Por diana.dantas
Fé, perseverança, reza forte. Só isso, e olhe lá, poderá salvar o setor de tecnologia brasileiro neste governo que se (re)inicia com o Aldo Rebelo à frente do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI). Somente à base de muita prece a gente vai conseguir algum progresso com o Rebelo, cujo momento mais representativo à frente do Ministério dos Esportes, onde estava ganhando a vida até semana passada, foi a goleada que o Brasil levou da Alemanha, todos lembramos, durante a Copa do Mundo. A verdade é: teremos saudades do 7 x 1...
Um exemplo do que pode vir pela frente está no currículo do parlamentar Rebelo. No longínquo 1994, por exemplo, o então deputado vislumbrou uma lei que certamente julgou brilhante. Levou à Câmara um projeto que proibiria “a adoção, pelos órgãos públicos, de inovação tecnológica poupadora de mão-de-obra”.
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Estás rindo? Pois é. O Artigo 1 do tal projeto do gênio Aldo Rebelo impediria a contratação governamental (municipal, estadual ou federal) de qualquer “inovação tecnológica que seja poupadora de mão-de-obra, sem prévia comprovação, em relatório a ser submetido ao órgão legislativo correspondente, de que os benefícios sociais auferidos com a implantação suplantem o custo social do desemprego gerado”. Putz!

É uma ideia digna dos velhos ludistas, que quebraram o pau contra a Revolução Industrial na Inglaterra no princípio dos tempos. Para quem não lembra, o movimento liderado pelo Ned Ludd reuniu a galera que não queria a adoção de novas tecnologias, como os teares, que aumentavam a produtividade e, em contrapartida, acabavam com ofícios que acabaram sumindo do planeta.

Ora, assim caminha a humanidade. E é impossível frear a caminhada da tecnologia — cada vez mais acelerada, por sinal. Como uma de suas tarefas é ser a extensão dos seres humanos, aumentando seus potenciais, é inevitável que existam conflitos entre novas e antigas formas de trabalho.

Por essas e por outras, Aldo Rebelo, esse legítimo neoludista, ainda tem muito a aprender a respeito. Deveria fazer isso fora do ministério, cedendo-o a quem entende do assunto. A gente sabe, claro, que a política tem razões que a emoção desconhece, mas nada nos diz que o ministério, já tão pouco contemplado pelo governo federal, vai adiante agora.

Pelo menos nos resta a crítica bem-humorada, como a do Paulo Lemes, leitor do Tecnoblog. Diz ele que, ok, vamos seguir o desejo do atual ministro, então deputado. Dessa maneira, se a geladeira quebrar, bastará chamar um entregador de gelo. Ou, se a carroça quebrar, basta chamar o ministro para puxá-la. Piada de mau gosto? Pode ser. Mas piada de mau gosto mesmo é o Rebelo no MICT. Nada justifica sua presença ali.

De qualquer maneira, pelo bem da pátria, torço para estar totalmente enganado.
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Mas início de ano é época de otimismo, e não vou desafinar o coro dos contentes. Encontro uma mensagem positiva num livro de que gosto muito. Chama-se “Seis propostas para o próximo milênio”, do Italo Calvino (1923-1985). Como dá para perceber, não é coisa recente. Em 1984, Calvino foi convidado para fazer uma série de conferências em Harvard. Ele começou, então, a rascunhar os seminários. Não chegou a realizá-los pelo simples motivo de ter morrido antes... Mas o livro ficou — embora o texto sobre sua última proposta para o nosso milênio, a Consistência, não tenha sido escrito. Enfim, o material foi reunido pela viúva e, aqui no Brasil, foi publicado em 1994, pela Companhia das Letras.

O primeiro conselho do escritor é procurar a Leveza. Sobre tecnologia, diz ele que “é verdade que o software não poderia exercer seu poder de leveza senão mediante o peso do hardware; mas é o software que comanda, que age sobre o mundo exterior e sobre as máquinas, as quais existem apenas em função do software (...). A segunda revolução industrial, diferentemente da primeira, não oferece imagens esmagadoras como prensas de laminadores ou correias de aço, mas se apresenta como bits de um fluxo de informação que corre pelos circuitos sob a forma de impulsos eletrônicos. As máquinas de metal continuam a existir, mas obedientes aos bits sem peso.”

Para quem lida com tecnologia, o recado é: vamos parar de complicar, caramba!

A segunda proposta do Calvino é Rapidez. “O século da motorização impôs a velocidade com um valor mensurável, cujos recordes balizam a história do progresso da máquina e do homem. (...) Um raciocínio rápido não é necessariamente superior a um raciocínio ponderado, ao contrário; mas comunica algo de especial que está precisamente nessa ligeireza”. Alguém aí lembrou de Big Data?

Em seguida, talvez prevendo a existência de Aldo Rebelo, Calvino propõe o uso da Exatidão. “Para mim, exatidão quer dizer principalmente duas coisas: 1) um projeto de obra bem definido e calculado; 2) a evocação de imagens visuais nítidas, incisivas, memoráveis.” Tudo a ver, ministro, tudo a ver.

O quarto seminário de Calvino explora a necessidade de preservar a Visibilidade. O recado cabe muito bem para nós, súditos de televisão, internet, Instagram e afins — portanto, sobrecarregados de imagens. “Hoje somos bombardeados por uma tal quantidade de imagens a ponto de não podermos distinguir mais a experiência direta daquilo que vimos há poucos segundos na televisão. Em nossa memória se depositam, por estratos sucessivos, mil estilhaços de imagens, semelhantes a um bom depósito de lixo, onde é cada vez menos provável que uma delas adquira relevo.”

A Multiplicidade é o quinto ponto. Aqui, Italo Calvino prega a importância de “saber tecer em conjunto os diversos saberes e os diversos códigos numa visão pluralista e multifacetada do mundo”. Ora, eis um bom retrato da própria internet, a velha e boa internet, fora das grades do Facebook e de outras redes sociais que, me parecem, estão limitando cada vez mais a troca de ideias entre diferentes partes.
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