Um pouco de privacidade

Vivemos tempos de auto-hiperexposição, se é que essa ‘palavra’ existe. Aparentemente, ninguém obriga ninguém a aparecer

Por bruno.dutra

É você que faz questão de enterrar sua privacidade, e haja selfie em todos os cantos. Mas, como de costume, teremos em breve um período de recusa a esse comportamento espalhafatoso, mais teatral do que real. Nesse caso, tende a se dar bem a empresa que investir em encriptação, discrição e, enfim, não guardar qualquer registro sobre o conteúdo trafegado pelos usuários. Isso já ocorreu, por exemplo, quando as linhas telefônicas não eram digitais.

Essas e outras reflexões surgiram semana passada, durante uma conversa com o Luiz Felipe Barros, diretor-geral do Viber no Brasil. O Viber, para quem não sabe, é um serviço semelhante ao do Skype e ao do WhatsApp, entre outros menos cotados. São aplicativos que os usuários fazem ligações ou enviam mensagens, fotos ou vídeos aproveitando o pacote de dados do seu smartphone.

Vem daí o seu sucesso em todo o mundo, porque o dono da conta não tem que se preocupar com minutos excedentes no seu pacote de voz ou número baixo de mensagens instantâneas (SMSs) permitidas, por exemplo. Vai tudo pela rede da operadora. Como o pacote de dados costuma ser bem mais generoso que o de voz, a coisa tem funcionado muito bem, e nada indica que voltará atrás.

Por aqui, uma boa referência para esse tipo de serviço ainda é o Skype, porque já é um veterano, nascido em agosto de 2003, no ambiente dos velhos desktops. Mão na roda sobretudo para quem precisa fazer ligações internacionais frequentemente. Foi aí que a gente começou a gastar a expressão ‘voz sobre IP’.

Mas foi justamente a característica de ser um filhote dos desktops que fez o Skype perder alguma força quando o mundo mobile veio com tudo, a partir da segunda metade da década passada (caramba... parece que foi ontem!). Era, e continua sendo, um aplicativo pouco lembrado entre o povo que usa smartphones. Pelo menos no nosso mercado — que, aliás, é sempre bem chegado em soluções gratuitas.

Não foi por acaso que o WhatsApp virou o queridinho desde que apareceu, em 2009, já de olho no mundo móvel. Ele já apareceu multiplataforma, multilíngue e cheio de penduricalhos, e jogou muitos concorrentes para escanteio. Acabou sendo vendido para o Facebook em fevereiro passado, por US$ 16 bilhões, e continua ganhando o planeta.

O Viber é um pouco mais recente. Começou a operar no finzinho de 2010. Desde então, foram 608 milhões de downloads em todo o mundo. No início deste ano, eram cerca de 200 milhões. Do total, 400 milhões são usuários ativos — ou seja, aqueles que recorrem ao aplicativo ao menos uma vez por semana.

Entre todos os usuários, são 17 milhões de brasileiros. E contando, porque o Viber finalmente resolveu sair do armário aqui no Brasil e vir a público dizer que está positivo, operante e querendo agitar — assim como já faz em outros países, como a Índia.

Lembro que, em fevereiro, a empresa fez uma campanha incentivando o envio de mensagens pelo aplicativo em troca de ligações gratuitas para qualquer telefone fixo no Brasil. Em nove semanas, o Viber teve um crescimento de mais de 1000% no envio de mensagens. Com isso, foram feitas 70 milhões de ligações gratuitas, em mais de 140 milhões de minutos. Resultado: 4,5 milhões de novos usuários nesse período.

Esses números só reforçam o que já foi comentado aqui antes: o futuro é mobile, bom, bonito e quase de graça. Não será totalmente gratuito porque as empresas têm que pagar suas continhas e remunerar o investidor, e assim vão descobrindo como ganhar uns caraminguás do povo. É justo. O cliente paga sorrindo, até porque não percebe.

“Mas pode anotar aí: nós nunca seremos um aplicativo pago”, garante o Luiz Felipe Barros. Segundo ele, o Viber conseguirá manter-se gratuito eternamente. Assim seja.

De qualquer maneira, eu estava falando de superexposição e assuntos afins. O que o Viber me mostrou de interessante, nesse quesito, é que a empresa está bem afinada com a necessidade crescente de preservação da privacidade. A começar por uma característica pouco conhecida: nenhuma das informações trafegadas em suas redes é guardada pelo Viber. Tudo o que é conversado entre você e seus interlocutores fica armazenado apenas no seu aparelho. Se, por acaso, o aplicativo for excluído dele, você vai perder todos os registros.

Outros apps trabalham armazenando todas as conversas, incluindo os arquivos de fotos ou vídeos. É isso que permite que governos e desgovernos de todo o mundo obriguem que esses serviços entreguem o conteúdo, em investigações dos mais diversos tipos.

É por essas e por outras que Luiz Felipe Barros afirma que o Viber está para o WhatsApp assim como, há poucos anos, o Facebook estava para o Orkut aqui no Brasil. O Orkut, a gente lembra, era todo-poderoso, e ninguém poderia imaginar que sucumbiria. Agora em outubro, no entanto, ele será desativado para todo o sempre. Perdeu para o Facebook, que soube se movimentar e criar seu espaço no mundo mobile.

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