As pessoas com mais de 50 anos consomem e tem muito a contribuir com o mercado de trabalhoTomaz Silva/Agência Brasil

Imagine um mercado consumidor com 59 milhões de pessoas — mais que a população da Espanha ou da Argentina — movimentando R$ 1,6 trilhão na economia. Esse mercado existe e está no Brasil: são as pessoas com 50 anos de idade ou mais; um público que não para de crescer, mas que, por vezes, não é compreendido pelo mercado.
Em 2010, a faixa 50+ representava cerca de 16% da população. No Censo de 2022 do IBGE, eles já eram 22%. E continuam aumentando. Com o aumento da expectativa de vida, cada vez mais brasileiros ingressam nesta faixa da pirâmide etária. Embora o IBGE publique projeções centradas em 60+, especialistas avaliam que a faixa 50+ poderá chegar a 45% da população até 2070, superando em muito o número de crianças e jovens.
Ainda assim, esse público ainda é subestimado pelo mercado. Num artigo publicado recentemente pela Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Estado de São Paulo (Fecomércio SP), a head de Inovação e Insights Adriana de Queiroz, da consultoria Data 8, indaga se setores como moradia e saúde, entre muitos outros, estão olhando para este público como deveriam.
Adriana cita uma pesquisa de mercado realizada em Cannes, na França, na qual 70% dos entrevistados que atuam com criatividade em agências de publicidade e propaganda afirmaram que nunca receberam um briefing sequer para fazer uma campanha para os 50+. O resultado: falta de produtos sob medida e de experiências pensadas para quem tem tempo, dinheiro e disposição para consumir.
Enquanto isso, mitos vão sendo derrubados com rapidez. Na tecnologia, as estatísticas indicam que o público com mais de 50 anos se digitalizou. Mais de 70% deles acessam a internet diariamente, enquanto mais de 40% fazem compras online. Com os filhos já independentes e a saúde em dia, os 50+ também viajam — e muito provavelmente ajudaram o setor de turismo do Brasil e bater o recorde de R$ 90,4 bilhões movimentados na economia nos cinco primeiros meses de 2025.
Estamos diante de um fato, e também de um desafio: preparar-nos para mudanças no mercado de trabalho, mudando paradigmas. Para aproveitar plenamente o potencial dos profissionais mais experientes, as empresas precisam adotar medidas práticas de inclusão etária. Isso começa por rever critérios de seleção que, muitas vezes, impõem barreiras veladas com base na idade. Valorizar competências reais, experiências acumuladas e retirar exigências desnecessárias ajuda a construir processos seletivos mais justos. Além disso, políticas internas que estimulem a diversidade geracional, assim como já ocorre com iniciativas voltadas à equidade de gênero e raça, contribuem para ambientes corporativos mais equilibrados, inovadores e representativos da sociedade.
Outra medida fundamental é investir em capacitação contínua. A ideia de que profissionais maduros têm dificuldades com tecnologia não se sustenta diante dos dados atuais. Oferecer treinamentos e oportunidades de atualização, especialmente no campo digital, é uma forma de reconhecer o valor desses trabalhadores e mantê-los preparados para os desafios do mercado. Também é positivo promover trocas entre gerações por meio de mentorias reversas, onde os mais jovens compartilham conhecimentos digitais e os mais velhos transmitem visão estratégica e experiência.
Pessoas acima dos 50 anos seguem ativas e dispostas a contribuir, consumir, a curtir a vida. Valorizar o público 50+ é, portanto, mais do que uma prática inclusiva: é uma escolha estratégica para empresas que desejam crescer em sintonia com as transformações demográficas do Brasil.