O Porto do Açu é um símbolo de como gestão pública e iniciativa privada podem colaborar pelo desenvolvimento do estadoDivulgação

Há momentos na história de um estado em que a verdadeira liderança se revela não nas grandes cerimônias, mas nas decisões silenciosas que moldam o futuro. Pensar o estado como um conjunto integrado — onde capital e interior caminham juntos — é compreender que desenvolvimento se faz com planejamento e visão de longo prazo.
Durante muito tempo, governadores do estado do Rio de Janeiro trabalharam como se fossem um “segundo prefeito” da capital fluminense. No final dos anos 1990, esta lógica começou a mudar. Sob a gestão do então governador Anthony Garotinho, o estado voltou seus olhos para os municípios além da ponte. Passou a considerar, por exemplo, a criação de um porto de grande porte para dar suporte às atividades offshore e de logística. Encomendou, então, um estudo de batimetria, que apontou o Açu, no litoral de São João da Barra, como o melhor local para sua construção.
Nas reuniões ocorridas no Palácio Guanabara, dois personagens importantes se destacaram na construção do projeto que viria a se tornar o Porto do Açu: o então secretário de Estado de Minas e Energia, Wagner Victer, e o engenheiro Eliezer Batista, que se notabilizou na presidência da Vale do Rio Doce. Apresentados os estudos de batimetria, Eliezer revelou que seu filho, Eike Batista, tinha recursos disponíveis para a construção de uma estrutura portuária ao longo da orla Sudeste brasileira. Eike sonhava alto: queria abrir várias empresas e montar um conglomerado diversificado, com atuação em vários setores estratégicos, como logística portuária, produção de petróleo, energia, mineração e indústria naval.
Em 28 de junho de 1999, foi publicado o Decreto 25.455, declarando de utilidade pública imóveis na localidade do Açu, autorizando as desapropriações necessárias e iniciando os estudos técnicos de viabilidade do porto. Estes estudos indicavam uma forte possibilidade de exportação de vários produtos – notadamente o petróleo – e, com a chegada de uma ferrovia ao litoral sanjoanense, a abertura de uma porta às exportações de grãos.
O lançamento oficial do Porto do Açu aconteceu no final de 2006, já na gestão da governadora Rosinha Garotinho. Em outubro de 2007, começaram as obras. O plano original previa que o porto entraria em operação no primeiro semestre de 2012. Porém, a entrada em operação de fato só ocorreu em outubro de 2014, com a instalação dos primeiros terminais — incluindo um terminal de minério de ferro, que recebe matéria-prima vinda de Conceição de Mato Dentro (MG) através do maior mineroduto do mundo.
Nem todos os projetos de Eike Batista deram certo. A aposta na prospecção de petróleo, por exemplo, mostrou-se equivocada. A principal empresa do grupo, a OGX, revelou que não conseguiria cumprir seus planos de produção. As ações da empresa despencaram, provocando uma onda de desconfiança no mercado que, em questão de meses, levou o império do empresário a um rombo financeiro gigantesco.
O Porto do Açu, no entanto, já era um caminho sem volta. Sob novo controle acionário, o complexo prosseguiu. Em 25 de outubro de 2014, 80 toneladas de minério de ferro foram embarcadas para a China, marcando o início da operação do porto. Em pouco tempo, o Açu se tornou um pilar estratégico para o estado do Rio de Janeiro, sendo responsável atualmente por 30% das exportações de petróleo do Brasil, o terceiro maior terminal privado de minério do país e abrigando a maior base de apoio offshore do mundo. Trinta empresas atuam ali, gerando cerca de 7 mil empregos diretos. E, com o leilão da ferrovia EF-118 previsto para este ano, brevemente o porto estará ligado à malha ferroviária nacional, podendo receber a produção agropecuária do Centro-Oeste para exportação.
Tomar decisões que contemplem a totalidade do território é um ato de responsabilidade e de inteligência política. Investimentos descentralizados fortalecem redes de ensino, ciência, tecnologia, saúde, infraestrutura e serviços públicos. Isso, por sua vez, impulsiona a economia regional e reduz desigualdades históricas. E quando as desigualdades diminuem, os benefícios se espalham: menos sobrecarga nos grandes centros, mais dinamismo econômico no interior, mais estabilidade social em todo o estado.
A boa política é aquela que entende que não existe estado forte com regiões fragilizadas. Por isso, planejar com visão de conjunto não é apenas uma escolha administrativa; é um compromisso com o futuro. É reconhecer que capital e interior formam um único organismo — onde cada parte importa, contribui e precisa ser vista. E o Porto do Açu está aí para provar. O desenvolvimento verdadeiro só acontece quando cada região tem a chance de florescer. E governar, no sentido mais nobre da palavra, é justamente isso: permitir que todas as partes cresçam juntas — porque um estado íntegro é, antes de tudo, um estado inteiro.