Violência urbana prejudica estudantes e afeta saúde mental
Alunos das redes municipal e estadual de ensino ficam em estado de alerta permanente por causa de confrontos
Dois policiais da Delegacia de Homicídios da Baixada Fluminense (DHBF) foram baleados, enquanto passavam pela Avenida Brasil, na altura de Guadalupe, Zona Norte, na manhã desta quarta-feira (8). - Érica Martin/Agência O Dia
Dois policiais da Delegacia de Homicídios da Baixada Fluminense (DHBF) foram baleados, enquanto passavam pela Avenida Brasil, na altura de Guadalupe, Zona Norte, na manhã desta quarta-feira (8). Érica Martin/Agência O Dia
Quase metade das crianças e adolescentes matriculados no ensino fundamental e médio das redes públicas do Grande Rio — municipal e estadual — convive diariamente com os efeitos da violência armada em suas escolas. Nesta semana, unidades no Muquiço, em Guadalupe, Cidade Alta e São Gonçalo tiveram que suspender as aulas por conta de tiroteios.
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Dois levantamentos recentes do Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF), do Instituto Fogo Cruzado e do Grupo de Estudos dos Novos Ilegalismos da Universidade Federal Fluminense (GENI/UFF) analisaram como tiroteios, operações policiais, bloqueios e o controle territorial de grupos armados afetam o acesso, a permanência e o desempenho escolar de estudantes na capital e na região metropolitana.
Segundo o relatório Educação Sob Cerco, 48% dos estudantes de ensino fundamental e médio das redes municipais e estadual dos 19 municípios do Grande Rio estão expostos cotidianamente à violência crônica imposta pelo controle armado — na capital, esse percentual sobe para 55%.
Já o estudo Percursos Interrompidos aponta que, somente na rede municipal do Rio de Janeiro, 188.694 crianças e adolescentes tiveram seus trajetos entre casa e escola afetados por interrupções no transporte público causadas pela violência armada entre janeiro de 2023 e julho de 2025.
O impacto no desempenho escolar é mensurável. De acordo com o Educação Sob Cerco, estudantes que vivem e estudam em áreas dominadas por grupos armados na Região Metropolitana do Rio apresentam desempenho significativamente pior no SAEB (Sistema de Avaliação da Educação Básica) do que os de áreas não dominadas — uma diferença que chegou a 10 pontos na série histórica analisada, equivalente a cerca de seis meses de aprendizagem, tanto em Língua Portuguesa quanto em Matemática, nos 5º e 9º anos.
Nas áreas não controladas da capital, cerca de 19% dos estudantes têm conhecimento classificado como "abaixo do básico" pelo IDEB. Nas áreas dominadas, esse índice varia de 22,6% a 38,7%, a depender da região e do tipo de controle armado (milícia ou tráfico).
"Controladas as variáveis já conhecidas, as crianças que estudam em áreas sob controle de grupos armados têm metade do aprendizado durante o ano letivo", afirma Daniel Hirata, coordenador do GENI/UFF, que destaca ainda o papel das operações policiais como fator adicional de impacto no aprendizado.
Prejuízo pedagógico
A neuropsicopedagoga e diretora escolar Gabriela Mazaro, com 23 anos de experiência em educação, chama atenção para o peso concreto das faltas. A Lei de Diretrizes e Bases da Educação (LDB) determina, em seu artigo 24, um mínimo de 200 dias letivos anuais. Uma perda de 60% do currículo, explica ela, equivale a 120 faltas — ou apenas 80 presenças — em um ano letivo inteiro.
"Isso causa um prejuízo pedagógico imensurável, porque estamos falando de crianças e adolescentes, e o currículo desta faixa etária garante conteúdos essenciais para a vida: leitura, escrita, interpretação, cálculo. Estamos comprometendo o futuro destes jovens", afirma Mazaro.
Para ela, o enfraquecimento do vínculo entre aluno e escola alimenta a evasão, especialmente entre estudantes em situação de vulnerabilidade social — e a escola, lembra, também é "porta de acesso a serviços essenciais como a merenda escolar", pontua a profissional, que acrescenta: "A educação tem o poder de transformar vidas, mas para isso o direito à aprendizagem precisa ser garantido. Garantir escolas seguras deve ser um compromisso da gestão pública com o futuro de toda uma geração", opina.
Os dados do Educação Sob Cerco confirmam essa relação: em 2022, escolas em áreas não dominadas por grupos armados registraram taxa média de abandono de 7,2% no 3º ano do ensino médio, contra 9% a 9,6% nas áreas dominadas. Na capital, a taxa de abandono em áreas de tráfico chegou a 12,5%. Escolas expostas a mais de três confrontos armados no ano tiveram evasão superior a 10%, contra 7,7% em locais sem esse tipo de registro..
Desigualdade concentrada em poucos territórios
Os estudos convergem em um ponto: o impacto da violência armada não se distribui igualmente pela cidade. Segundo o Percursos Interrompidos, Penha, Bangu e Jacarepaguá concentram os maiores números de interrupções de transporte (633, 175 e 161 eventos, respectivamente), somando o equivalente a mais de 340 dias sem circulação regular. Apenas 120 escolas municipais (2,9% do total) foram classificadas como de risco Alto ou Muito Alto — e 59,2% delas ficam na Zona Norte.
No Educação Sob Cerco, o retrato é semelhante: enquanto a Zona Sul teve 29 escolas afetadas por tiroteios em 2022 (30% do total, 86 ocorrências), a Zona Norte registrou 510 escolas afetadas (65% do total, 1.714 tiroteios). Uma escola de São Gonçalo somou 18 episódios de violência armada aguda em um único ano — em média, um a cada duas semanas.
