Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP) celebra a publicação do artigoArte

Um artigo brasileiro publicado nesta quinta-feira (23) na revista The Lancet Psychiatry, um dos mais importantes periódicos científicos de psiquiatria do mundo, alerta para um possível risco gastrointestinal associado à combinação entre clozapina e agonistas do receptor de GLP-1.

O estudo, intitulado "Clozapine and GLP-1 receptor agonists: an underrated gastrointestinal safety risk" (em português, "Clozapina e agonistas do receptor de GLP-1: um risco gastrointestinal subestimado"), foi publicado na seção Comment, destinada à discussão de temas relevantes e atuais para a psiquiatria.
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A importância da publicação, além do ineditismo do tema, também está relacionada à posição ocupada pelo periódico no cenário científico internacional. De acordo com dados oficiais da própria revista, The Lancet Psychiatry ocupa o segundo lugar entre 293 periódicos de psiquiatria no Journal Citation Reports 2025, divulgado pela Clarivate em 2026.

Uma lacuna na segurança dos tratamentos

O artigo aborda um tema inédito: uma possível interação de segurança entre a clozapina e os agonistas do receptor de GLP-1. Em aproximadamente um em cada quatro pacientes com esquizofrenia que não respondem adequadamente aos antipsicóticos convencionais, a clozapina permanece como o tratamento mais eficaz.

Apesar da importância clínica, o medicamento pode causar hipomotilidade gastrointestinal, condição caracterizada pela redução dos movimentos do sistema digestivo. 

Além disso, a clozapina pode provocar ganho de peso significativo e alterações metabólicas. Para minimizar esses efeitos, os agonistas do receptor de GLP-1 vêm sendo utilizados em pacientes que fazem uso do antipsicótico, devido aos benefícios sobre o peso, a saciedade e o controle glicêmico.

Entretanto, esses medicamentos também retardam o esvaziamento gástrico e o trânsito intestinal. Os autores observam que, embora as duas classes de medicamentos atuem por mecanismos diferentes, ambas reduzem a motilidade gastrointestinal.

Até o momento, nenhum estudo avaliou diretamente se essa associação aumenta, de forma clinicamente relevante, o risco de complicações intestinais graves, como íleo paralítico, obstrução intestinal e isquemia. Dessa forma, o artigo não afirma que a combinação necessariamente provoque esses eventos, mas alerta para uma possibilidade biologicamente plausível que ainda não recebeu a atenção necessária.

"A ausência de publicações relatando danos graves não deve ser interpretada como prova de segurança; é bem mais provável que reflita a falta de uma estrutura para vigiar complicações raras e facilmente ignoráveis", destacam os autores.

Monitoramento e farmacovigilância

O artigo chama atenção para o fato de que pacientes com esquizofrenia podem apresentar dificuldade para reconhecer ou comunicar alterações gastrointestinais. Além disso, muitos utilizam outros medicamentos com efeitos anticolinérgicos ou constipantes, o que pode aumentar ainda mais o risco de redução da motilidade intestinal.

Diante da ausência de dados diretos sobre a segurança dessa associação, os pesquisadores apresentam recomendações práticas para profissionais que prescrevem agonistas do receptor de GLP-1 a pacientes em tratamento com clozapina.

Entre as medidas propostas estão a avaliação do funcionamento intestinal antes do início do novo medicamento, a revisão das demais medicações utilizadas pelo paciente, a adoção de medidas preventivas para pessoas com maior risco e o estabelecimento de um acompanhamento estruturado, principalmente no início do tratamento e durante o aumento das doses.

Os autores também defendem que pacientes e familiares sejam orientados de forma clara e repetida sobre sinais de alerta, como dor abdominal, distensão, vômitos e alterações intestinais relevantes.

Em nível regulatório, o artigo propõe que relatos de eventos adversos envolvendo as duas classes de medicamentos sejam identificados conjuntamente nos sistemas de segurança pós-comercialização. Essa medida contribuiria para a detecção de possíveis sinais de risco e para o desenvolvimento de estudos mais robustos.

Mais uma contribuição brasileira para a ciência mundial

Segundo a Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP), a publicação de mais um artigo em um dos mais relevantes periódicos científicos do mundo, abordando um tema inédito da especialidade, representa uma importante contribuição da psiquiatria brasileira ao debate científico internacional.

O trabalho demonstra a capacidade dos pesquisadores brasileiros de identificar uma lacuna clínica relevante, conectar evidências de diferentes áreas e propor medidas de proteção aos pacientes antes que complicações potencialmente evitáveis sejam reconhecidas tardiamente. A iniciativa contribui para o aprimoramento da prática clínica e para a segurança dos pacientes.

A publicação também fortalece a presença brasileira nas discussões internacionais sobre farmacovigilância, segurança dos psicofármacos e cuidado integral de pessoas com esquizofrenia resistente ao tratamento.
Autores:
Ervin Cotrik, psiquiatra associado da ABP e Doutorando da Unicamp, Antônio Geraldo da
Silva, psiquiatra associado da ABP e Coordenador do Programa de Especialização em
Psiquiatria da Faculdade Paulista de Ciências da Saúde e Walmir Coutinho,
endocrinologista e do Programa de Pós-Graduação em Endocrinologia e Metabologia da
Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro.

Título:
Clozapine and GLP-1 receptor agonists: an underrated gastrointestinal safety risk. The
Lancet Psychiatry,