O candidato Anthony Garotinho (Republicanos) foi o quarto entrevistado na sabatina ocorrida nesta quinta-feira (10) promovida pelo jornal O DIA e pela Fecomércio RJ. Em encontro mediado pela jornalista Aline Pacheco, o ex-governador do Rio afirmou que pretende enfrentar esquemas dentro da própria administração pública e prometeu não poupar agentes públicos envolvidos em irregularidades.
Ao falar sobre a necessidade de recuperar a capacidade de investimento do Estado, Garotinho recorreu a uma frase atribuída ao ex-deputado Ulysses Guimarães para definir o que considera um dos principais problemas da administração pública.
"A corrupção é o cupim da democracia. Ela vai corroendo tudo. Ela tira dinheiro do hospital, tira dinheiro da merenda escolar, tira dinheiro do aposentado. E você vai deixando aquilo acontecer e, quando percebe, o Estado está completamente comprometido", afirmou.
O ex-governador disse que o enfrentamento não ficaria restrito a servidores de menor escalão. Segundo ele, eventuais irregularidades envolvendo integrantes do primeiro escalão também serão investigadas. "Eu vou cortar na carne. Não vou olhar se é secretário, se é alguém importante, se é alguém que tem influência política. Se tiver cometido corrupção, vai responder por isso", declarou.
A crítica à corrupção foi acompanhada de ataques à atual administração estadual. Garotinho afirmou que, na avaliação dele, o Estado do Rio teria sido capturado por interesses criminosos. A declaração foi feita como crítica política ao governo de Cláudio Castro.
"O Estado foi sequestrado por uma quadrilha. E quando você tem um Estado sequestrado, você não consegue fazer política pública de verdade, porque o dinheiro que deveria chegar na ponta fica pelo caminho", disse.
Segurança e retomada dos territórios
A proposta de combate à corrupção foi apresentada por Garotinho como parte de uma estratégia mais ampla para recuperar a capacidade de atuação do Estado. Na segurança pública, ele defendeu o programa "Eu Quero Meu Rio de Volta", baseado na retomada de territórios dominados pelo tráfico e por milícias.
O candidato propôs a criação de uma nova força de ocupação, chamada por ele de "BOPE 2.0", com participação das polícias Militar e Civil. A estratégia também envolveria as Forças Armadas no entorno das áreas ocupadas e uma estrutura social responsável por levar serviços públicos aos moradores.
"Você não pode entrar numa comunidade só para trocar tiro. Você tem que entrar para ficar, tem que ocupar o território e devolver aquele território para o cidadão", afirmou.
Garotinho defendeu que a operação tenha duração inicial de três a quatro meses e, depois da saída das forças empregadas na ocupação, seja mantida pelas estruturas policiais locais.
Na avaliação dele, a maioria dos moradores das áreas dominadas pelo crime é vítima da situação. "Noventa por cento dos moradores são pessoas honestas, trabalhadoras, que querem viver em paz e estão sendo oprimidas pelo tráfico ou pela milícia. Essas pessoas não podem ser tratadas como inimigas", disse.
Questionado sobre como vai combater a corrupção dentro da polícia, o ex-governador também criticou o modelo das Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs) e afirmou que o combate ao crime precisa ocorrer simultaneamente dentro das forças de segurança.
"Não adianta você querer combater o crime organizado se você não combater também a corrupção dentro da polícia. Tem policial que está envolvido, tem gente que vende informação, tem gente que protege criminosos. Isso precisa acabar", declarou.
Saúde: fim das OSs
Na saúde, Garotinho defendeu o fim da administração de unidades estaduais por Organizações Sociais (OSs). A proposta é incorporar os profissionais à Fundação Estadual de Saúde, por meio de concurso ou processo seletivo.
Ele criticou o modelo de contratação e afirmou que as OSs passaram a movimentar grandes volumes de dinheiro público, enquanto os trabalhadores ficaram sem os mesmos direitos dos servidores. "Eu sou contra OS na saúde. Eu acho que saúde é uma obrigação do Estado. Você não pode entregar um hospital para uma organização administrar, colocar quase um bilhão de reais de dinheiro público e depois não ter controle efetivo sobre aquilo", afirmou.
Ao tratar do assunto, Garotinho citou contratos da Prefeitura do Rio e criticou o que considera falta de transparência na utilização dos recursos.
