Carol e Caio construiram a hamburgueria para um projeto maior: casamentoDivulgação

Em junho todo mundo se lembra do Dia dos Namorados. A data, que tradicionalmente marca o momento de os casais saírem juntos, também simboliza uma escolha feita por muitos deles: unir o amor aos negócios e empreender em parceria. Segundo dados do Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae), 20% dos pequenos negócios no país são liderados por casais, mostrando que a parceria construída na vida pessoal também pode se estender ao ambiente empresarial.
Um destes casos acontece na Freguesia, zona Sudoeste do Rio, onde um casal criou uma hamburgueria com um objetivo: custear o casamento que acontecerá em setembro deste ano. Carol Di Mare e Caio Josua se conheceram em abril do ano passado e criaram a 'Bless Burguer' de olho no altar. A chef de cozinha conta que, para o casal, empreender não foi uma opção. Foi uma necessidade. "Quando decidimos formar uma família, percebemos que precisávamos criar algo que nos permitisse realizar esse sonho. Não tínhamos grandes investimentos, estrutura pronta, e nem um caminho garantido. Tínhamos apenas um sonho, disposição para trabalhar e a certeza de que não queríamos desistir. Por isso, a Bless nasceu", conta.

Segundo Carol, o casal abriu mão de muitas experiências comuns a relacionamentos para investir no negócio. "Abrimos mão até mesmo de coisas básicas para investir tudo o que podíamos na construção de um futuro". A chef de cozinha explica que durante o processo de criação da hamburgueria eles aprenderam a ter paciência. "Quando um enfraquecia, o outro sustentava. Quando um se frustrava, o outro trazia esperança. Quando um chorava, o outro lembrava o motivo pelo qual tudo havia começado. Nosso relacionamento criou raízes nessa construção", diz.

Hoje o casal celebra a conquista da Bless Burguer. "Cada cliente, cada reconhecimento, cada porta que se abre tem um significado especial para nós, porque sabemos exatamente o preço que foi pago para chegar até aqui. E é isso que nos motiva todos os dias: a esperança de ver esse sonho prosperar, de construir a família que desejamos e de olhar para trás, no futuro, com a certeza de que valeu a pena não desistir", conclui.
Desafio de equilibrar vida familiar e empresa

Já Fernanda Machado e Alex Ribeiro criaram, em 2017, a FALA Entretenimento e Eventos, empresa responsável pelo Festival Conectadas, evento voltado exclusivamente ao empreendedorismo feminino e organizado pelo casal. Embora a empresa tenha sido criada em 2017, os dois empreendem juntos desde 2010. "Eu e Alex começamos a organizar eventos de futevôlei na praia. Não tínhamos CNPJ, planejamento estratégico ou equipe. Tínhamos apenas disposição para trabalhar, vontade de construir algo nosso e a coragem de aprender fazendo", conta Fernanda.

Para ela, empreender em casal é uma experiência única. "Existe uma confiança construída dentro da relação que fortalece o trabalho, mas também existem desafios que exigem maturidade e diálogo constantes. Nem sempre concordamos sobre tudo. Temos opiniões diferentes, visões distintas e, muitas vezes, enxergamos caminhos diferentes para resolver um mesmo problema. Mas aprendemos que respeitar a opinião do outro é tão importante quanto defender as próprias ideias", diz.

A empresária destaca que um dos maiores desafios é encontrar equilíbrio entre os negócios e a vida familiar. "Quando o sócio divide a mesma mesa de jantar, a mesma casa e os mesmos sonhos, é preciso criar limites para que os assuntos da empresa não ocupem todos os espaços da vida pessoal. Nem sempre conseguimos, mas seguimos aprendendo", pontua.

