Formado em Letras pela PUC-Rio, Gregorio tem um texto e uma atuação simplesmente geniais! Aliás, amo essa ideia de a genialidade ser simples porque gosto de pensar que os gênios transformavam a simplicidade em coisas incríveisArte de Kiko com foto de Joana Calejo Pires/ Divulgação

Enquanto Gregorio Duvivier encenava a peça 'O Céu da Língua', na noite do último sábado, no Teatro Casa Grande, no Leblon, eu tinha o desejo de falar com ele. Mas sei que, em algum momento da vida, alguém me ensinou com palavras que não se interrompe um ator em cena. Alguém me disse que é preciso assistir à apresentação sem desconcentrar o protagonista. Deve ter sido na infância, imagino. Assim aprendi e sigo fazendo. Mas a verdade é que eu gostaria de interagir com ele já no início da apresentação, quando ele disse que ninguém nunca pergunta em um avião se tem algum poeta a bordo.
Eu queria ter contado ao Gregorio que, de certa forma, ainda protejo na minha memória as palavras que os meus dois sobrinhos criaram quando pequenos. Eles já não as pronunciam mais. Afinal, um tem 18 anos e o outro tem 15. Seria estranho para o mundo adulto ouvir dois rapazes dizerem 'tchutchu' para se referir ao tio. Talvez o povo crescido também não entendesse que, para os meus eternos meninos, uma pessoa baixinha é neném. Mas eu guardo tudo na memória e no coração.
Hoje em dia, aliás, eu amo tanto conversar que costumo atropelar as pessoas com os meus comentários. Há alguém na família que chega a colocar o dedo para o alto, como se estivesse em uma sala de aula, para sinalizar que é a sua vez de opinar em um bate-papo comigo. Não é à toa que só sei escrever em prosa, apesar de admirar o mundo dos versos. Parece que guardei tanto as palavras nos meus tempos de timidez excessiva que agora quero mostrar a todo mundo que eu as conheço. Inclusive, enquanto via Gregorio no palco, eu me dei conta de que o meu coração desanuviava — e como é bela essa ideia de tirar nuvens pesadas de dentro da gente!
O fato é que, alguns dias antes da peça, o meu coração estava justamente apertado por palavras não ditas. Fiquei por um tempo martelando as que eu havia escutado na terapia e me dando conta de que eu preciso ser quem eu sou: a pessoa que fala — ou escreve — o que sente. Fingir que não vi, não li ou não percebi, definitivamente, não sou eu. Sinto que, ao ver Gregorio falar tanto sobre a nossa língua, sua essência e suas origens, eu fui tirando parte de um peso e constatando que dizer é um santo remédio. Aliás, acredito em medicamentos que tenham algo divino.
A peça, com texto do próprio Gregorio, direção de Luciana Paes, visual e projeções de Theodora Duvivier e música de Pedro Aune, também me provocou a fazer isso: pensar mais nas palavras e expressões que escrevo, como desanuviar o coração e recorrer a um santo remédio. A arte tem essa magia de causar reflexões e seguir com a gente para casa. Com 'O Céu da Língua' foi assim. Eu me identifiquei com a forma bem-humorada com que Gregorio falou sobre o Acordo Ortográfico que baniu tremas, além de acentos em palavras como ideia. Vira e mexe, eu recorro ao dicionário para ter certeza de que a gente 'para em algum lugar' e 'vai para algum lugar', assim mesmo, usando 'para' sem o acento para diferenciar o verbo da preposição.
Eu me identifiquei também quando ele citou a expressão criada pelos baianos "uma hora de relógio" porque acredito que o tempo nem sempre passa de maneira igual para todos nós, apesar de seguirmos uma cronologia única. Quando o meu coração estava carregado de nuvens pesadas, a hora se arrastava. Mas, quando decidi dizer o que queria, os minutos passaram a fluir naturalmente. Inclusive, em determinado momento da peça, os créditos apareceram em uma tela no fundo do palco e, ao meu lado, a minha irmã me perguntou: "Já acabou?".
Felizmente, ainda não era o fim daquela apresentação em que Gregorio citou Fernando Pessoa e Caetano Veloso, mas também me fez conhecer a música 'Sonâmbulo': "Pra namorar comigo tem que entender que eu sou sonâmbulo/ Sabe por quê?/ Do nada, eu apareço na balada". É cantada por Matheus Fernandes em um feat com Léo Santana, mas eu prefiro dizer que é uma parceria mesmo.
Essa foi a segunda vez que vi Gregorio em cena — a primeira foi em 'Sísifu'. E eu me encantei. Formado em Letras pela PUC-Rio, Gregorio tem um texto e uma atuação simplesmente geniais! Aliás, amo essa ideia de a genialidade ser simples porque gosto de pensar que os gênios transformavam a simplicidade em coisas incríveis. Por isso mesmo, acredito que os poetas, mesmo sem o poder de nos salvar em uma emergência dentro de um avião, ainda conseguem curar males que brotam no coração.