Rio precisa depender menos do petróleo
Na economia, o candidato afirmou que o Estado precisa reduzir a dependência dos royalties do petróleo e recuperar sua capacidade industrial. Para Garotinho, a arrecadação do setor não pode ser utilizada como solução permanente para as contas públicas.
"O petróleo acaba. A gente não pode construir um Estado dependendo eternamente de uma riqueza que é finita. O Rio precisa voltar a produzir, voltar a ter indústria, tecnologia, comércio e turismo", disse.
Ele também criticou a perda de empresas e atividades econômicas, especialmente na capital, e citou a saída de grandes companhias como um sinal de perda de competitividade.
Para Garotinho, segurança e desenvolvimento econômico estão diretamente ligados. "Quando você tem violência, você não perde só segurança. Você perde turista, perde hotel, perde restaurante, perde motorista de Uber, perde taxista, perde construção civil. A violência tem um impacto econômico enorme", afirmou.
'Superbarcas' para a Região Metropolitana
Na mobilidade, Garotinho defendeu a retomada de um planejamento integrado para a Região Metropolitana e citou a antiga Fundação para o Desenvolvimento da Região Metropolitana do Rio de Janeiro (Fundrem) como referência.
Uma das principais propostas apresentadas foi a criação de uma grande rede de transporte aquaviário, batizada por ele de "superbarcas", inspirada no modelo de Sydney, na Austrália.
A ideia é ampliar as ligações por embarcações entre municípios como Magé, Duque de Caxias, cidades da Baixada Fluminense, Niterói, São Gonçalo, Itaboraí e Rio de Janeiro. "Por que a gente não usa a Baía de Guanabara como uma grande avenida? Você pode ter várias estações, vários pontos de embarque e desembarque e levar as pessoas de um lado para o outro sem elas ficarem duas, três horas dentro de um ônibus", afirmou.
Segundo o candidato, o sistema poderia custar menos do que grandes obras de expansão do metrô e reduzir o tempo de deslocamento dos trabalhadores.
Educação com tecnologia e inteligência artificial
Garotinho também defendeu uma mudança no modelo das escolas estaduais. Entre as propostas está a criação de uma "Escola Tecnológica", com maior utilização de equipamentos digitais e ampliação da carga horária.
"Nós precisamos preparar o jovem para o mundo que ele vai encontrar. A inteligência artificial vai mudar completamente o mercado de trabalho. Não adianta ensinar para o jovem de hoje aquilo que servia para o mercado de trabalho de ontem", afirmou.
O candidato defendeu ainda escolas com pelo menos seis horas de permanência diária e treinamento dos professores para lidar com as novas tecnologias.
Na sabatina, Garotinho resumiu o que considera o maior desafio de um eventual governo ao falar justamente do combate aos desvios dentro da máquina pública. "O maior desafio vai ser enquadrar os agentes públicos que promovem a corrupção. Porque você pode fazer o melhor projeto do mundo, mas se o dinheiro for desviado, ele não chega na população", afirmou.
Ao projetar o resultado que gostaria de entregar ao final de um eventual mandato, o ex-governador disse que pretende recuperar a capacidade de investimento do Estado, reduzir a dependência do petróleo, ampliar a atividade econômica e melhorar os índices de segurança.
"Eu quero que o povo do Rio volte a ter orgulho do seu estado. Quero que a gente possa olhar para trás e dizer que o Rio voltou a ser um estado seguro, desenvolvido e com capacidade de investir no seu próprio futuro", concluiu. Essa versão fica mais forte para publicação porque a corrupção aparece como fio condutor da entrevista, enquanto as demais propostas entram como desdobramentos do projeto de governo.
O Rio em Frente reúne entrevistas e sabatinas com candidatos ao Governo do Rio de Janeiro para discutir propostas e os principais desafios do estado em áreas como segurança, saúde, educação, infraestrutura, mobilidade, geração de empregos e políticas sociais.
Anthony Garotinho (Republicanos), tem 66 anos de idade. Natural de Campos dos Goytacazes, no Norte Fluminense, ele iniciou a carreira política como prefeito da cidade e foi eleito governador do Rio em 1998, cargo que exerceu entre 1999 e 2002.
Também foi deputado federal e secretário estadual de Segurança. Em 2002, disputou a Presidência da República e terminou em terceiro lugar. Em 2026, voltou a concorrer ao Governo do Rio.
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