Segundo Fernanda, o 'Festival Conectadas' nasceu do desejo de gerar impacto social e econômico por meio do empreendedorismo feminino. "O que começou como um sonho se transformou em um movimento que reúne centenas de mulheres empreendedoras, especialistas, lideranças e profissionais que acreditam no poder da colaboração. A cada edição, temos a oportunidade de acompanhar histórias de transformação, novos negócios surgindo, parcerias sendo construídas e mulheres descobrindo seu potencial", conclui.
Alinhamento de valores
De acordo com João Campos, especialista em empreendedorismo e CEO da D&C Serviços, trabalhar juntos pode ser uma grande vantagem quando existe alinhamento de valores, confiança e respeito pelas competências de cada um. "Isso evita sobreposição de funções e torna as decisões mais rápidas. Por outro lado, quando o casal não consegue separar opiniões pessoais das decisões estratégicas, a convivência pode gerar conflitos que impactam diretamente a operação", pontua.

Já para Rosa Bernhoeft, especialista em mentoria e formação de líderes com 50 anos de carreira, o resultado depende de como o casal se organiza. "No Brasil, cerca de 90% das empresas possuem perfil familiar, de acordo com o IBGE. Na prática, casais que empreendem juntos encontram vantagens reais. Eles costumam ter uma comunicação mais direta, um propósito compartilhado, confiança mútua e um nível de comprometimento raro de se ver em outras sociedades", conta.

Mas a especialista ressalta que a ausência de fronteiras claras entre o espaço profissional e o pessoal exige cuidado. "As tensões do escritório podem acabar na mesa de jantar, assim como os desafios domésticos podem surgir durante uma reunião de equipe. Esse é um risco natural. A grande questão é o quanto o casal está preparado para reconhecer e gerenciar esses momentos com maturidade", diz.

João pontua que o principal desafio é entender que amor e gestão exigem habilidades diferentes. "Muitas vezes, um conflito pessoal pode acabar sendo levado para o ambiente profissional, ou uma decisão de negócios pode ser interpretada como algo pessoal. A melhor forma de evitar isso é estabelecer papéis muito claros, e outro ponto importante é manter uma comunicação transparente. Problemas precisam ser resolvidos rapidamente, sem acumular ressentimentos. Quando existe confiança e respeito profissional, fica mais fácil separar as situações".

Rosa explica que separar a vida profissional da vida amorosa, quando o casal divide a gestão de um negócio, depende de algumas atitudes. "A primeira delas é criar rituais de transição. Definir um horário claro para encerrar o expediente, organizar um espaço físico separado para o trabalho (mesmo em home office) e combinar quais assuntos ficam de fora da mesa de jantar são práticas simples que protegem a qualidade da vida afetiva".

"A segunda escolha é cultivar identidades individuais. O negócio é uma construção compartilhada, mas cada parceiro precisa manter seus próprios espaços, amizades, interesses e projetos pessoais. Quando o casal funde completamente as identidades profissional e pessoal, qualquer instabilidade em um dos lados ameaça o conjunto. Preservar a individualidade é, paradoxalmente, um fator que fortalece a união".

"A terceira atitude é tratar o negócio com o rigor que ele exige. Isso inclui ter as conversas difíceis durante o horário de trabalho, com os papéis bem definidos, evitando levar essas questões para o quarto ou para a viagem de fim de semana. O que pertence à empresa deve ser resolvido na empresa", conta Rosa.
Confiança e admiração

Na visão de João, três fatores são fundamentais para que um casal alcance sucesso nos negócios: confiança, admiração e complementaridade. "É muito difícil construir uma empresa ao lado de alguém que você não admira profissionalmente. Também é essencial confiar nas decisões do outro e entender que ninguém precisa ser bom em tudo. No fim, empreender em casal não é sobre passar mais tempo junto. É sobre construir algo maior do que os dois, compartilhando responsabilidades, desafios e conquistas na mesma direção", fala.

Rosa conclui que casais que mais prosperam têm muita clareza do motivo pelo qual estão empreendendo juntos, e essa resposta sempre vai além do retorno financeiro. “Quando existe um propósito comum, os obstáculos do dia a dia ganham um sentido maior. O negócio se transforma em uma expressão conjunta de valores e de visão de futuro. No fim das contas, o que transforma o amor em um bom negócio é a mesma essência que faz qualquer relacionamento prosperar: intenção, presença e a disposição genuína de cuidar do que foi construído”.