A capital da canoa polinésia

A cidade de Niterói hoje é uma referência neste esporte milenar. São 30 bases de prática. Atividade chegou ao Brasil há 20 anos

Por O Dia

A canoa polinésia, conhecida popularmente como canoa havaiana, é um esporte milenar que surgiu no triângulo da Polinésia Francesa e foi usado como forma de colonização de várias ilhas. Trazido para o Brasil por Ronald Zander no ano 2000, ganhou uma capital federal: Niterói. A cidade vive um fenômeno curioso. A cada raiar do dia aumenta número de praticantes. "O crescimento do interesse pela prática da canoa polinésia é exponencial, porque um apaixonado pelo esporte leva um amigo, esse amigo leva outros amigos e assim o número a legião vai aumentando. Houve uma explosão no número de praticantes nos últimos três anos. Quando eu comecei, Niterói tinha cerca de cinco bases apenas, hoje são quase 30", afirma Danielle Chevrand, diretora da Associação Niteroiense de Va'a.

Danielle é uma das que fazem a multiplicação de interessados acontecer. Ela é professora do Fusão Va'a, clube voltado ao modo mais tradicional da remada da canoa havaiana. Os clubes de canoa polinésia normalmente trabalham com as canoas de 6 e de 4 lugares. A canoa Individual OC1 (Outriggers canoe 1) é uma canoa onde é possível guiar a direção através de pedais e leme. Na OC2, OC4 e OC6, podem remar duas, quatro e seis pessoas respectivamente. Além das canoas OC, existem as com a alcunha V, como a V1 e V3. Essas canoas são oriundas do Taiti, onde o "V" em seu nome representa "VA'A", que significa "canoa" no idioma local. Tanto as canoas V1 quanto V3, não possuem leme e o remo é o principal aliado para conduzí-las. E com essas canoas que o grupo Fusão Va'a vai ao mar. Partindo da praia de São Francisco para diferentes pontos da região oceânica de Niterói chegando até às praias do Rio de Janeiro. Os trajetos mais longos beiram os 20 quilômetros (ida e volta), mas Danielle garante que nenhum praticante se sente cansado. "Cada remada dura entre 50 minutos e 1h, a gente chega bem cedinho, por volta das 5h45 da manhã, ainda tá de noite, mas curiosamente é o horário mais cheio. Ali fazemos trajetos da enseada de São Francisco até a praia de Adão e Eva, Fortaleza de Santa Cruz ou a Praia do Morcego, lugares muito bonitos da região. Nos finais de semana fazemos uma remada mais longa, até a Urca, Praia Vermelha e até mesmo a Copacabana".

REMADOTERAPIA
- ASPECTO SOCIAL

A canoa polinésia também traz um aspecto social importante. Popularizado entre os praticantes de "remadoterapia". Não é incomum ver casos de gente que chega para remar com problema de depressão, separação recente ou outro dilema íntimo. "Acabamos salvando muitas pessoas. Depressão, desemprego, além de ansiedade, faz com que sejamos procurados. Salvar vidas acaba sendo a nossa missão", reflete Danielle

Um destes adeptos da remadoterapia é o analista de Tecnologia da Informação Sávio Saad, de 28 anos. Ele vivia um período difícil na vida, mas encontrou na canoagem um ótimo remédio. A sua história com a prática começou em dezembro passado, em um ano marcado por problemas de saúde com familiares e no trabalho, quando ele passou a ter picos de ansiedade e depressão, momento em que começou a ir à psicóloga para iniciar um acompanhamento, até que ela lhe apresentou àquela que se tornaria uma grande paixão: o remo. "Eu já fazia esportes, sempre fui um cara muito ativo, aí machuquei o ombro no Jiu-jitsu e parei por um bom tempo. No início, achava que não ia gostar porque tinha a impressão de não estar fazendo muito exercício, é uma primeira imagem comum que a gente tem. Ali passei a ter contato direto com a natureza, com as pessoas que praticam e isso me deu uma paz interna muito grande. Foi algo fenomenal", afirma Sávio.

Pensando mais do que nunca no coletivo, diversos cuidados estão sendo tomados por conta da pandemia, para minimizar as chances de contágio do novo coronavírus entre os praticantes, principalmente para a canoa OC6, que reúne um número maior de pessoas. Dentre esses cuidados estão o uso obrigatório de máscara ou face shield, antes, durante e depois da remada. Além disso, o remador deve deixar seus objetos e se dirigir diretamente à praia já pronto para entrar na água para a remada. Os remos pessoais deverão ser levados para casa e trazidos toda vez que a pessoa for remar e caso a pessoa seja iniciante e ainda não tenha remo, precisará agendar com a equipe para que se separe e higienize um remo para a pessoa na véspera da atividade. Todos devem fazer a higienização das mãos com álcool 70, antes e depois da remada. E as próprias canoas e remos de uso comum serão higienizados entre uma remada e outra pela equipe.

O analista de T.I. também relatou que foi pego de surpresa com o tempo prolongado de isolamento social por conta da pandemia do novo coronavírus e que passou a sentir falta do contato presencial. "Antes eu fazia psicólogo duas vezes por semana, passei a fazer de 15 em 15 dias e agora na quarentena, faço apenas uma vez por mês. Essa mudança de hábito com o esporte foi um ganho absurdo. Sinto muita falta da prática em conjunto", confessa. Além dos amantes das travessias no mar no âmbito amador, Niterói também vê aumentarem as conquistas dos atletas profissionais em suas águas. É de lá Marta Terra, atual campeã sul americana da canoa individual.

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