Terceiro Comando Puro (TCP) Gerado por IA
Em 1998, o Terceiro Comando se aliou à facção Amigos dos Amigos (ADA). A parceria, no entanto, chegou ao fim em setembro de 2002, após uma rebelião no presídio Bangu I, no Rio de Janeiro. Na ocasião, Luiz Fernando da Costa, o Fernandinho Beira-Mar, liderou uma ação que resultou na morte de rivais, entre eles Uê, um dos líderes da aliança entre os grupos.
Celsinho da Vila Vintém, integrante do ADA que sobreviveu à rebelião, foi acusado de traição. O episódio contribuiu para o rompimento definitivo da aliança e para a divisão dos integrantes do antigo Terceiro Comando. Parte deles passou a integrar o Terceiro Comando Puro (TCP), enquanto outros permaneceram ou se aproximaram do ADA.
Foi nesse contexto que surgiu a sigla TCP, com a inclusão da letra “P”, de “Puro”, para diferenciar o grupo dos antigos aliados.
No fim de 2007, após a morte de Robinho, o traficante Márcio José Sabino, conhecido como Matemático, assumiu o controle dos pontos de venda de drogas ligados ao grupo em Senador Camará, na Zona Oeste do Rio. Ele permaneceu na liderança da região até maio de 2012, quando morreu em uma emboscada policial.
A influência da religião no TCP
Com o passar dos anos, lideranças do Terceiro Comando Puro (TCP), como Álvaro Malaquias Santa Rosa, conhecido como Peixão, passaram a adotar o neopentecostalismo, movimento cristão evangélico que surgiu entre o fim dos anos 1970 e os anos 1980. Essa corrente religiosa é marcada pela teologia da prosperidade, pela crença na batalha espiritual contra demônios e forças do mal e pela busca por curas, milagres e prosperidade financeira.
No Complexo de Israel, conjunto de cinco comunidades da Zona Norte do Rio (Parada de Lucas, Vigário Geral, Cidade Alta, Pica-Pau e Cinco Bocas), foram colocadas bandeiras de Israel e estrelas de Davi, um dos principais símbolos do judaísmo, em muros e outros espaços. O grupo também utiliza frases como “Jesus é o dono do lugar”.
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Territórios e formas de atuação
Um relatório reservado do setor de inteligência da Polícia Militar aponta que, em 2025, dos 1.648 locais mapeados no estado do Rio de Janeiro, 340 (20,6%) estão sob domínio do Terceiro Comando Puro (TCP). Na Região Metropolitana, o grupo controla territórios onde vivem cerca de 452 mil pessoas, o equivalente a 12,6% da população submetida ao domínio de grupos criminosos.
Entre 2018 e 2024, o TCP registrou seu maior crescimento nesse período, com uma expansão de 53% no número de pessoas que vivem sob seu controle. Ainda segundo a corporação, os números mudam diariamente em razão dos confrontos entre grupos criminosos pela conquista de territórios.
Além do Rio de Janeiro, o TCP também aparece em investigações sobre a atuação de grupos criminosos em outros estados, como Ceará, Bahia, Espírito Santo, Minas Gerais, Goiás, Amapá, Acre, Mato Grosso do Sul e Rio Grande do Sul. Em algumas dessas regiões, a facção disputa espaço com o Comando Vermelho e outros grupos criminosos.
Uma das características atribuídas à facção é a estrutura descentralizada. Nesse modelo, os responsáveis pelo controle de cada comunidade têm autonomia para administrar seus territórios, sem depender diretamente de uma liderança central para todas as decisões.
O que explica o crescimento da facção no Brasil
Em entrevista ao DIA, o advogado criminalista Guilherme Gama explicou que diversos fatores contribuíram para a expansão do Terceiro Comando Puro (TCP) e a conquista de novos territórios. Segundo ele, um dos primeiros passos foi oferecer refúgio, poder e suporte bélico a dissidentes de outras facções. Outro fator foi a articulação com setores corruptos das forças policiais e grupos paramilitares, como as milícias. Essa relação deu origem ao fenômeno conhecido como “comilícia”.
“Sob o aspecto econômico e logístico, a facção demonstrou uma habilidade singular para gerenciar e manter rotas de abastecimento de armas de grosso calibre e entorpecentes em áreas de divisa com outros estados e vias expressas de escoamento, convertendo o controle geográfico de suas favelas em verdadeiras fortalezas.”
De acordo com Guilherme, o crescimento do TCP e sua consolidação como a terceira maior facção criminosa do Brasil também estão relacionados a um modelo de gestão operacional flexível e descentralizado, aliado à capacidade de identificar oportunidades no mercado ilegal.
“Diferentemente de estruturas organizacionais rígidas e estritamente verticalizadas, o TCP adotou um modelo de confederação de "frentes" de trabalho e chefias locais autônomas. Esse arranjo concede margem de manobra financeira aos seus "frentes" (gerentes de territórios) para reinvestir lucros na aquisição de armamentos e na manutenção de suas próprias estruturas de segurança privada ilícita, sem a obrigação de remessa contínua de vultosas "caixinhas" centrais, modelo historicamente adotado por outras facções.”
