Estrutura construída na BR-101 permite travessia segura de animais silvestres e virou referência nacional em preservação ambientalFoto: Divulgação
ICMBio celebra aprovação de proposta pela Câmara Federal que garante estruturas para travessia de animais silvestres em rodovias, ferrovias e estradas
No Brasil, o único viaduto vegetado construído em rodovia federal fica em frente à Reserva Biológica de Poço das Antas, no estado do Rio de Janeiro
Casimiro de Abreu - A travessia silenciosa de onças-pardas, micos-leões-dourados e preguiças-de-coleira sobre a BR-101 colocou a região de Silva Jardim e Casimiro de Abreu no centro de uma das discussões ambientais mais importantes do país. O avanço do Projeto de Lei 466 no Congresso Nacional reacendeu o debate sobre a necessidade de passagens seguras para animais silvestres em rodovias, ferrovias e estradas brasileiras. Hoje, o único viaduto vegetado construído em uma rodovia federal do Brasil está justamente no interior fluminense, em frente à Reserva Biológica de Poço das Antas.
A proposta, já aprovada pela Câmara dos Deputados e agora em análise no Senado Federal, prevê a obrigatoriedade da implantação de estruturas voltadas à travessia da fauna silvestre em obras viárias de todo o país. O texto cria ainda o Plano Nacional de Segurança Viária para Fauna Silvestre e um cadastro nacional de acidentes envolvendo animais nas estradas.
A discussão ganhou força diante de números alarmantes. Estimativas apontam que mais de 400 milhões de animais morrem atropelados todos os anos nas rodovias brasileiras. Além disso, cerca de 72% das unidades de conservação sofrem impactos diretos ou indiretos causados pelas estradas.
Na região administrada pelo Núcleo de Gestão Integrada do ICMBio Mico-leão-dourado, a experiência já apresenta resultados concretos. O viaduto vegetado construído durante a duplicação da BR-101, executada pela concessionária Arteris Fluminense, foi planejado para reduzir atropelamentos e reconectar áreas fragmentadas da Mata Atlântica.
Além da estrutura principal, foram instaladas 20 passagens subterrâneas para pequenos e médios animais terrestres e dez passagens aéreas do tipo copa-a-copa, utilizadas principalmente por espécies arborícolas, como o mico-leão-dourado, símbolo da fauna fluminense e ameaçado de extinção.
Mesmo com a vegetação ainda em crescimento, o monitoramento ambiental já identificou a utilização das estruturas por diferentes espécies. A expectativa dos especialistas é que, com o amadurecimento da cobertura vegetal, o viaduto funcione como um verdadeiro corredor ecológico sobre a rodovia.
A analista ambiental do ICMBio, Christina Albuquerque, responsável pela coordenação técnica das condicionantes ambientais da duplicação da BR-101, destacou que as medidas mitigadoras foram fundamentais para diminuir os impactos ambientais causados pela obra.
Segundo ela, novas estruturas semelhantes também deverão ser implantadas no trecho da rodovia que corta a Reserva Biológica União, reforçando a proteção da fauna silvestre da região Norte Fluminense.
A chefe do NGI Mico-leão-dourado, Gisela Carvalho, explicou que as passagens de fauna cumprem papel essencial para impedir o isolamento genético das espécies. Ela ressaltou que animais como a onça-parda, o gato-mourisco e o próprio mico-leão-dourado dependem dessa conexão entre fragmentos florestais para sobreviver.
Outro ponto que vem chamando atenção é o envolvimento de grandes empresas no financiamento de pesquisas ambientais. A Transpetro, subsidiária da Petrobras, iniciou estudos para avaliar impactos provocados por dutos instalados dentro da Área de Proteção Ambiental da Bacia do Rio São João e das reservas biológicas da região.
Câmeras instaladas em estruturas experimentais chegaram a registrar grupos de macacos-prego utilizando passagens ecológicas construídas para testes. O resultado reforçou a eficácia das medidas adotadas.
Enquanto o projeto segue para votação no Senado, especialistas apontam que a aprovação definitiva da proposta poderá mudar a forma como o Brasil trata a convivência entre infraestrutura e preservação ambiental. Na prática, a iniciativa transforma obras viárias em ferramentas de proteção à biodiversidade.

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