Há mais variáveis na conta de luz do que supõe nossa vã filosofiaMarcelo Casal Jr/Agência Brasil
Por que produzimos tanta energia e a conta de luz é tão cara?
Enquanto o Brasil brilha em matrizes renováveis, 70% da fatura esconde impostos, gargalos de transmissão e subsídios que encarecem a tarifa.
A conta de luz está assustando? Não é impressão sua; a energia elétrica pesa bastante no bolso do brasileiro. Um levantamento feito pelo Instituto Centro de Liderança Pública (CLP) mostra que o preço médio da tarifa de energia no Brasil chega a 0,357 dólar por quilowatt-hora. Entre 138 países analisados, estamos na 66ª posição.
Por trás desse valor, esconde-se um paradoxo. O Brasil orgulha-se de ter uma das matrizes mais limpas e renováveis do planeta, com forte presença de hidrelétricas e participação crescente de energia eólica e solar. Contudo, apenas 30,4% do valor que você paga na conta de luz referem-se à energia consumida em sua casa. Os restantes 69,6% repartem-se entre distribuição (26,1%), transmissão (10,1%), tributos (18,1%) e encargos setoriais (5,2%). É como comprar uma fruta diretamente do produtor e descobrir, na hora de pagar, que boa parte da conta não está na fruta, mas em tudo aquilo que aconteceu entre a plantação e a feira.
Também pesa no bolso a Conta de Desenvolvimento Energético (CDE), um fundo do setor elétrico brasileiro usado para financiar políticas públicas e subsídios relacionados à energia elétrica. Em 2026, ela chegou a R$ 52,7 bilhões. Parte desse dinheiro financia políticas e subsídios importantes para o funcionamento do setor.
Há também benefícios considerados ultrapassados ou de difícil justificativa. Sem falar nas novas obrigações criadas pela legislação que acabam sendo incorporadas à conta de luz. Na desestatização da Eletrobras, por exemplo, foi determinada a contratação compulsória de termelétricas a gás natural. A regulamentação das eólicas offshore trouxe custos adicionais. Outra legislação, relacionada a descontos para irrigação, estabeleceu a contratação obrigatória de 2.500 megawatts de termelétricas a gás e 4.900 megawatts de hidrelétricas reversíveis.
Há outro problema para o qual chamamos a atenção num artigo recente: sobra energia renovável, mas nem sempre é possível levá-la até onde ela é necessária. Este ano, gargalos na transmissão provocaram cortes compulsórios de 22,47 milhões de megawatts-hora de geração. Em outras palavras, uma parcela significativa da energia que poderia ser produzida não chega a ser aproveitada plenamente. É como ter uma caixa-d'água cheia e um encanamento incapaz de entregar toda a água às casas.
Se quisermos falar num futuro melhor, é hora de modernizar. O sistema elétrico precisa ficar mais inteligente. O preço da energia precisa refletir melhor quanto custa produzir, transportar e distribuir eletricidade em cada lugar e em cada momento. Se o Brasil construiu uma enorme vantagem competitiva ao apostar em uma matriz elétrica relativamente limpa e diversificada, agora precisa garantir que essa vantagem chegue ao consumidor. Porque, no fim das contas, a conta de luz não chega dividida em “energia”, “transmissão”, “distribuição”, “encargos”, “tributos” e “ineficiências”. Ela chega inteira. E quem abre o papelzinho dobrado entregue pela concessionária ou olha a fatura no celular vê apenas um número. É esse número que precisa baixar.

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