Por douglas.nunes

Terceiro longa do projeto Cidades do Amor, criado pelo francês Emmanuel Benbihy, o longa "Rio, Eu Te Amo", que estreia nas salas de cinema do país, tem altos e baixos como todos os filmes da triologia. Os anteriores foram rodados em Paris (2006) e em Nova York (2012). Tendo a cidade maravilhosa como pano de fundo, os diretores Carlos Saldanha, Fernando Meirelles, José Padilha, além dos estrangeiros Guillermo Arriaga (México), Stephan Elliott (Austrália), Im Sang-soo (Coreia do Sul), Nadine Labaki (Líbano), Paolo Sorrentino (Itália) e John Turturro (Estados Unidos) retrataram histórias passadas na cidade, embora algumas delas pudessem acontecer em qualquer outra parte do mundo. Para articular as histórias, todas com dez minutos cada, e dar um fio condutor à obra, foi chamado Vicente Amorim.

Cristo Redentor é filmado no longa "Rio, Eu Te amo"Arte%3A O Dia Online

Apesar de não deixar de lado as contradições pulsantes do Rio — como no episódio dirigido por Padilha, em que o personagem de Wagner Moura esbraveja contra injustiças da metrópole Cristo Redentor, durante voo de asa-delta —, o objetivo de “Rio, Eu Te Amo” é explorar a estética da cidade. Isso, ao lado do elenco, é um dos grandes atrativos da película.

O primeiro curta da produção já oferece a dimensão de seu elenco de peso. Fernanda Montenegro vive uma moradora de rua em “Dona Fulana”, dirigido por Andrucha Waddington e que é baseado em uma história real. Nela, a protagonista se recusa a voltar para o convívio familiar, mesmo após a insistência de seu neto, que a procura depois de anos sem vê-la. Quem o interpreta é Eduardo Sterblitch, que se saiu bem em um papel dramático.

“É a história de uma pessoa que tinha enchido o saco do sistema, de pagar conta e dar satisfação para a mulher, a sogra e resolveu morar na rua. Era uma pessoa muito querida no Leblon, a quem todos ajudavam. Ouvi essa história há dez anos e acho que as histórias é que escolhem a gente”, explica Andrucha.

O episódio que mais chama atenção é Texas, do mexicano Arriaga, passado em Santa Teresa. A carga emocional do curta e a capacidade de interpretação dos atores Land Vieira e Laura Neiva são destaques. Para tentar custear a operação de sua mulher, impossibilitada de andar, um pugilista de um só braço participa de lutas clandestinas. Ele se depara com uma proposta que pode mudar a vida de sua companheira, mas tirá-la dos seus braços. Durante as cenas, Laura não profere uma só palavra, o que não a impede de expressar o drama vivido por sua personagem.

Em “A Musa”, Fernando Meirelles usa toda a sua criatividade para guiar sua trama por meio da trilha sonora. Na praia de Copacabana, o ator francês Vincent Cassel faz o papel de um escultor de areia que se apaixona pelos pés de uma mulher que caminha pelo calçadão. A musa é Débora Nascimento. Ao descobrir seu namorado, interpretado por Márcio Garcia, ele usa sua frustração amorosa como fonte de inspiração para sua arte.

Talvez, o episódio mais esperado do filme fosse o de José Padilha. Responsável pelos direitos de imagem do Cristo Redentor, a Arquidiocese do Rio considerou o diálogo da personagem de Wagner Moura ofensivo, durante as gravações, e tentou cortar o trecho da obra. Padilha explorou os efeitos de som e imagem para promover uma ruptura e destacar as mazelas sociais do Rio. A música serena que acompanha a cena do voo de asa-delta é interrompida por uma fala ríspida da personagem, que denúncia a violência policial da cidade e seu despreparo para suportar as chuvas.

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