Depois do show no Rio de Janeiro que vocês fizeram juntos, o Milton Nascimento afirmou que, além de um encontro entre amigos, a apresentação era um “ato político”. No seu novo disco, logo no começo, já se percebe uma conotação política, ainda mais forte do que em “Nó na Orelha”. Isso é reflexo do momento atual da sua vida?
Eu estou sempre no Grajaú, ou aqui na região do Centro Velho de São Paulo, na Santa Efigênia, e ali é a Cracolândia. A qualquer hora do dia, você está vendo cinco, dez, 20 pessoas entregues a essa doença, passando por situação difícil. É a verdade do que a gente vê: pessoas lutando para ter moradia, para sair de um vício. Você indo fazer um corre aqui, entregar um CD não sei aonde, falar com não sei quem para te passar tal música. Infelizmente, isso ainda é uma realidade. Machuca, porque desde criança você vê isso. E a gente não quer ver nosso povo sofrendo desse jeito.
Na faixa que dá nome ao disco, você conclama o público a convocar seu Buda, porque o “o clima tá tenso”. A gente vive tempos difíceis hoje?
Desde que nós nascemos. Desde quando as caravelas aqui nos visitaram, não mudou. Desde quando vieram pessoas de outras terras que subjugaram os povos desta terra, assassinaram os índios, ignoraram suas culturas, religiões, culinárias e seus rituais com a natureza. Nós pagamos essa conta até hoje.
Você acha que, nos últimos anos, tivemos alguma melhora nas condições de vida mais básicas da população?
Muito esforço tem sido feito. Mas ainda tem muita coisa para fazer. Demoraram demais. As necessidades emergenciais continuam gritando, e não dá para se fazer nada a médio prazo por aqui.
Como filho de nordestinos, o que você achou do acirramento gerado pelas eleições e do preconceito contra o nordestino, manifestado principalmente em São Paulo?
É deprimente! Deprimente. Deprimente, cara O que é isso, bicho? Que falta de respeito inadmissível. É vergonhoso, sobretudo por ter vindo de pessoas que se dizem cultas e estudiosas. Pessoas cheias de “gabo”. Como assim, cara? Não estou entendendo. Ou melhor, estamos entendendo bem e sempre soubemos disso, só que, agora, as pessoas não estão mais disfarçando esse sentimento, deixando apenas em seu quintal.
É algo que sempre existiu mas estava velado?
Isso aí todo mundo sabe que sempre existiu. Uma vez, passei em casa depois de ter tido um acidente, e meu pai tinha chegado do serviço, por coincidência, e me levou para o pronto-socorro. Ao chegarmos lá, fui prontamente atendido, mas meu pai demorou quase duas horas para ser liberado. Por que? Por ser negro e nordestino, chamaram a polícia para investigar se ele tinha participado de um sequestro, porque um jovem que tinha sofrido um acidente durante um sequestro estava lá. Então, isso aí, para nós, não é novo. Tu ter um pai negro, lindo, nordestino, maravilhoso; uma mãe maravilhosa, nordestina, linda... A gente sabe disso, já sofreu muito.
Se você pudesse mandar alguma mensagem para as pessoas que tiveram essa atitude preconceituosa, qual seria?
Isso aí, o rap já está fazendo há mais de 30 anos. Não só o rap, mas várias outras pessoas, em uma questão que vai além do segmento musical ou de camada social. Quem tem um pingo de discernimento não comunga com isso.
É possível haver amor em SP?
