'O tempo está doido." "Não temos mais estação do ano definida." "O Rio não combina com esse frio." "Ai, esse calor está me matando." Frases como essas são ditas por moradores que saem de casa agasalhados e com guarda-chuva e voltam para casa suando muito — e olha que, pelo calendário, estamos no inverno. O El Niño já chegou e deverá ganhar intensidade nos próximos meses, principalmente durante a primavera (setembro a dezembro de 2026), com 96% de probabilidade de que o fenômeno se mantenha entre dezembro de 2026 e fevereiro de 2027.
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De acordo com o Instituto Nacional de Meteorologia (INMET), no estado do Rio de Janeiro o principal impacto é o aumento das temperaturas, favorecendo ondas de calor mais frequentes, intensas e duradouras. Em relação às chuvas, o El Niño tende a tornar o regime mais irregular: podem ocorrer tanto períodos de estiagem quanto episódios de chuva intensa, com o volume esperado para um mês sendo registrado em poucos dias — o que aumenta o risco de alagamentos e deslizamentos.
O meteorologista e professor da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro) Wanderson Silva diz que as previsões mais recentes indicam que o El Niño de 2026 deverá persistir pelo menos até o início de 2027, com tendência de fortalecimento ao longo do segundo semestre de 2026. A NOAA (Administração Oceânica e Atmosférica Nacional) aponta uma elevada probabilidade de o evento atingir intensidade muito forte, com cerca de 81% de chance de alcançar esta categoria no trimestre outubro–dezembro de 2026. "No Brasil, esse cenário aumenta a preocupação com extremos climáticos: além de favorecer chuvas mais intensas no Sul e condições mais secas na Amazônia, um El Niño intenso pode contribuir para ondas de calor mais frequentes, especialmente nas regiões Centro-Oeste e Sudeste", diz Wanderson.
Segundo a Prefeitura do Rio, espera-se temperaturas acima da média e chuvas que podem ser pontualmente mais fortes por causa do calor. Para que a população consiga enfrentar esse fenômeno, o COR (Centro de Operações e Resiliência) mantém uma estrutura de prevenção, monitoramento e pronta resposta da cidade para lidar com eventuais impactos climáticos.
Além disso, os moradores serão avisados sobre a iminência de eventos severos por meio dos canais oficiais da Prefeitura do Rio, do Centro de Operações, da Defesa Civil Municipal e das sirenes do Sistema de Alerta e Alarme, posicionadas em áreas de alto risco de deslizamento de terra. Apesar desta providência, o que se viu na quarta-feira (29) foi justamente o oposto. Pelas ruas, moradores reclamavam que não houve nenhum aviso da prefeitura a respeito do vendaval que assolou a cidade.
Segundo a instituição, as áreas mais vulneráveis à chuva e ao calor são as ocupadas pela população que mora em regiões de risco geológico e hidrológico, além das regiões mais quentes ao norte do município — mais distantes do oceano e com menos arborização. Por isso, quem desejar receber os avisos da Defesa Civil pode se cadastrar no sistema de mensagens via SMS ou WhatsApp. Para receber por SMS, basta enviar o CEP para o número 40199; para o WhatsApp, é só mandar um "oi" para o número (61) 2034-4611 e iniciar o cadastro.
Tecnologia de ponta
A Prefeitura do Rio conta ainda com a tecnologia Cell Broadcast, que envia mensagens geolocalizadas para os celulares de pessoas que estejam dentro do perímetro mapeado para receber o Alerta Severo ou o Alerta Extremo. Para essa tecnologia, não há necessidade de o celular estar cadastrado em nenhum sistema de aviso. Pioneiro no Brasil, o Sistema de Alerta e Alarme da Defesa Civil Municipal está presente em 164 comunidades, enviando mensagens com atualizações do tempo, previsão de chuva e avisos para que os moradores desocupem seus imóveis e se dirijam aos pontos de apoio mais próximos. Os endereços de cada ponto podem ser encontrados de forma geolocalizada no aplicativo COR.Rio ou no site da Defesa Civil Municipal.
