O lixo dos aterros sanitários gera biometano, uma fonte de energia importanteAgência Brasil
Quanta energia você joga no lixo?
Do lixo à energia: a captura do biogás dos aterros sanitários pode reduzir emissões, gerar eletricidade e transformar um problema ambiental em oportunidade.
A pergunta que dá título a este artigo parece estranha. Afinal, quando colocamos o saco de lixo na calçada, nossa preocupação costuma ser uma só: que alguém o leve para longe. Depois disso, pouco nos importa o destino daqueles restos de comida, folhas e resíduos orgânicos que, de alguma maneira, deixaram de ter utilidade para nós.
Mas, e se uma parte do lixo que jogamos fora pudesse voltar para nós em forma de energia?
É aí que os aterros sanitários entram nessa história. Quando resíduos orgânicos são neles depositados, começam a se decompor na ausência de oxigênio. Nesse processo, produzem o chamado biogás, formado principalmente por metano e dióxido de carbono. Quando o metano é capturado e tratado adequadamente, pode gerar eletricidade e calor, ser transformado em biometano para abastecer veículos, substituir o gás natural utilizado por indústrias e, dependendo das condições técnicas e regulatórias, até ser injetado nas redes de distribuição.
Ou seja: aquilo que enxergamos simplesmente como lixo pode esconder uma pequena usina de energia.
Igualmente importante refletir: o metano é um gás de efeito estufa muito mais potente que o dióxido de carbono. Quando ele é produzido pela decomposição dos resíduos e escapa diretamente para a atmosfera, há um problema ambiental. Quando é capturado e aproveitado, ataca-se dois problemas de uma vez: reduzimos a emissão de metano e produzimos energia que pode substituir combustíveis fósseis. É uma espécie de economia circular acontecendo debaixo de toneladas de resíduos.
Segundo a Agência Internacional de Energia (IEA), o gás de aterro está entre as fontes de biogás com menor custo de produção. Isso acontece porque a própria decomposição anaeróbia já ocorre naturalmente nesses espaços de destinação do lixo. O desafio é capturar o gás, tratá-lo e dar a ele uma finalidade. O aterro já tem a matéria-prima, mas é preciso instalar a estrutura capaz de transformar essa matéria-prima em energia.
O Brasil, aliás, está entre os países com maior potencial para produção sustentável de biogás e biometano no mundo, ao lado de China e Índia. Para os municípios, isso pode significar novas oportunidades econômicas, estímulo a investimentos e aproveitamento de uma fonte energética que, de outra forma, simplesmente escaparia para a atmosfera. Naturalmente, o sucesso dessa operação depende da qualidade do processo, da composição dos resíduos, da eficiência do sistema de coleta, do controle de vazamentos, do tratamento do biogás e da forma como essa energia será utilizada.
É hora, portanto, de prestar um pouco mais de atenção àquilo que jogamos fora. Porque o lixo que desaparece da nossa frente não desaparece do planeta. E, em meio a restos de comida, podas e outros resíduos orgânicos biodegradáveis, existe um gás que, se liberado, acelera as mudanças climáticas, mas que, se capturado, vira fonte de energia limpa e renovável. Depende do que fazemos com ele.
No fim das contas, a pergunta continua valendo — e talvez devesse ser feita toda vez que colocamos um saco de lixo para fora: quanta energia você joga no lixo?

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