"O que os dados mostram é que, em determinados territórios, a imprevisibilidade do deslocamento passa a ser a regra, e não a exceção. Isso impõe barreiras silenciosas, mas persistentes, ao acesso à escola e aprofunda desigualdades que já estavam colocadas", analisa Carolina Grillo, coordenadora do GENI/UFF.
Custo emocional para alunos e famílias
Além dos números de aprendizagem e evasão, especialistas ouvidos apontam consequências psicológicas duradouras. Para a psicóloga Alice Araujo, do Foco Medicina, a exposição constante a situações de risco mantém crianças e adolescentes em estado de alerta permanente, o que interfere na atenção, na memória e na concentração — e pode se manifestar em ansiedade, alterações do sono, irritabilidade, isolamento e até queixas físicas como dores de cabeça e de barriga. "Com acolhimento e intervenção precoce, é possível reduzir os impactos emocionais e favorecer um desenvolvimento mais saudável", afirma.
A psicóloga Anastacia Cristina Macuco Brum Barbosa reforça que o problema vai além do conteúdo perdido em sala: "Uma criança que precisa interromper a aula porque há um tiroteio nas proximidades não perde apenas conteúdo: ela perde, repetidas vezes, a experiência de que o mundo pode ser um lugar previsível e seguro", avalia.
Segundo ela, o desgaste emocional também recai sobre as mães, que vivem em estado de vigilância constante, monitorando trajetos e notícias — o que pode gerar exaustão emocional, insônia e uma sensação contínua de impotência.
"Cuidar dos filhos em um contexto marcado pela violência exige um desgate que muitas vezes permanece invisível, mas que afeta profundamente a saúde mental dessas mulheres e de toda a dinâmica familiar'", esclarece.
Já o psiquiatra Deivson Gonçalves Pereira explica que a violência armada afeta muito mais do que a frequência escolar. "Quando uma criança ou adolescente vive em um território onde há confrontos, tiroteios e medo constante, o cérebro passa a funcionar em estado de alerta permanente. Observava bastante isso quando fui do Caps Heitor Villa Lobos !Isso significa que boa parte da energia psíquica é direcionada para a sobrevivência, e não para o aprendizado", disse ele, acrescentando que os impactos vão além da perda de aulas.
"Mesmo quando a escola permanece aberta, muitos estudantes chegam ansiosos, assustados ou preocupados com familiares que ficaram em casa. Nesses casos, é comum observar dificuldade de concentração, falhas de memória, irritabilidade, alterações do sono, queda no rendimento escolar e desmotivação. Em crianças menores, podem surgir regressões comportamentais, maior dependência dos pais e queixas físicas, como dores de cabeça e dores abdominais sem causa orgânica".
Deivson afirma ainda que é possível aprender nesse contexto, mas não nas mesmas condições de um ambiente seguro. " O aprendizado depende de atenção, curiosidade, estabilidade emocional e sensação de proteção. Quando o estudante vive sob medo constante, esses processos cognitivos ficam comprometidos. Portanto, não é apenas uma questão de recuperar conteúdos perdidos; muitas vezes é necessário reconstruir as condições emocionais para que a aprendizagem volte a acontecer", finaliza
Para Maria Isabel Couto, diretora de Dados e Transparência do Instituto Fogo Cruzado, o objetivo desses levantamentos é subsidiar políticas públicas que não coloquem em oposição segurança e direitos das crianças. "É importante ter em conta que os impactos dos tiroteios com a presença das forças de segurança são mais significativos para a permanência dos estudantes nas escolas. [...] Temos que produzir políticas públicas que protejam os nossos cidadãos e não que ameacem seus direitos básicos", diz.
Os estudos também citam a operação policial nos complexos do Alemão e da Penha, em outubro de 2025 — que resultou no maior número de mortes em ações policiais já registrado na cidade — como um episódio que evidenciou de forma extrema os efeitos da violência armada sobre a rotina urbana e escolar de crianças e adolescentes.
Estratégias para minimizar os impactos pedagógicos
A Secretaria Municipal de Educação lamenta o impacto de ocorrências armadas na rede escolar. Toda escola deveria ser um espaço de proteção, segurança e aprendizado, e não alvo da violência urbana. Para minimizar os impactos pedagógicos, a Secretaria também oferece estratégias como reforço escolar, apoio pedagógico com materiais específicos de reposição e planos de recuperação adaptados à realidade de cada unidade escolar. A Secretaria reforça que as unidades impactadas contam com ações de acolhimento e acompanhamento por meio do Núcleo Interdisciplinar de Apoio às Escolas (NIAP), que conta com equipes compostas por psicólogos, assistentes sociais e pedagogos.
Protocolos internacionais de segurança
Já a Secretaria de Estado de Educação informa que, para garantir a segurança no ambiente escolar, segue protocolos de Comunicação e Proteção de Unidades Escolares firmados com o Ministério Público. Além de manter diálogo permanente com as polícias Militar e Civil, a Seeduc possui parceria com o Comitê Internacional da Cruz Vermelha (CICV) no programa Acesso Mais Seguro (AMS), cuja metodologia é uma adaptação dos protocolos internacionais de segurança desenvolvidos pela Cruz Vermelha para os seus profissionais e voluntários que atuam em situações de conflitos armados.
Em relação aos dados, a Pasta informa ainda que o número de escolas impactadas varia, considerando que a suspensão das aulas pode ocorrer em apenas um turno específico ou abranger todos os turnos da unidade escolar. Sempre que há interrupções as aulas perdidas são repostas, atendendo ao planejamento pedagógico e aos 200 dias letivos, conforme estabelecido pelo MEC.
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