A cidade tem radares próprios, pluviômetros, estações meteorológicas e sistemas de acompanhamento de núcleos de chuva, raios e riscos de deslizamentos. Atualmente, segundo a Prefeitura, o Rio tem 41% do seu território protegido por Unidades de Conservação. Recentemente, foram criadas duas novas unidades que marcam o início da implantação do Corredor Azul: o Refúgio de Vida Silvestre (Revis) das Florestas de Jacarepaguá e a Área de Proteção Ambiental das Lagoas de Jacarepaguá (APA).
Outros dois programas da Secretaria de Meio Ambiente e Clima (SMAC) reforçam esse trabalho nos períodos de seca e chuva: o Guardiões dos Rios, que seleciona moradores das comunidades para cuidar dos rios, e o Guardiãs das Matas, que busca lideranças comunitárias femininas para atuar em educação ambiental.
Fenômeno influencia várias áreas
Mas os efeitos do El Niño não se limitam à gestão de riscos da cidade — eles já chegam ao dia a dia dos negócios, da saúde e do comportamento dos cariocas. As ondas de calor afetam não apenas a saúde da população, mas também a economia, os hábitos de consumo, a infraestrutura urbana e a produtividade. Na hamburgueria Bro Art & Burguer, com unidades na Tijuca, em Botafogo e em Olaria, o empresário Marcus Carnevale percebe essa mudança diariamente.
Segundo ele, as altas temperaturas influenciam diretamente o comportamento dos consumidores e exigem adaptações constantes na operação. "O calor acaba sendo positivo para nós porque as pessoas querem sair de casa. Muitas aproveitam para encontrar amigos e visitar nossas lojas. Quando chegam as chuvas, o delivery cresce. Cada cenário acaba favorecendo um tipo diferente de atendimento", pontua. Para acompanhar esse novo comportamento, o empresário investiu em aparelhos de ar-condicionado mais potentes e em energia solar, reduzindo o impacto do aumento no consumo de eletricidade. A experiência de Marcus reflete uma transformação observada em diferentes setores da economia.
Para Felipe Fogaça, especialista em internacionalização de negócios e no corredor Brasil-Europa, o clima deixou de ser um fator externo para se tornar uma variável estratégica dentro das empresas. "Ondas de calor reduzem a produtividade, elevam os custos com energia, afetam fornecedores e aumentam despesas com seguros. Não é mais um evento pontual, mas um custo estrutural."
Construções precisam se adaptar
Os impactos das altas temperaturas também chegam à construção civil. Para o engenheiro civil Victor Henriques, CEO da Help Reformas e Construções, boa parte das edificações brasileiras foi projetada para um clima que já não corresponde à realidade atual. "A maioria das construções utiliza padrões antigos e não acompanha a intensidade dos eventos climáticos atuais. O setor precisa rever projetos, materiais e estratégias de climatização."
Segundo ele, soluções como ventilação natural, isolamento térmico, coberturas refletivas e arborização ajudam a reduzir significativamente a temperatura dos ambientes sem elevar o consumo de energia. "Cidades com pouca vegetação e excesso de concreto criam ilhas de calor. Investir em árvores, áreas verdes e pavimentos permeáveis é uma estratégia de saúde pública", afirma ele.
Embora ainda pouco difundidas no país, algumas iniciativas já apontam caminhos para enfrentar esse desafio. Um exemplo é a Cidade das Águas, bairro planejado em Joinville (SC), desenvolvido pelo Grupo CRH. De acordo com Danilo Conti, diretor da empresa, o projeto foi concebido para tornar o ambiente urbano mais resiliente às mudanças climáticas. "O projeto prioriza infraestruturas resilientes, como telhados verdes, sistemas avançados de captação de água da chuva, ciclovias e uma usina fotovoltaica própria", conta Conti.
Saúde exige atenção redobrada
As mudanças climáticas prejudicam também o funcionamento do organismo. Com temperaturas mais elevadas, o corpo perde mais água e minerais, tornando a hidratação e a alimentação ainda mais importantes. Segundo Laita Balbio, nutricionista do Espaço Hi, o calor aumenta a produção de suor e favorece a perda de eletrólitos essenciais. "O organismo trabalha mais para manter a temperatura corporal estável. A perda de líquidos e eletrólitos pode provocar fadiga, tontura, dor de cabeça, cãibras e desidratação. A água continua sendo a melhor escolha, mas frutas, água de coco e chás sem açúcar também ajudam. O ideal é priorizar alimentos leves, ricos em água, e evitar refeições muito gordurosas", orienta Balbio.
