Enchente em Petrópolis em 2022: pequenos negócios precisam de proteção contra extremos climáticosFernando Frazão/Agência Brasil
Quando o clima bate à porta do pequeno negócio
Eventos extremos já afetam empresas e empregos. Resiliência climática entra na agenda eleitoral e se torna essencial para a sobrevivência dos pequenos negócios
Durante muito tempo, falar de mudanças climáticas parecia assunto para especialistas, cientistas e conferências internacionais. Era algo distante, quase abstrato, que habitava relatórios, gráficos e discursos sobre o futuro do planeta.
Até que a água começou a entrar pela porta. As chuvas que devastaram as cidades da Região Serrana do estado do Rio de Janeiro nas últimas décadas deixaram marcas profundas. Negócios fecharam as portas, estoques foram perdidos, equipamentos destruídos e meses — às vezes anos — de trabalho desapareceram em poucos dias. Sem falar nas vidas ceifadas de uma hora para outra.
Há uma contradição preocupante. Enquanto os eventos extremos se tornam mais frequentes e intensos, 72% das micro e pequenas empresas brasileiras ainda não possuem qualquer processo formal para avaliar riscos climáticos. É como dirigir por uma estrada sabendo que existe uma curva perigosa, mas sem olhar a sinalização.
Felizmente, o tema começa a ocupar o lugar que merece. Um ótimo exemplo é o Guia de Candidaturas do Sebrae, que apresenta propostas para os candidatos à Presidência da República e aos governos estaduais. A ideia é criar uma verdadeira rede de proteção e transição ecológica para os pequenos negócios. Na prática, isso significa ajudar o empreendedor a se preparar antes que a próxima enchente aconteça — e não apenas oferecer ajuda depois que ela passar.
Um plano nacional de resiliência climática, crédito verde, incentivo à energia solar, economia circular, seguro climático e acesso simplificado a informações meteorológicas são algumas das propostas apresentadas. Nos estados, entram em cena diagnósticos de risco, planos de continuidade dos negócios, infraestrutura de drenagem e contenção, reflorestamento e estímulos à eficiência energética.
É política ambiental, mas também é política econômica. Uma pequena empresa que instala energia solar pode reduzir custos. Quem diminui desperdícios melhora sua margem. Quem reaproveita materiais pode criar novos produtos. Quem conhece os riscos do território consegue se preparar melhor para uma emergência. E quem tem acesso a crédito e seguro adequados tem mais chances de sobreviver quando a natureza decide cobrar a conta.
Por isso, os micro e pequenos negócios precisam estar atentos ao debate eleitoral. Não basta escolher quem fala mais sobre crescimento. É preciso observar como cada candidato pretende preparar a economia para um clima cada vez mais imprevisível.
Porque a mudança climática não espera o calendário eleitoral. Ela já chegou. Para o pequeno empreendedor, resiliência climática não é uma palavra bonita de relatório — é a diferença entre conseguir reabrir as portas amanhã ou colocar um ponto final em uma história construída durante anos. O futuro dos pequenos negócios, portanto, também será decidido pelo clima. E pelas escolhas que fizermos nas urnas.

Os comentários não representam a opinião do jornal e são de responsabilidade do autor.