Quando eu digo que não existe amor em SP, estou me referindo a uma mentalidade, de uma cidade que não é construída para seus cidadãos. Não parece que o estado é construído para os cidadãos, nem que a nação Brasil é construída para os cidadãos. Há interesses outros. Às vezes, não é nem o dinheiro, porque tem coisa que é mais valiosa: o ego, o poder. Lida-se com outras instâncias. O nosso povo é cheio de amor. Nosso povo é amado, respeitado e querido no campo das artes, dos esportes. Em qualquer lugar do mundo, o brasileiro é visto como uma pessoa criativa, que se vira. Isso é só o brasileiro que tem. Então, por que esse desamor todo, essa falta de olhar para o cidadão, que é a coisa mais importante da cidade? É nesse sentido que eu digo. Todos os dias, nós estamos tendo manifestações de amor pelo mundo. As manifestações de amor começam dentro de casa, de uma mãe com seu filho, uma avó com seu neto. Começa com a sua história de vida. Muita gente não muda essa história.
Em abril deste ano, um vídeo que exibia um trecho de sua entrevista concedida ao Lázaro Ramos, no programa Espelho (Canal Brasil) foi viralizado na internet. A razão para tanto sucesso foi uma argumentação confusa de sua parte, sobre a nova classe C. Na letra de “Cartão de visita”, com participação da Tulipa Ruiz, você inseriu trechos da sua fala que repercutiu nas redes. A ideia de transformar a polêmica em música surgiu no momento em que o vídeo bombou?
Nada, foi na hora que eu estava construindo o texto. No final da frase, veio de modo natural. Foi indo. Eu percebi que como eu não fui aceito, não soube me comunicar, quis retomar o assunto. Procurei seguir o toque das pessoas para me comunicar melhor. Foi isso que eu fiz, mas de um modo natural. Eu não tenho dimensão de quem está ouvindo o que eu estou falando. Estava conversando com um amigo, procurando ser o mais simples, como se eu tivesse aqui conversando com você, ou na laje de casa lá no Grajaú. Todo mundo cobra de qualquer pessoa que ela seja natural e ela mesma. Então, eu só fui eu, né, velho. Você vê o recorte da sociedade, como é o lance.
Ao mesmo tempo, tem também o quanto nosso povo é criativo. Quando fizeram aquele “meme”, essa entrevista já estava fazendo aniversário, tinha mais de um ano. Todo mundo achou que era uma entrevista recente. Você vê a sagacidade de uma pessoa que pegou aquilo e fez aquela brincadeira. Como essa pessoa foi criativa! Por mais que tenha usado de um jeito negativo, isso não importa. Importa falar das ferramentas que as pessoas têm na mão, da força e da criatividade que elas têm. É maravilhoso. Assim como eu cito Mc Lon, a Thássia (Naves) e o Lázaro na mesma canção. São três personalidades do país completamente diferentes, que vivem mundos completamente diferentes, e cada um, a seu modo, conversa ativamente com a sociedade vigente. Como cada um desses jovens tem sua construção? A riqueza que tem isso é de que forma a gente consegue dialogar? Para termos uma futura geração ainda mais interessante, mais inteligente, em uma sociedade melhor? Esse que é o grande lance da parada.
Seu processo de composição costuma se dar dessa maneira improvisada sempre?
É sempre algo assim. Só quando alguém faz um pedido é diferente. Teve uma canção que eu fiz para o filme “Cidade Cinza”, por exemplo, que fala sobre a questão do grafite, das leis na cidade. Eu assisti ao filme, vi uma parte que me emocionou e fiz uma canção a partir disso. Foi assim, nesse formato. Eu não planejo muito a música. Ela tem que ter uma pulsação real. Acho que o grande lance é o diálogo. Assim como proponho o equilíbrio, no trecho “Shiva, Ganesh, Zé Pilinda e Equilíbrio”, ou seja, chame tudo aquilo em que você tem uma referência, que te emociona e que te traz algo positivo. Para o diálogo. O que teve de positivo no que esse rapaz fez? A explosão de pessoas que quis assistir à entrevista na íntegra. Isso é maravilhoso.
A falta de diálogo é um dos nossos grandes problemas atuais?
