Ao invés da estabilidade no trabalho, os jovens estão optando pela liberdade que não cabe no emprego formalWilson Dias/Agência Brasil

O mercado de trabalho brasileiro vive um paradoxo curioso: nunca houve tanta gente empregada e, ao mesmo tempo, tantos setores reclamando que falta gente para trabalhar. A indústria, em especial, tenta entender por que deixou de ser o destino óbvio das gerações anteriores. O mais fácil seria culpar a “falta de interesse dos jovens”, mas a realidade é mais complexa — e mais humana.
Um estudo do Instituto Locomotiva, realizado no estado de São Paulo, mostra que a carteira assinada perdeu o brilho. A antiga promessa de estabilidade se desgastou diante de jornadas rígidas, escalas imprevisíveis e salários que, muitas vezes, não compensam o esforço. A juventude cresceu vendo influenciadores ensinando a ganhar dinheiro rápido, vendendo autonomia como se fosse um estilo de vida. E, convenhamos, é difícil competir com a imagem sedutora de alguém que escolhe seus horários, trabalha de onde quiser e aparenta ganhar mais do que muito técnico qualificado.
Mas esse encanto não conta a história inteira. No trabalho autônomo, existe a liberdade; mas existe também o lado invisível: a insegurança, o risco constante e a ausência total de proteção social. Só que, no imaginário da nova geração, esse risco parece menor do que voltar para a vida apertada de fábrica, ônibus lotado, supervisor rígido e pouco espaço para crescimento. O problema não é a indústria em si, mas a falta de conexão entre o que ela oferece hoje e o que os trabalhadores realmente precisam.
Os depoimentos revelam esse abismo. Tiago, ex-aluno do Senai, já trabalhou com carteira assinada, mas virou entregador de aplicativo. Diz que, apesar da falta de benefícios, sente-se mais no controle da própria vida — e não é pouca coisa. Já Tainá, mãe solo, recusou um emprego formal porque o salário não cobria nem os custos de cuidado com a filha. Como cobrar dela que escolha a “estabilidade” quando essa estabilidade, na prática, não se sustenta?
Ainda assim, os dados mostram algo importante: muitos autônomos estão satisfeitos, mas muitos também estão exaustos, frustrados, presos a uma rotina que não oferece futuro. É aí que a indústria tem uma oportunidade: não basta abrir vagas e esperar que alguém apareça — é preciso reconstruir o diálogo. Salário justo, ambiente respeitoso, flexibilidade possível, caminhos reais de crescimento. Tudo isso conta muito.
Mais do que uma disputa por mão de obra, o que vemos é um desencontro de expectativas. O mundo mudou, o imaginário mudou, e a relação das pessoas com o tempo — seu bem mais precioso — também mudou. Se a indústria quiser voltar a ocupar um lugar de desejo, terá que entender que o trabalhador de hoje não procura apenas um emprego. Procura sentido, equilíbrio, reconhecimento. E, no fundo, procura a chance de viver uma vida que caiba melhor no próprio cotidiano.
A indústria tem força, tradição e potencial. Mas só voltará a ser caminho de futuro se conseguir olhar menos para dentro de suas máquinas e mais para dentro das histórias das pessoas. Porque, no final das contas, é isso que move o mundo do trabalho: gente que quer trabalhar — mas quer viver também.