Os hospitais de Campos atende pacientes do município e de outros municípios da regiãoCésar Ferreira
Mais pacientes, menos recursos: o desafio dos municípios polo do SUS
Municípios polo atendem uma população muito maior que a própria, mas recebem recursos do SUS que não acompanham o custo real dos serviços.
Imagine um morador de um município vizinho a Campos que sofre um acidente grave. Ele é transferido para o Hospital Ferreira Machado (HFM), em Campos. Ali, pouco importa de onde ele veio. É um paciente em situação de urgência que corre risco de morte. Negar atendimento nunca foi a opção da Prefeitura de Campos, que administra a unidade hospitalar. O HFM é referência regional em urgência e emergência para as regiões Norte e Noroeste Fluminense. Em 2025, registrou mais de 1,6 milhão de atendimento, de pacientes de aproximadamente 30 municípios.
Essa história de sucesso em saúde pública esconde um problema grave. Campos tem cerca de 520 mil habitantes, mas sua rede pública de saúde atende uma população de cerca de 1 milhão de habitantes de cidades vizinhas. Por lei, deveria receber um cofinanciamento compatível do Sistema Único de Saúde (SUS). Mas não é o que acontece: os recursos do Ministério de Saúde chegam apenas para a população de Campos. Os demais atendimentos são financiados com recursos municipais. E essa conta não fecha.
Apesar da dificuldade financeira, Campos tem feito sua parte. Nos últimos cinco anos, a Prefeitura investiu na reforma e ampliação dos dois hospitais municipais — o Hospital Ferreira Machado e o Hospital Geral de Guarus (HGG). No HGG, por exemplo, chegava a chover dentro do centro cirúrgico, por falhas na estrutura do prédio. A reforma e a ampliação ajudaram a transformar essa realidade, recuperando espaços e melhorando as condições de atendimento. No Ferreira Machado, os investimentos também buscaram ampliar e modernizar a estrutura de um hospital, que ganhou nova emergência, nova UTI pediátrica e novos equipamentos.
Mas obra não encerra a conta. Pelo contrário: depois da inauguração vêm as despesas permanentes. Um hospital ampliado precisa de mais profissionais, mais medicamentos, mais insumos, mais equipamentos, mais manutenção, mais limpeza, mais alimentação e mais recursos para funcionar 24 horas por dia.
Campos é um caso isolado entre tantos, que expõe uma necessidade urgente: a atualização da Tabela SUS e dos mecanismos de financiamento dos municípios que funcionam como polos regionais de saúde. O financiamento da saúde pública não pode continuar olhando apenas para a população residente no município. É preciso considerar também a população que efetivamente utiliza aquela rede.
Não se trata de defender que Campos deixe de atender quem vem de fora. Muito pelo contrário. Uma rede pública regional forte é fundamental. O paciente que chega de outra cidade não pode ser tratado como um problema, pois se trata de uma vida. O que não parece razoável é pedir que um município assuma a responsabilidade financeira por uma rede regional sem receber, na mesma proporção, os recursos necessários para mantê-la.
O Brasil precisa enfrentar esse problema sem procurar culpados fáceis. União, estados e municípios têm responsabilidades no SUS. É preciso mudar a lógica de financiamento, para que o dinheiro acompanhe de maneira mais justa a produção dos serviços e a população efetivamente atendida. É urgente atualizar valores, rever procedimentos, fortalecer os repasses de média e alta complexidade e criar mecanismos de compensação mais adequados para municípios que assumem a condição de polos regionais.
Campos investiu para recuperar e ampliar sua rede. Reformou hospitais, modernizou estruturas e enfrentou problemas graves, com esforço e coragem. Agora é preciso que o financiamento acompanhe esse esforço. Enquanto a Tabela SUS não acompanhar a realidade dos hospitais e dos municípios polo, haverá Hospitais Ferreiras Machados espalhados pelo Brasil tentando fazer mais com menos — e uma conta cada vez maior sendo empurrada para o futuro.

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