A especialista alerta para os riscos relacionados à conservação dos alimentos: "As altas temperaturas favorecem a proliferação de bactérias. É fundamental manter alimentos refrigerados e redobrar a atenção com carnes, laticínios e preparações com ovos."
Segundo o INMET, esses extremos climáticos afetam diretamente a população. As ondas de calor aumentam o risco de desidratação e agravam doenças cardiovasculares e respiratórias, especialmente entre idosos, crianças e pessoas com doenças crônicas. Já as chuvas intensas podem causar enchentes, deslizamentos, deslocamento de pessoas, danos à infraestrutura e favorecer a ocorrência de doenças relacionadas à contaminação da água.
Calor afeta o cérebro
Os efeitos das altas temperaturas vão além do desconforto físico. O calor extremo compromete a concentração, a memória e o rendimento de estudantes e profissionais. Segundo Carol Braga, professora de Biologia e CEO do curso preparatório para vestibular de Medicina Foco Medicina, o organismo precisa fazer um esforço extra para manter a temperatura corporal estável.
"Quando a temperatura ambiente está muito elevada, o organismo aumenta a produção de suor e dilata os vasos sanguíneos para dissipar calor. Se a exposição for intensa ou prolongada, especialmente com desidratação, esses mecanismos podem se tornar insuficientes. O calor excessivo reduz a capacidade de concentração, prejudica a memória, diminui a velocidade de raciocínio e pode comprometer a aprendizagem. Além disso, as mudanças climáticas já fazem parte dos principais temas cobrados nos vestibulares, reunindo conteúdos de Ecologia, Fisiologia Humana, Epidemiologia, Saúde Pública e Geografia", diz a professora.
Impactos na saúde mental
O calor excessivo provoca reflexos emocionais como irritabilidade, dificuldade para dormir, cansaço e ansiedade. Para a psicóloga Mariane Pires Marchetti, especializada em Transtornos de Ansiedade e Terapia Cognitivo-Comportamental, existe uma relação direta entre calor extremo e bem-estar psicológico. "O calor intenso aumenta o desconforto físico, e isso acaba refletindo no emocional. É comum que as pessoas fiquem mais irritadas, impacientes e com menor tolerância às frustrações. Em quem já apresenta tendência à ansiedade, essa sobrecarga pode intensificar os sintomas", avalia. Entre os cuidados recomendados pela especialista estão manter boa hidratação, evitar exposição ao sol nos horários mais quentes, buscar ambientes ventilados, adaptar a rotina e respeitar os limites do próprio corpo.
A rotina de quem pratica atividades físicas ao ar livre também precisou mudar. No Aterro do Flamengo, a corredora amadora Anne da Silva Linhares, de 32 anos, passou a treinar mais cedo para evitar os horários de maior calor. "Eu corro principalmente pela minha saúde mental. Quando está muito calor, respeito os sinais do meu corpo e diminuo o ritmo. Hoje costumo correr por volta das seis ou sete horas da manhã, quando o clima está mais agradável."
'Hospital é termômetro biológico'
Em entrevista ao jornal O Dia, Yuri Castro Santos, médico emergencista e coordenador de Pronto Socorro, fala a respeito do El Niño e seus impactos na saúde pública.
O Dia: O fenômeno El Niño traz consigo um aumento de temperaturas. Quais impactos eventos como esse trazem para a saúde pública? Poderia listar?
Yuri Castro Santos: O El Niño mexe com toda a engrenagem da saúde pública. No pronto-socorro, nós somos o termômetro biológico desse fenômeno. Os principais impactos que observamos na linha de frente são:
- Descompensação de doenças crônicas — o estresse térmico severo desequilibra pacientes cardiopatas, nefropatas e diabéticos, gerando picos de infartos, AVCs e insuficiência renal aguda.
- Aumento de arboviroses — as alterações no regime de chuvas desregulam a sazonalidade de doenças como dengue, zika e chikungunya. A seca obriga o armazenamento improvisado de água, criando focos de mosquito; já as enchentes disparam casos de leptospirose e gastroenterites.
