As mulheres enfrentam uma jornada dupla de trabalho, em ritmo mais exaustivo que os homensFoto gerada por IA

Depois de muita negociação, o Senado Federal aprovou o fim da escala de trabalho 6 x 1, assegurando aos trabalhadores uma jornada máxima de 40 horas semanais e dois dias de descanso. Mas existe uma categoria profissional que precisa entrar nessa conversa com certa urgência: as mulheres. Para muitas delas, a escala não é 6 x 1. É 7 x 0.
São sete dias de trabalho por semana com zero folga. A jornada delas começa cedo, com a clássica pergunta: “O que vamos comer hoje?”. Continua com café, roupa, louça, limpeza, criança, escola, trabalho, compras, dever de casa dos filhos e aquela misteriosa meia que desaparece dentro da máquina de lavar. Uma via crucis que termina geralmente quando todo mundo dorme. Ufa! Amanhã começa tudo outra vez...
Desigualdade nas relações domésticas? O IBGE dá uma pista: em 2022, 91,3% das mulheres realizavam afazeres domésticos, contra 79,2% dos homens. Outra conta que merece atenção: em 2022, as mulheres dedicavam em média 21,3 horas semanais aos afazeres domésticos, contra 11,7 horas dos homens, segundo levantamento do Dieese com base na PNAD Contínua. São quase dez horas de diferença por semana.
Há, ainda, uma realidade que precisa ser lembrada: muitas mulheres não estão apenas administrando uma casa — elas são o núcleo da família. O Censo 2022 mostrou que as mulheres já representavam quase metade das pessoas responsáveis pelos domicílios. E, entre as famílias monoparentais — aquelas em que há apenas um adulto vivendo com os filhos — a esmagadora maioria é chefiada por mulheres (92%).
Ela é quem decide. Ela é quem paga. Ela é quem cuida. Ela é quem corre. Ela é quem trabalha fora para sustentar a família. E, quando chega em casa, começa o segundo expediente. E depois dele, frequentemente, o trabalho emocional de administrar a vida de todo mundo.
Discutir a escala 6 x 1 é fundamental. Mas seria um erro imaginar que basta diminuir a jornada no emprego para resolver o problema. Porque existe uma jornada invisível funcionando dentro das casas. Uma jornada que não aparece na carteira de trabalho, não entra no contracheque e não gera hora extra.
Talvez seja hora de uma nova reforma trabalhista. Não no Congresso, mas no ambiente doméstico, sobre a divisão das responsabilidades. Afinal, casa não é hotel. Mulher não é funcionária. E marido, companheiro, pai ou filho não é hóspede. Igualdade dentro de casa não deveria ser uma reivindicação extraordinária — deveria ser apenas parte da rotina da vida em família.