O plantio de eucalipto e outras árvores comerciais está ganhando espaço em CamposDivulgação/Tree+
Madeira comercial abre novas oportunidades no Norte Fluminense
O avanço do eucalipto em Campos sinaliza a formação de uma nova cadeia produtiva, com potencial para gerar renda, empregos e valor agregado na região.
O avanço da silvicultura em Campos sinaliza a formação de uma nova cadeia produtiva, com potencial para gerar renda, empregos e valor agregado, ao mesmo tempo em que abre espaço para novos modelos de produção associados à recuperação ambiental e ao uso mais sustentável das propriedades rurais.
O plantio de espécies para fins comerciais, a exemplo do eucalipto estão ganhando espaço no Norte Fluminense. A atividade ainda está longe de ter a dimensão de culturas tradicionais, como cana-de-açúcar e pecuária. Mas há sinais de uma cadeia florestal em formação. A árvore deixou de ser vista apenas como elemento de reflorestamento e passou a ser encarada também como ativo econômico.
Com milhares de hectares de terras degradadas ou sem uso produtivo, Campos deu um importante passo com a promulgação da Lei Municipal nº 9.333/2023, que revogou a antiga Lei Municipal nº 7.282/2002. A nova legislação permitiu o plantio industrial de eucalipto em áreas específicas do município e flexibilizou regras anteriores que restringiam ou proibiam a monocultura em grande escala.
Na prática, a mudança abriu caminho para que terras antes consideradas improdutivas ou subutilizadas pudessem ser arrendadas ou incorporadas a novos modelos de produção. As novas diretrizes passaram a incentivar uma utilização mais estratégica do solo, combinando áreas de produção florestal com pecuária, recuperação ambiental e práticas de conservação. A medida acompanha uma tendência mais ampla de atualização das regras relacionadas à silvicultura e a criação de distritos florestais no Estado do Rio de Janeiro.
É nesse ambiente que começam a surgir novos movimentos no campo. Um dos mais recentes é a atuação da Tree+ Agroflorestal, que, com apoio da Prefeitura de Campos, vem implantando áreas de produção no norte do município. Na Fazenda Boa Esperança, por exemplo, são 530 hectares, dos quais 230 já estavam em produção em 2025. A propriedade reúne diferentes estágios de plantio de eucalipto, áreas de proteção ambiental e uma área experimental voltada ao manejo sustentável.
A proposta, no entanto, vai além do plantio de árvores para fins comerciais. O modelo busca trabalhar a propriedade rural de forma integrada, conciliando aumento de produtividade, produção florestal, recuperação da vegetação nativa e conservação dos recursos naturais. A empresa atua na recuperação de áreas ambientalmente degradadas ou com déficit de vegetação nativa e aplica técnicas de conservação do solo, buscando recuperar funções ambientais e melhorar as condições produtivas da propriedade.
Para os proprietários rurais que estabelecem parceria com a empresa, esse modelo pode representar uma mudança importante. Áreas que precisam ser recuperadas para atendimento à legislação ambiental — uma obrigação que, em determinadas situações, caberia ao próprio proprietário — podem ser incorporadas aos projetos de restauração, com pagamento por serviços ambientais associado às áreas recuperadas, conforme as condições do projeto. Ao mesmo tempo, as áreas produtivas podem receber técnicas de conservação do solo e sistemas de produção mais eficientes.
Nesse contexto, a expansão da atividade não precisa seguir necessariamente o modelo de monocultura. Uma das alternativas é a Integração Lavoura-Pecuária-Floresta (ILPF), que permite combinar produção florestal, agricultura e pecuária na mesma propriedade. Esta técnica revolucionou o agro brasileiro tornando-o um dos mais produtivos do mundo. Além da produção de madeira, as árvores podem proporcionar sombra e maior conforto térmico aos animais, enquanto o manejo adequado do solo e das pastagens contribui para aumentar a produtividade de áreas que hoje, em muitos casos, apresentam pastagens degradadas ou de baixa capacidade produtiva.
As práticas de conservação do solo, a recuperação da vegetação nativa e a adoção de sistemas produtivos integrados também trazem benefícios que ultrapassam os limites da propriedade. A melhoria da cobertura vegetal e das condições do solo favorece a infiltração e retenção de água e contribui para o equilíbrio hídrico da paisagem. Ao mesmo tempo, a recuperação florestal e os sistemas produtivos mais sustentáveis ampliam a capacidade de captura e armazenamento de carbono e tornam as propriedades mais resilientes diante das mudanças climáticas e de eventos extremos, como períodos mais intensos de seca e calor.
O cenário atual, portanto, parece mais promissor do que os números históricos da atividade poderiam sugerir. A presença de empresas especializadas, a formação de mão de obra e os novos plantios indicam uma tentativa de profissionalizar a produção florestal no município. Um exemplo dessa mudança está na formação de técnicos em florestas. Campos passou a sediar o Curso Técnico em Florestas pelo Serviço Nacional de Aprendizagem Rural (Senar), com atividades práticas realizadas em propriedades produtoras. Em 2025, a Prefeitura de Campos também promoveu cursos de reflorestamento e manejo de eucalipto, além de capacitações para operações de colheita florestal e uso de equipamentos agrícolas.
Essa qualificação é fundamental, porque uma floresta comercial não começa na colheita. Começa muito antes — na escolha da área, na análise do solo, na seleção das mudas, na definição do espaçamento, na adubação, no controle de pragas, no manejo e no planejamento da produção. E o ciclo tampouco termina com a colheita das árvores. O eucalipto pode abastecer diferentes mercados, como os de papel, lenha, carvão vegetal, mourões, escoras, pallets, caixarias, madeira serrada, móveis e outros produtos. Por isso, uma das grandes oportunidades do Norte Fluminense pode estar justamente em não se limitar à venda da árvore em pé ou da madeira bruta.
Quanto mais etapas forem realizadas dentro da própria região, maior tende a ser o valor agregado e, consequentemente, maior o potencial de geração de empregos. O desafio, portanto, é transformar o plantio em cadeia produtiva. Isso significa pensar na atividade para além da propriedade rural. Uma cadeia florestal estruturada envolve produtores, empresas especializadas, trabalhadores, transporte, beneficiamento, comercialização e consumidores. Quanto maior a participação regional nessas etapas, maior pode ser o impacto econômico da silvicultura.
Nesse novo modelo, o ganho não precisa ser apenas econômico. A oportunidade está em construir uma paisagem rural mais produtiva e, ao mesmo tempo, ambientalmente mais equilibrada, na qual áreas destinadas à produção convivam com vegetação nativa recuperada, solos mais protegidos, maior disponibilidade hídrica e sistemas agropecuários mais eficientes. Para o produtor, isso significa buscar renda não apenas com a madeira, mas também com a valorização e melhoria da capacidade produtiva e ambiental da propriedade.
Hoje, a fotografia mostra uma atividade ainda em construção no Norte Fluminense, mas com potencial de crescimento. O município reúne terra disponível, tradição agropecuária, instituições de pesquisa, mão de obra rural e uma localização estratégica para atender diferentes mercados. O eucalipto, que durante muito tempo apareceu apenas como uma alternativa para algumas propriedades, começa a ganhar outra dimensão.
Está nascendo em Campos uma nova floresta — não apenas de árvores e oportunidades econômicas, mas de uma nova forma de conciliar produção, recuperação ambiental e desenvolvimento rural.

Os comentários não representam a opinião do jornal e são de responsabilidade do autor.