Dentro de casa, tem pessoas que não conversam. O diálogo é, também, entender o que o outro está falando. É ter paciência para ouvir. Mas nós estamos todos muito ansiosos. A gente acabou de sair de uma ditadura, que acabou de sair de uma escravidão, que acabou de sair de uma invasão. A gente tem vergonha do nosso passado. É, realmente, um passado vergonhoso. Mas nossa história é muito rica, de povos que construíram nossa nação e são de uma beleza tão grande, que isso é um prato cheio para a gente se sentir valorizado e ter orgulho da nossa história, de nossa construção, em meio a todo o caos posto.
A set list dos shows vai se restringir ao Convoque Seu Buda ou incluirá outras canções?
Vamos visitar canções tanto do Ainda Há Tempo quanto do Nó Na Orelha.
Mais uma vez, sua obra rompe as barreiras do rap e passeia por outros ritmos, marcadamente o samba. De onde vem essa influência?
A gente é brasileiro. Um dos nossos ritmos mais emblemáticos, que a gente cresce ouvindo, é o samba. É uma coisa natural aqui de casa, meu pai sempre escutou muito samba, minha mãe também.
O disco apresenta uma novidade em relação ao Nó Na Orelha, que são as parcerias. Você quis fazer um trabalho mais coletivizado?
Foi de modo natural. Na construção de “Cartão de Visita”, quando fiz o refrão, na hora veio o nome da Tulipa (Ruiz) na mente. E na construção do “Fio de Prumo”, na hora, imaginei a Juçara (Marçal). E na construção do rap, eu liguei para esse jovem, o Neto, que tem 20 anos de idade. Há uns quatro, cinco anos, eu fui cantar na cidade dele, e ele foi um dos que cantaram, também, com uma participação em um grupo. Ele tinha 16 anos, e eu falei “rapaz, você é muito talentoso”. Passou o tempo, começamos a construir esse texto, e falei “tem uma pessoa que tem toda essa energia”. Aí convidamos o cara.
Quanto tempo vocês levaram para produzir o disco?
Foi de julho a setembro. Bastante trabalho.
Você sentiu o pessoal da banda mais solto desta vez, em relação à gravação do Nó na Orelha?
É que desta vez eles participaram mais ativamente, foram convidados para levantar a música do zero. Isso foi um ponto alto, a maior participação deles. O processo de criação foi mágico.
Em suas letras, há uma forte mensagem antidrogas. Você as enxerga como um grande mal da sociedade? Trata-se de uma realidade próxima a você?
É uma realidade presente na vida do Brasil. A questão é de cada um. O mais importante é ter esse diálogo. Eu insisto nisso. Só através do diálogo, as pessoas vão conseguir, de alguma forma, dar pequenos passos. É um processo de vida, não é uma coisa que vai se resolver amanhã, daqui a um mês ou dez anos. Não é. Nossos maiores problemas são a solidão, a depressão, a repressão. E a sociedade vai oferecendo ferramentas de como cada um vai lidando com isso. O que leva uma pessoa a se encontrar em uma condição dessas? Acho que o grande lance é esse. Existe o fato em si, que é algo emergencial, gritante, um problema social e uma questão de saúde pública. Mas o que leva uma pessoa a chegar a essa condição?
Você defende a legalização de drogas leves?
Nós estamos muito distantes desse diálogo. Nós não conseguimos legalizar o prato de comida. Não conseguimos legalizar, da forma mais simplória que seja, a tolerância entre as pessoas.
Temos questões mais emergenciais para resolver?
Acredito que sim.
A crítica aos jovens de classe média alta que financiam o tráfico de drogas também está presente em suas letras. Qual a sua opinião sobre esse fato?
Acho que o importante é não generalizar, entender a concepção, a ideia. Porque uma parcela das pessoas que foram às ruas pedir mudanças em junho do ano passado pediu para o Brasil ser dividido entre norte e sul. Ao mesmo tempo, não generalizar, tentar entender. Ter um olhar tranquilo e analisar as coisas. Porque, no calor da coisa, apontar dedo na cara das pessoas não vai resolver nada. Só incita mais ódio. Agora, é um recorte social vigente. É isso.
Colaborou o estagiário João Pedro Soares