Vencedor do Urso de Prata no Festival de Berlim, o longa causou em mim diferentes sensações desde o seu início: tristeza, admiração, reflexão e a celebração da vida aos 77 anos, idade da protagonistaArte de Kiko com fotos de divulgação

Quando terminei de assistir ao filme 'O Último Azul', em uma cabine virtual para imprensa, na terça-feira à noite, em casa, ainda estava impactada pelo que havia visto na tela. A história de Tereza é contada de maneira intensa pela atriz Denise Weinberg. Uma atuação pulsante e cheia de vida que sincroniza lindamente com a Amazônia, cenário do filme retratado na bela fotografia assinada por Guillermo Garza. Vencedor do Urso de Prata no Festival de Berlim, o longa causou em mim diferentes sensações desde o seu início: tristeza, admiração, reflexão e a celebração da vida aos 77 anos, idade da protagonista. Adianto que este texto pode conter spoilers de algumas cenas, mas não acredito que isso possa traduzir totalmente a potência da obra, que entrou em cartaz hoje. É preciso vê-la para senti-la de fato.
Situada na Amazônia, a trama explora um Brasil em que o governo transfere idosos para uma colônia habitacional para passar os seus últimos anos de vida. A ida é obrigatória, o que torna impossível a convivência entre gerações. Ao revelar um futuro distópico, o diretor Gabriel Mascaro descreve uma sociedade imaginária com condições de vida opressivas, cumprindo o seu papel de incomodar e promover reflexões com uma crítica da realidade em que vivemos. No mundo atual, os idosos podem não ser obrigados a ir fisicamente para um lugar distante, mas muitas vezes são separados dos mais novos, inclusive emocionalmente. Por diversas vezes, o adjetivo ultrapassado é usado para se referir a quem existe há mais tempo nesse mundo, quando, na verdade, deveríamos respeitar os mais velhos justamente por terem chegado antes e conhecerem muito mais do que nós. Saber é riqueza.
No filme, antes de seu exílio compulsório, Tereza embarca em uma jornada para realizar seu último desejo: voar. Na busca por esse sonho, faz uma travessia ao longo dos rios da Amazônia, primeiro com o barqueiro Cadu, personagem de Rodrigo Santoro, e depois com Ludemir, interpretado pelo indígena Adanilo Reis, até encontrar Roberta, vivida por Miriam Socarrás. Todos eles revelam sua vulnerabilidade na convivência com Tereza, que mostra corpo e mente pulsantes e desobedece o destino traçado para ela.
Várias cenas me marcaram, entre elas o momento em que Tereza vê um passarinho em uma gaiola e, logo depois, aparece no temido cata-velho, um veículo em que os idosos são transportados em uma gaiola na parte de trás. Enxerguei ali uma metáfora, mesmo exacerbada, para os momentos em que os mais velhos são aprisionados ao ouvirem que não podem mais escolher, opinar, trabalhar e ter voz. É também simbólica a pergunta que uma amiga faz a Tereza quando ela revela o sonho de voar: "Por que você não fez isso antes?". Realmente, somos educados para aposentar nossos desejos durante o envelhecimento. É também impactante a forma como a população teme acolher alguém de cabelos grisalhos, que deveria estar na colônia, afastado de todos. Inclusive, Tereza precisa da permissão da filha, que tem a sua guarda, para comprar uma passagem, por exemplo.
Não é à toa que a protagonista queira tanto voar. Tereza procurava ir aos céus no sentido mais literal da palavra, a bordo de um avião. Mas ouso dizer que encontrou suas asas de outra forma. Vale a pena, inclusive, acompanhar os créditos subindo na tela ao som de 'Rosa dos Ventos', canção de Chico Buarque na voz potente de Maria Bethânia. "A rosa-dos-ventos danou-se", canta Bethânia, para retratar quem muda a direção imposta rumo ao destino desejado. E continua: "Numa enchente amazônica/ Numa explosão atlântica/ E a multidão vendo em pânico/ E a multidão vendo atônita/ Ainda que tarde/ O seu despertar".