Por rafael.arantes

Rio - O Carnaval de 2014 marcará três décadas de história. A Passarela do Samba guarda momentos inesquecíveis do Carnaval e passou a fazer parte da história do maior espetáculo da Terra. Idealizada pelo arquiteto Oscar Niemeyer, a Avenida é o reduto principal das escolas de samba e mudou a história do Carnaval. O Sambódromo passou a receber o desfile (a Avenida Presidente Vargas era a antiga casa da folia) e impulsionou a festa. Até mesmo o formato foi alterado, passou a ser dois dias de desfile. Nasceu o verdadeiro palco da magia.

Sambódromo foi inaugurado em 1984%2C no governo de BrizolaDanilo Paixão / Agência O DIA

A Avenida foi o palco perfeito para acompanhar o crescimento do Carnaval. O projeto de Niemeyer foi implantado no primeiro governo de Leonel Brizola e foi inaugurado em 1984 com o nome de "Avenida dos Desfiles". Pouco tempo depois, o nome foi alterado para "Passarela do Samba", até que em 1987 a Sapucaí foi nomeada oficialmente como "Passarela Professor Darcy Ribeiro", numa homenagem ao principal mentor da obra, o antropólogo Darcy Ribeiro, que chegou a nomear o projeto como "Sambódromo", termo utilizado até hoje.

>>> FOTOGALERIA: Os momentos mais marcantes dos 30 anos do Sambódromo

Com cerca de 700 m de comprimento, a Sapucaí passou por uma grande reforma recentemente. Em 5 de junho de 2011, os camarotes do antigo Setor 2 foram derrubados para dar lugar a novas arquibancadas, seguindo o projeto original de Oscar Niemeyer, que havia sido modificado em razão da existência da fábrica da Cervejaria Brahma no local. A obra custou R$ 30 milhões e a Avenida foi reinaugurada no dia 12 de fevereiro de 2012, a poucos dias do Carnaval, e aumentou a capacidade de público para 72.500 pessoas.

Nos 30 anos de existência, o Sambódromo já passou por grandes momentos. Mesmo sendo utilizado para outros eventos além do Carnaval, é no espetáculo que ele se destaca. Foram desfiles emblemáticos, sambas históricos e um vasto misto de emoções. O samba "Peguei um Ita no Norte", do Salgueiro, é marcado até hoje como um dos mais cantados da Sapucaí, assim como Rosa Magalhães é a maior carnavalesca campeã da Passarela do Samba e a Beija-Flor é a escola com mais títulos na Avenida.

Estreia da Sapucaí resultou em 'supercampeonato' da Mangueira%2C em 1984; Na imagem, Beth Carvalho aparece com Delegado e MocinhaBeth Santos / Agência O DIA

Estreia com supercampeonato

A inauguração do Sambódromo marcou uma nova fase para o Carnaval e não poderia ser de maneira melhor a não ser com um supercampeonato. Em 1984, as escolas foram divididas em dois dias de desfile. Em cada um, uma agremiação foi eleita a melhor. No sábado das campeãs, as melhores de cada dia e do acesso voltaram para a Sapucaí. A Mangueira levou o enredo "Yes, Nós Temos Braguinha" para a estreia da Sapucaí e o carnavalesco Max Lopes fez história. A Verde e Rosa se consagrou vitoriosa entre seus adversários, mas foi no desfile das campeãs que o título foi coroado, novamente sendo aclamada como a supercampeã.

Desfiles emblemáticos em 1988 e 1989

Vila Isabel e Beija-Flor fecharam a década de 1980 com chave de ouro. Em 88, a escola de Noel Rosa conquistou o título com o enredo "Kizomba, a festa da raça". O desfile entrou para a história. A abundância de materiais alternativos, como palha e sisal, e a garra dos componentes da escola garantiram o título incontestável para a Azul e Branca, o primeiro da agremiação. No ano seguinte, o momento mais marcante da Sapucaí não ficou com a taça.

