Campos/Região – A 'gangorra' de rendimentos proporcionados pelo petróleo aos cofres dos municípios da Bacia de Campos (dos Goytacazes), no interior do estado do Rio, continua pendendo para baixo, influenciada fortemente por taxações estratosféricas ditadas pelo presidente dos Estados Unidos (EUA), Donald Trump, no final de março; em média, de 10% para países da América Latina, 20% para Europa e 30% para Ásia.
O período é de alta volatilidade no preço internacional do petróleo, a principal fonte energética que movimenta a economia mundial. Os valores repassados este mês, referentes a junho, de royalties, pela Agência Nacional de Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) sugerem aos municípios uma espécie de “alerta geral”, independente da expectativa quanto à “volta por cima” circunstancial que a guerra no Oriente Médio deve proporcionar a partir de agosto.
“Na região norte do estado do Rio de Janeiro, uma boa comparação é olhar a arrecadação de royalties no mês de junho de 2025, em relação a junho de 2024”, propõe o economista e diretor de Indicadores Econômicos de Campos, Ranulfo Vidigal para quem os números revelam uma situação que deve inspirar cuidados dos administradores municipais.
“A maior queda é em Quissamã, ou seja, 25 por cento. A segunda maior queda é São João da Barra (24%). Já as cidades de Macaé e Campos tiveram quedas, mas em percentuais menores”, comenta o economista apontando que a redução para Campos atingiu 5% e Macaé 7,5%: “Na direção contrária temos Carapebus com alta de 16% na mesma comparação”.
Confirmando estimativas traçadas por ele no início de junho, focadas em possíveis impactos causados pela guerra entre Irã e Israel, Vidigal realça: “Olhando para o futuro, no curto prazo, o petróleo vai oscilar ao sabor dos ventos das guerras e das negociações comerciais entre os países, mas o grande risco seria uma forte desaceleração econômica mundial, que impactaria os preços da energia de modo bem acentuado. O melhor é acompanhar para ver o que virá a frente”.
VÁRIOS FATORES - Superintendente de Petróleo e Gás Natural do governo de São João da Barra, Wellington Abreu também mantém avaliação feita recentemente: “Com retrações de até 20% nos municípios produtores do Rio de Janeiro, repasses de junho expõem a vulnerabilidade fiscal diante da oscilação do Brent, da política externa americana e da transição energética global”.
Ao ratificar que a queda nos royalties é reflexo do tabuleiro geopolítico do petróleo, Abreu relata que os repasses de royalties deste mês consolidam uma tendência de queda que ele vem acompanhando desde abril, em decorrência de um conjunto de fatores que combinam pressões externas e ajustes operacionais internos.
“A política tarifária dos Estados Unidos sobre o mercado global de energia teve impacto direto sobre o preço do petróleo”, ratifica o superintendente acentuando que, aliado à parada programada da plataforma P-53 e à forte oscilação no Brent, a taxação influenciou negativamente os valores repassados aos cofres dos municípios produtores”.
Para ilustrar, Abreu resume que, em março, o Brent operou acima dos US$ 70; em abril, chegou a mínimos de US$ 59 e oscilou entre US$ 60 e US$ 67; e em junho, apesar de alcançar pontualmente os US$ 80, encontra-se na faixa dos US$ 67: “As médias mensais ficaram em US$ 72,73 (março), US$ 65,42 (abril) e US$ 78,63 (parcial de junho)”.
REPASSES RECENTES - Nesta quinta-feira (26) e no dia anterior foram depositados, respectivamente, repasses dos royalties e da partilha. O total recebido por Campos foi R$ 52.832.698,60 (-11,7% em relação ao mês anterior); São João da Barra, R$ 20.143.040,39 (-22,3%); Macaé, R$ 115.267.416,35 (-10,5%); Quissamã, R$ 14.373.873,63 (-14,7%). Os demais municípios também receberam menos.
Na opinião do especialista, os números explicam com clareza por que diversos municípios fluminenses viram seus repasses despencarem até 20%: “Em São João da Barra, por exemplo, o impacto foi ainda mais expressivo. A queda de produção no Campo de Frade - causada pelo início das conexões com o Campo de Wahoo - foi confirmada em contato direto com o Ceo da Prio, operadora responsável. Isso mostra como decisões técnicas e operacionais nas plataformas têm reflexos imediatos sobre as finanças locais”.
No cenário global, Abreu observa que os últimos dias foram marcados por tensão no Oriente Médio, com a ameaça de bloqueio do Estreito de Ormuz: “Mesmo assim, o mercado não reagiu com a intensidade prevista, mantendo o Brent abaixo da barreira dos US$ 70, e reforçando que a precificação do petróleo é guiada por uma rede complexa de variáveis que vão além do fator geopolítico”.
A orientação do superintendente é que os municípios não tratem o repasse de junho como receita ordinária, mas sim como uma oportunidade de reforço de caixa para o segundo semestre: “Recomendo reservar parte desses recursos para enfrentar possíveis contingências e priorizar investimentos estratégicos em infraestrutura e desenvolvimento econômico. Mais do que nunca, a palavra de ordem é transição energética”.
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