São muitas as mulheres que têm jornada dupla e precisam de apoio para empreenderDivulgação/Agência Sebrae de Notícias
O empreendedorismo feminino e o desafio da jornada dupla
Entre o cuidado com a família e a luta para manter o próprio negócio, mulheres empreendedoras enfrentam desafios que vão muito além das planilhas.
Às oito da manhã, ela já está trabalhando. Antes disso, preparou o café, acordou os filhos, organizou a casa e talvez tenha deixado o almoço encaminhado. Só então abre a porta do pequeno negócio. Ao chegar no trabalho, não há uma equipe esperando por ela. Não existe gerente, departamento financeiro, funcionário de marketing ou alguém para atender o telefone enquanto ela resolve outra coisa. Se o cliente liga, ela atende. Se falta matéria-prima, ela compra. Se a máquina quebra, ela dá um jeito. Se a venda não acontece, é o dinheiro da casa que sente.
Ela é a empresa. E essa história, embora pareça individual, é vivida por milhões de mulheres brasileiras. Sete em cada dez mulheres que empreendem no país administram seus negócios completamente só. São os negócios do “eu sozinho”.
A expressão pode parecer engraçada, mas a realidade nem sempre é. Durante muito tempo, falar em empreendedorismo feminino significou celebrar palavras como independência, protagonismo e empoderamento. Mas ainda existe uma distância enorme entre o discurso e a realidade de quem empreende. Para muitas mulheres, o empreendedorismo não começou com um plano de negócios sofisticado; começou com uma conta vencendo e a necessidade de sustentar os filhos.
Administrar um negócio, por si só, já é uma tarefa enorme. Para muitas mulheres, existe a segunda jornada, que vai além de cuidar da família. Quando uma criança adoece, o negócio pode parar. Quando a mãe precisa de uma consulta médica, é possível que as vendas diminuam. Quando surge uma emergência doméstica, não existe um departamento de recursos humanos para assumir o problema.
E as dificuldades não terminam dentro de casa. Do lado de fora, existe o sistema financeiro, com suas exigências, formulários, garantias e juros. E quando entram na equação fatores como renda, endereço ou desigualdade racial, os obstáculos podem ficar ainda maiores. É como se o mercado exigisse eficiência de uma grande empresa de quem trabalha com orçamento de sobrevivência.
Algumas cidades começam a perceber que, para mudar essa história, é preciso abrir portas. Em Campos, nasceu o Fundecam Empreendedor, que oferece financiamento de até R$ 15 mil para essas empreendedoras, com carência para pagar e juros de apenas 2% ao ano. É a lógica defendida e praticada pelo Nobel de Economia Muhammad Yunus, que, nos anos 1970, criou o conceito de microcrédito em Bangladesh, oferecendo pequenas quantias sem as garantias tradicionais dos bancos, principalmente para mulheres que queriam iniciar seus próprios negócios. A ideia era simples: às vezes, o que separa uma pessoa da pobreza não é a falta de capacidade, mas a falta de acesso.
Décadas depois, essa lição continua atual. Porque, quando a encomenda do pequeno negócio sai pela porta ou quando a primeira venda do dia acontece, existe um brilho discreto nos olhos daquela empreendedora. Ele tem nome: dignidade. É a sensação de que, apesar de todos os desafios da jornada dupla de trabalho, existe um caminho que ela mesma está construindo. É uma mulher que batalha. Que carrega o mundo inteiro nos braços. E que merece todo o nosso reconhecimento.

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