A Beija-Flor viu Joãosinho Trinta quebrar um "protocolo" ao levar para a Avenida um desfile repleto de simplicidade e lixo, diferentemente do luxo e riqueza que a escola acostumava apresentar. O enredo "Ratos e Urubus" ficou em segundo lugar, mas ganhou a atenção de todos os holofotes com a presença de uma réplica do Cristo Redentor censurada. O fato ocorreu após uma ação judicial da Igreja Católica, que contestou a presença da alegoria na qual o monumento aparecia como um mendigo. Um saco plástico preto e uma faixa com os dizeres: "Mesmo proibido, olhai por nós" marcou a Passarela do Samba.

Vila Isabel foi campeã em 1988 com o lendário desfile 'Kizomba'; Na foto, a atriz Zezé Mota em um dos carros da escolaCarlos Silva / Agência O DIA

A era de ouro da Mocidade

A Mocidade Independente de Padre Miguel viveu um grande momento no Carnaval no início dos anos 90. Após perder o carnavalesco Fernando Pinto, que morreu num acidente de carro em 1987, a Verde e Branca viu Renato Lage chegar para engrandecer ainda mais a história da escola. O início da trajetória foi em 1990, quando o artista chegou à escola, e a estreia foi com título. A Mocidade se consagrou bicampeã em 1990 e 1991 com os enredos "Vira Virou, a Mocidade Chegou" e "Chuê, Chuá… As Águas Vão Rolar". A surpreendente evolução marcou a agremiação, que passou a figurar sempre entre as favoritas. No entanto, outro triste incidente marcou a escola de Padre Miguel. Após se sagrar campeã novamente em 1996, a Mocidade perdeu seu patrono no ano seguinte. O bicheiro Castor de Andrade cumpria prisão domiciliar e estava na casa de uma amiga, no Leblon, quando sofreu um ataque cardíaco e morreu a caminho do hospital.

Tricampeonato em Ramos

No início dos anos 2000 foi a Imperatriz Leopoldinense que fez história, mesmo já tendo sido bicampeã em 1994 e 1995. A Verde e Branca começou sua trajetória de ouro em 1999, quando foi campeã com o enredo "Brasil, Mostra A Sua Cara Em… Theatrum Rerum Naturaliun Brasiliae". No ano seguinte, a homenagem aos 500 anos do Brasil também teve a Imperatriz como vitoriosa, fato que voltou a acontecer em 2001, com um enredo sobre a cana. A trilogia marcou a história da agremiação e fez de Rosa Magalhães a carnavalesca mais vitoriosa da Sapucaí, até então com cinco títulos. A Imperatriz foi a primeira escola a conquistar três títulos consecutivos na Sapucaí, feito igualado pela Beija-Flor em 2003, 2004 e 2005.

Grande Rio inovou ao levar 'homem voador' para a Sapucaí no desfile de 2001Marcelo Regua / Agência O Dia

As inovações dos anos 2000

As vitórias da Imperatriz marcaram o início do "novo tempo". Os mistérios dos anos 2000 marcaram a Sapucaí com inovações. Logo em 2001, a Grande Rio abusou da ousadia. No desfile sobre Gentileza, a escola de Caxias levou a Sapucaí à loucura no fim de seu desfile com um homem voador. O dublê americano Eric Scott voou sobre a Avenida com um foguete portátil de US$ 120 mil nas costas e impactou o Sambódromo. Alguns anos depois a inovação foi mais simples, mas desafiou as estruturas da Passarela do Samba. No desfile da Viradouro em 2007, mestre Ciça deixou de lado o medo e fez sua bateria se apresentar sobre um dos carros alegóricos da escola, fato nunca antes visto na Sapucaí.

Joãosinho Trinta se despede

Foram 17 anos vivendo em São Luís do Maranhão antes de fazer história no Rio. Joãosinho Trinta iniciou sua carreira no samba em 1961, como assistente de Fernando Pamplona e Arlindo Rodrigues e foi promovido a carnavalesco em 1973. A trajetória foi vitoriosa e após o terceiro lugar na estreia, João foi campeão nos cinco anos seguintes, por Salgueiro e Beija-Flor. O artista ficou marcado por desfiles emblemáticos, colecionou títulos e escreveu 32 anos de muito sucesso no Carnaval. A despedida do mestre como carnavalesco foi em 2005, na Vila Isabel, pela qual desenvolveu o enredo "Singrando em mares bravios... E construindo o futuro". Em 2011, com a saúde debilitada, Joãosinho faleceu no dia 17 de dezembro, aos 78 anos.

