõe crítica ao preconceito
Além de Bênção, Pai, a fotógrafa Índigo Braga dá uma leitura diferente para o tema. A partir de memórias da juventude no centro do Rio de Janeiro, ela dá origem ao fotolivro Ocupação Mutante, obra que propõe uma inversão potente de perspectiva: corpos trans e travestis deixam de ocupar espaços marginais e passam a habitar a cidade de forma monumental, visível e simbólica. O lançamento acontece sábado (23), às 17h, na livraria Belle Époque, no Méier e no domingo (24), às 16h, na Vida Dura Galeria, no Centro. Produzido por Paulo Abrão e publicado pela Editora Telaranha Edições, o livro reúne 161 páginas que atravessam arte, política e ficção para refletir sobre identidade, pertencimento, território e violência de gênero.
A inspiração inicial vem de imagens que a artista via ainda jovem: pequenos lambe-lambes colados em postes e orelhões, onde travestis apareciam isoladas, quase invisíveis no tecido urbano. A partir desse incômodo, surge o questionamento que guia o projeto: e se esses corpos, historicamente ocultados, ocupassem a cidade como figuras gigantes, impossíveis de ignorar?
"O projeto nasce da pergunta: de quem é e para quem é a cidade?", afirma Índigo Braga. "Minha ideia é propor dois novos olhares: o corpo trans e travesti como criatura mágica e deslumbrante, e o Rio de Janeiro como uma cidade igualmente mutante, construída por transformações constantes. No fotolivro pretendo discutir sobre a presença e pertencimento de pessoas trans e travestis na cidade, deslocando esse corpo do lugar de subalternidade historicamente colocado e elevando-nos a uma posição de criaturas mágicas, folclóricas, monumentais", explica a artista.
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