A pergunta não é mais se o planeta sofrerá com o aquecimento, mas quanto poderemos recuperarFernando Frazão/Agência Brasil
O desafio da sobrevivência na era do aquecimento global
Novo relatório do Pnuma alerta que ultrapassar 1,5°C tornou-se inevitável e exige adaptações urgentes no campo e nas cidades.
Durante décadas, o teto de 1,5°C funcionou como uma promessa e um escudo para a economia global. Quando o assunto era a elevação da temperatura do planeta, essa era a nossa linha vermelha. Hoje o debate mudou de tom. A pergunta incômoda já não é mais se vamos cruzar essa barreira — nós vamos. A verdadeira questão agora é: quanto a temperatura vai subir, por quanto tempo ficaremos no teto do aquecimento e o quanto desse estrago conseguiremos recuperar?
É essa reflexão contundente que traz o relatório Limiting Overshoot, publicado pelo Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma) no dia 2 de setembro. O documento expõe uma verdade indigesta: ultrapassar temporariamente o limite de temperatura tornou-se inevitável. Até no cenário mais otimista, o planeta atingirá um pico de 1,8°C antes de ensaiar qualquer queda. Nas projeções mais prováveis, ultrapassamos facilmente os 2°C. O El Niño, que bate à porta, que o diga.
Cada fração de grau a mais não é um mero detalhe estatístico; é mais pressão sobre o cotidiano, sobre as cadeias de suprimentos e sobre a capacidade das cidades de continuarem funcionais. Faltando apenas quatro anos para cruzarmos oficialmente a marca de 1,5°C, o objetivo global mudou de figura: a corrida agora é para encurtar ao máximo a duração e o valor desse pico. Para isso, é urgente acelerar o corte sustentado de emissões — incluindo o metano —, abandonar os combustíveis fósseis, zerar o desmatamento e apostar na eletrificação da economia, que deve ser o grande tema da COP31, na Turquia.
No Brasil, os reflexos já batem à porta em forma de calor extremo, sobrecarga nos sistemas de saúde e avanço de doenças como a dengue. Vivenciaremos a alternância perversa entre secas severas e temporais devastadores, pondo em risco safras, a produção nacional de alimentos e acendendo o alerta para queimadas incontroláveis.
Diante disso, a infraestrutura tradicional precisa dar espaço ao planejamento resiliente. Nas cidades, ganham urgência as Soluções Baseadas na Natureza (SBN): parques lineares, jardins de chuva, corredores verdes e bacias de retenção para absorver as águas. No campo, a saída passa pela integração entre lavoura, pecuária e floresta, cisternas, irrigação por gotejamento e sementes mais resistentes à seca.
Ao olharmos para esse futuro próximo, percebemos que a crise climática deixou de ser um alerta para o amanhã e virou a arquitetura do nosso presente. A linha vermelha ficou para trás, mas o destino final ainda não está selado. Resta saber se teremos a sabedoria de reconstruir o caminho enquanto o chão sob nossos pés continua a esquentar.

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