Adeus a Jamelão

José Bispo Clementino dos Santos se eternizou na história do Carnaval. Jamelão foi considerado o maior intérprete da Marquês de Sapucaí e levou sua vida no samba com a Mangueira. O cantor defendeu o pavilhão verde e rosa de 1949 até 2006, sendo a voz principal da escola desde 1952. A despedida da Sapucaí veio em razão de problemas de saúde. Dois derrames, diabetes e a hipertensão deixaram Jamelão cada vez mais debilitado. No dia 14 de junho de 2008, aos 95 anos, o mestre nos deixou.

Paulo Barros vira protagonista

O carnavalesco Paulo Barros passou os primeiros sete anos de sua carreira caminhando pelos grupos de acesso do Carnaval. No entanto, em 2004, a Unidos da Tijuca apostou no talento do artista para promover sua estreia no Grupo Especial. Com o enredo "O Sonho da Criação e a Criação do Sonho: A Arte da Ciência No Tempo do Impossível", a escola era vista com desconfiança e fez um desfile surpreendente na Sapucaí. Um novo estilo de Carnaval foi apresentado e alegorias recheadas de coreografias fizeram a diferença. A estética diferenciada e o impactante carro do DNA deram à Tijuca o vice-campeonato e o status de revelação para Paulo Barros.

Paulo Barros surpreendeu ao levar para a Avenida o carro do DNA. Em 2004%2C a Tijuca foi o grande ponto alto dos desfilesReprodução Internet

O carnavalesco ficou três anos na Tijuca, mas acabou deixando a escola e tendo passagens por Viradouro e Vila Isabel, além de Estácio e Renascer no Grupo de Acesso. Em 2010 a saudade apertou e Paulo voltou para a Tijuca, o retorno foi com chave de ouro e o artista conquistou seu primeiro título na elite do Carnaval, fato que se repetiu em 2012. Uma verdadeira nova era no Carnaval ficou marcada.

Samba de mestres coroa título

O Carnaval de 2013 foi um verdadeiro mar azul ou, na verdade, uma grande "festa no arraiá". Tudo começou quando André Diniz e Arlindo Cruz voltaram a vencer a disputa de samba na Vila Isabel, agora na companhia de Martinho da Vila. O samba vencedor era cotado como o melhor do Carnaval desde o início das eliminatórias e não foi diferente na Sapucaí. A Vila Isabel viu Rosa Magalhães conquistar seu sexto título da carreira com um desfile emblemático. O "Povo do Samba", como diz a letra da música, levou o público ao delírio e, embalados com uma verdadeira obra-prima, a Vila Isabel conquistou seu terceiro campeonato no Carnaval.

Vila foi campeã em 2013 com obra prima dos compositores André Diniz%2C Arlindo Cruz%2C Martinho da Vila e cia.Carlos Moraes / Agência O Dia

Confira, na ordem de desfile, o que a Sapucaí vai receber em seu 30º aniversário:

EscolaEnredoCarnavalesco
Império da Tijuca"Batuk"Júnior Pernambucano
Grande Rio"Verdes Olhos Sobre o Mar, no Caminho: Maricá"Fábio Ricardo
São Clemente "Favela"Max Lopes e Comissão
Salgueiro"Gaia - A Vida em Nossas Mãos"Renato e Márcia Lage
Mangueira"A Festança Brasileira Cai no Samba da Mangueira"Rosa Magalhães
Beija-Flor"O Astro Iluminado da Comunicação Brasileira"Comissão de Carnaval
Mocidade"Pernambucópolis"Paulo Menezes
União da Ilha"É Brinquedo, é Brincadeira; a Ilha Vai Levantar Poeira"Alex de Souza
Vila Isabel"Retratos de um País Plural"Comissão de Carnaval
Imperatriz"Arthur X - O Reino do Galinho de Ouro na Corte da Imperatriz"Cahê Rodrigues
Portela"Um Rio de Mar a Mar: do Valongo à Glória de São Sebastião"Alexandre Louzada
Unidos da Tijuca"Acelera, Tijuca!"Paulo Barros


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