- Sobrecarga das vias aéreas — a estiagem prolongada e a baixa umidade concentram poluentes no ar, o que eleva drasticamente os atendimentos por crises de asma, bronquite e exacerbação de DPOC (Doença Pulmonar Obstrutiva Crônica).
O Dia: Estão falando na possibilidade de um "super El Niño". Isso está preocupando a comunidade da Saúde? E, nesse caso, um evento mais intenso poderia trazer quais consequências?
Yuri Castro Santos: Sim, a possibilidade de um evento de forte intensidade acende um alerta vermelho na comunidade médica. Um "super El Niño" significa que os extremos deixam de ser esporádicos e passam a ser sistêmicos. Para os hospitais, a principal consequência é o risco de colapso por demanda simultânea. Podemos enfrentar, ao mesmo tempo, uma epidemia severa de dengue em pleno inverno e UTIs lotadas por complicações de ondas de calor. Além disso, eventos mais intensos comprometem a infraestrutura de abastecimento de água e energia dos próprios hospitais, desafiando a nossa capacidade de manter o atendimento crítico.
O Dia: De que maneira o calor extremo pode aumentar internações ou mortes? O que os estudos mostram?
Yuri Castro Santos: O calor extremo mata e interna por mecanismos fisiológicos muito claros. Para dissipar o calor, o corpo humano precisa fazer vasodilação periférica e suar. Isso exige um esforço imenso do coração (aumento do débito cardíaco) e causa perda rápida de líquidos e eletrólitos. Os estudos epidemiológicos mostram que o excesso de mortalidade em ondas de calor não ocorre apenas por insolação direta, mas sim pelo colapso cardiovascular e renal em pessoas vulneráveis — idosos e crianças, cujos centros termorreguladores são menos eficientes. O sangue fica mais viscoso pela desidratação, o que aumenta o risco de trombose, infarto e falência múltipla de órgãos.
O Dia: Brasil está preparado para lidar com os efeitos sanitários de eventos climáticos extremos?
Yuri Castro Santos: Temos uma fortaleza que é o SUS, com uma capilaridade e uma capacidade de vacinação e vigilância epidemiológica invejáveis. No entanto, o Brasil ainda peca na falta de integração entre a previsão meteorológica e o planejamento hospitalar. Falta-nos uma cultura de "medicina de catástrofe" aplicada ao clima. Os prontos-socorros operam quase sempre no limite; quando recebemos uma onda de calor ou um surto atípico de diarreia por contaminação de água, o sistema sobrecarrega rapidamente. Precisamos evoluir para sistemas de alerta precoce que permitam aos coordenadores de emergência reforçar estoques de soro, insumos respiratórios e escalas de plantão antes que a crise climática chegue à porta do hospital.
O Dia: E há algo que a população possa fazer individualmente para reduzir riscos à saúde durante períodos de calor extremo?
Yuri Castro Santos: A prevenção individual é uma extensão do tratamento médico nesses períodos. As principais recomendações práticas são:
- Hidratação rigorosa — beber água mesmo sem sentir sede, priorizando idosos e crianças que perdem o reflexo natural da sede.
-Umidificação de ambientes — manter bacias de água ou toalhas úmidas nos quartos durante a noite para proteger a mucosa respiratória.
- Adequação de rotina — evitar exposição solar e atividades físicas extenuantes entre as 10h e as 16h.
- Atenção aos sintomas de alerta — mal-estar súbito, tontura, dor de cabeça forte, urina muito escura ou confusão mental em idosos são sinais de desidratação ou intermação (choque térmico). Nesses casos, a busca pelo serviço de emergência deve ser imediata.
Saiba mais
El Niño é um padrão climático natural que envolve o aquecimento anormal das águas superficiais do Oceano Pacífico tropical, principalmente nas regiões central e leste (perto da costa da América do Sul). Em condições normais, os ventos alísios sopram de leste para oeste ao longo do equador, empurrando as águas quentes da superfície em direção à Ásia e permitindo que águas frias profundas subam à superfície (ressurgência) na costa da América do Sul. Durante o El Niño, esses ventos enfraquecem ou até se invertem. Isso faz com que:
- As águas quentes, normalmente concentradas no Pacífico oeste, se espalhem para o leste;
- A ressurgência de águas frias diminua na costa do Peru e do Equador;
- A temperatura da superfície do mar suba acima da média em grandes áreas do Pacífico.
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