O advogado também ressalta que a expansão além das fronteiras do estado do Rio de Janeiro ocorreu principalmente por meio da formação de redes de distribuição de drogas no atacado e de conexões diretas com fornecedores de armas na América do Sul. Além disso, o grupo estabeleceu alianças operacionais em estados do Sudeste e do Nordeste, como Espírito Santo, Minas Gerais e Bahia.
Segundo Guilherme, a atuação do TCP apresenta diferenças significativas entre o Rio de Janeiro e os demais estados. Em território fluminense, a facção costuma exercer o controle territorial de forma ostensiva, com homens armados exibindo fuzis, instalação de barricadas em vias públicas e uso da força para controlar moradores e impedir a entrada de grupos rivais.
Fora do Rio, por outro lado, a atuação tende a ser mais discreta, com foco no fornecimento de drogas e armas para grupos locais. De acordo com o advogado, essa estratégia busca evitar confrontos de grandes proporções com as forças policiais, preservar as rotas de abastecimento e manter as operações de lavagem de dinheiro provenientes do tráfico.
“No Espírito Santo, por exemplo, a presença do TCP fortaleceu-se de maneira expressiva no bairro da Penha e no Complexo da Penha, em Vitória, onde o grupo fluminense passou a fornecer fuzis, munições e logística para grupos locais em troca do domínio e da exclusividade das linhas de distribuição de cocaína e maconha.”
Para conquistar e manter o controle de territórios, na avaliação do advogado criminalista, o TCP impõe regras rígidas aos moradores e proíbe crimes como furtos e roubos nas áreas sob seu domínio. Quem desobedece às ordens pode sofrer agressões físicas ou ser vítima de execuções. A facção também avança sobre áreas de grupos rivais, principalmente do Comando Vermelho, aproveitando momentos de fragilidade e usando territórios vizinhos que já estão sob seu domínio para realizar ataques surpresa.
“No que tange às alianças estratégicas, o grande diferencial do TCP em comparação ao Comando Vermelho foi sua disposição para estabelecer pactos de não agressão e acordos comerciais com grupos milicianos. Em regiões da Zona Oeste e da Baixada Fluminense, a facção criou a chamada ‘narcomilícia’, um arranjo em que traficantes monopolizam a venda de drogas em áreas controladas por milicianos e, em contrapartida, dividem lucros ou repassam valores obtidos com serviços como internet, TV a cabo clandestina, venda de gás e cobranças de taxas de segurança.”
O Terceiro Comando Puro diversificou suas fontes de renda para além do tráfico de drogas. A facção também lucra com a venda monopolizada de gás e água, a exploração clandestina de serviços de internet e TV a cabo, a cobrança de taxas de comerciantes e entregadores, entre outras atividades ilegais.
“Embora o comércio de drogas continue sendo a principal fonte de arrecadação, o TCP diversificou suas atividades para ampliar os lucros e financiar sua expansão. O grupo passou a explorar serviços essenciais, cobrar taxas de comerciantes e investir em atividades ilegais, como a venda de imóveis sem autorização e o roubo de cargas e veículos.”
Os lemas que marcam a identidade do Terceiro Comando Puro
Em conversa com o DIA, o advogado criminalista Antônio Gonçalves destacou algumas das expressões mais utilizadas pela facção:
- “Tropa do Arão”: referência bíblica associada ao movimento neopentecostal;
- “Jesus é o dono do lugar”: frase usada para legitimar o domínio territorial por meio de um discurso de guerra espiritual;
- “Tudo três”: saudação que faz alusão às iniciais do Terceiro Comando Puro (TCP).
Em relação aos símbolos, o advogado destaca a bandeira de Israel, acompanhada da Estrela de Davi, e o gesto com três dedos, que também faz referência ao nome da facção.
“A organização utiliza ainda a figura do jacaré, em referência à sua liderança específica conhecida como ‘Lacoste’, e a imagem do Leão de Judá, como uma representação militar do uso da força pelo grupo.”
Ao analisar a atuação do TCP, o advogado Antônio Gonçalves destaca os confrontos pela disputa de territórios com seu principal rival no Rio de Janeiro, o Comando Vermelho (CV), além do estabelecimento de parcerias comerciais para a distribuição e a venda de drogas. Essas estratégias permitiram à facção conquistar novas áreas e ameaçar a hegemonia do Comando Vermelho no próprio estado onde o grupo rival surgiu.
“Como consequência desse avanço, desencadeou-se um conflito violento que atinge civis inocentes nas comunidades, configurando uma intensa batalha pelo controle logístico, pelo monopólio do tráfico de drogas e pela afirmação de força do grupo.”
Na avaliação do advogado, o Terceiro Comando Puro também se beneficiou do enfraquecimento da antiga parceria comercial entre o Comando Vermelho e o Primeiro Comando da Capital (PCC). Durante determinado período, as duas organizações entraram em conflito pelo controle da chamada Rota dos Solimões, na Amazônia. O trajeto era disputado pelo Comando Vermelho, mas também era importante para o transporte de drogas provenientes da Bolívia pelo PCC.


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