Região da Pequena África receberá obras de revitalizaçãoDivulgação

O Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) e a Prefeitura do Rio anunciaram, nesta quarta-feira (21), novas etapas do projeto de implantação do Distrito Cultural Pequena África, na Região Portuária. A primeira intervenção será a requalificação da Praça dos Estivadores, com investimento municipal de R$ 2 milhões. Também estão previstas a criação da Biblioteca Machado de Assis, do Conservatório da Música Preta Brasileira e da Fábrica, espaço voltado à capacitação e à comercialização de produtos de empreendedores locais.


As iniciativas integram a Iniciativa Valongo, projeto desenvolvido pelo BNDES com apoio técnico do Consórcio Valongo Patrimônio Vivo. Os investimentos iniciais estão estimados em R$ 23 milhões, que deverão ser captados junto a fontes públicas e privadas. Os valores destinados aos três equipamentos culturais ainda dependem da obtenção dos recursos necessários.

A Praça dos Estivadores será o primeiro espaço a passar por uma intervenção. A proposta prevê a instalação de bancos, canteiros ajardinados e estruturas para ampliar as áreas de sombra, além de melhorias na iluminação e nas conexões com o entorno, com prioridade para a circulação de pedestres.

O projeto também pretende ampliar as condições para a realização de atividades culturais e comunitárias, como apresentações artísticas, feiras, rodas de conversa e ações educativas. Dois totens deverão apresentar informações sobre o Distrito Cultural Pequena África e a história da praça, incluindo referências aos trabalhadores portuários e à formação afro-brasileira da região.

Segundo o material divulgado pelos responsáveis pelo projeto, as intervenções foram planejadas a partir de consultas a moradores, instituições e agentes culturais. Entre as demandas identificadas estão a criação de áreas de permanência com sombra e a melhoria das condições para atividades educativas e culturais.

Localizada nas proximidades da Casa Tia Ciata, da sede do Afoxé Filhos de Gandhi, dos Jardins Suspensos do Valongo e da Casa João de Alabá, a praça deverá funcionar como um ponto de conexão entre espaços históricos e culturais da região.

Além da requalificação urbana, o BNDES firmou um acordo de cooperação técnica com a Fundação Biblioteca Nacional para viabilizar a Biblioteca Machado de Assis. A previsão é investir R$ 8 milhões na adaptação de um imóvel da instituição. O espaço deverá contar com acervo, auditório, sala de exposições e terraço com jardim e café, com foco na literatura afro-brasileira, na memória oral e na formação crítica.

Outro equipamento previsto é o Conservatório da Música Preta Brasileira, que será desenvolvido em parceria com o Instituto Cultne. Com investimento estimado em R$ 8 milhões, a estrutura deverá ocupar um terreno desapropriado e cedido pela Prefeitura, na região do Largo da Prainha. A proposta inclui atividades de formação musical, ensaios, produção e registro de obras, além de espaços destinados a apresentações.

O terceiro projeto é a Fábrica, iniciativa em parceria com a Fundação Darcy Vargas que prevê investimento de R$ 5 milhões. O espaço deverá oferecer capacitação, suporte técnico e comercialização para produtores e empreendedores locais, com atenção à economia solidária negra e a produtos ligados à identidade cultural da região. Assim como nos outros dois equipamentos, a execução depende da captação dos recursos previstos.

O plano do Distrito Cultural Pequena África também inclui propostas de qualificação de ruas, praças e percursos, além de medidas relacionadas à arborização, à mobilidade e à criação de áreas de convivência. Entre os locais citados estão a Rua Camerino, a Praça da Harmonia, a Rua e a Ladeira do Livramento e a Promenade do Valongo. Parte dessas iniciativas ainda está em fase de planejamento e discussão, sem definição de implantação.

A elaboração do projeto contou com oficinas, fóruns e grupos de discussão realizados entre dezembro de 2024, o primeiro trimestre de 2025 e 2026. As atividades reuniram moradores, pesquisadores, lideranças comunitárias, gestores culturais e representantes de instituições públicas. Também foram realizadas pesquisas e visitas técnicas a experiências de museologia comunitária e gestão cultural no Rio, em Salvador e em São Paulo.

Entre as diretrizes estabelecidas estão a exigência de que pelo menos 30% dos profissionais contratados pelo BNDES para o projeto sejam negros e a realização de cursos de letramento racial para as equipes envolvidas. O processo também incluiu um concurso de ideias destinado a arquitetos e urbanistas negros.

A Pequena África reúne locais associados à história da população negra no Rio, especialmente nos bairros da Saúde, Gamboa e Santo Cristo. Entre as principais referências está o Cais do Valongo, reconhecido como Patrimônio Mundial pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco). Estima-se que entre 800 mil e 1 milhão de africanos escravizados tenham desembarcado no local entre 1774 e 1831.

Além das marcas da escravidão, o território preserva referências da resistência negra, da religiosidade e da formação de manifestações culturais como o samba. A proposta do Distrito Cultural busca articular a preservação desse patrimônio com a qualificação dos espaços públicos e o desenvolvimento econômico local, mantendo o diálogo com as comunidades e instituições que atuam na região.