Em 'Poema', Marcos Pitombo reflete sobre o tempo e critica pressão das redesFoto: Redes sociais/ Reprodução

Nenhum poema é capaz de salvar o mundo. Nem mesmo a arte, em toda a sua grandeza, consegue fazê-lo, mas pode, ao menos, provocar mudanças individuais. É com essa premissa que nasce o espetáculo "Poemas", texto de Gabriel Chalita, que estreia temporada em São Paulo, entre os dias 24 de abril e 7 de junho de 2026.

Protagonizada por Marcos Pitombo e André Torquato, com direção de Duda Maia, a montagem parte do encontro entre dois personagens que compartilham memórias e reflexões sobre o envelhecer. A partir dessa troca, surge a proposta de criar um poema capaz de suavizar as dores do mundo.

Com uma carreira consolidada na televisão, Pitombo ganhou destaque em novelas como Haja Coração, Orgulho e Paixão e Salve-se Quem Puder, além de ter iniciado sua trajetória em Malhação. Agora, ele mergulha em um projeto mais intimista no teatro.
Em conversa com a coluna de Daniel Nascimento, o ator detalhou o processo de criação do espetáculo e refletiu sobre os temas que atravessam a montagem.
Segundo o artista, a iniciativa de trabalhar com Chalita partiu dele. "Eu sempre fui um admirador dos textos do Chalita… fui ao encontro dele para pedir um texto para o teatro", disse. O impacto da leitura foi imediato: "Desde o primeiro momento que eu li esse texto… eu fiquei muito envolvido por todo esse questionamento filosófico dos personagens e toda essa poesia".

O processo acabou se transformando em uma construção coletiva. "A gente começou um processo de criação coletiva… buscando outros elementos que dialogassem com a encenação", afirmou, ao destacar a parceria com a diretora. "Foi um período muito interessante… muito intenso entre nós".

Na peça, a busca por um 'poema que falta' ganha sentido simbólico. "É uma metáfora sobre tudo aquilo que a gente faz nas nossas vidas… que pode se tornar significativo e ter a beleza de uma poesia", disse. A ideia, segundo ele, passa por ressignificar o cotidiano. "Transformar o cotidiano em algo belo, poético", resumiu.

Em meio a um cenário de crises, Pitombo relativiza a ambição de "salvar o mundo". "[...] se não consegue salvar o mundo inteiro pelo menos a gente consegue salvar o nosso mundo”, afirmou. Para ele, o caminho está no básico: "valorizar o simples, valorizar as relações próximas".

O espetáculo também dialoga com a sensação de urgência dos tempos atuais. "Essa sensação que a gente tem hoje, de que está tudo muito acelerado, que a gente está sempre atrasado…", disse. O ator aprofunda a reflexão ao abordar os impactos desse ritmo no cotidiano: "então isso acaba dando uma certa angústia nos tempos de hoje, né, e isso acaba dando uma reflexão sobre até como a gente controla o nosso tempo, né, ficar muito preso ao passado, não deixando que a gente vive o presente, né, estando presente e vivendo com presença, né, com escuta, com olhar presente, né, dando valor àquilo que a gente tem hoje, né, ou viver o agora, e claro, né, não deixando as angústias de um futuro que é sempre incerto e que causa muita angústia, deixar com que a gente viva um passo de cada vez".

Ele também chama atenção para a solidão contemporânea. "Mesmo em situações em que existem pessoas ao nosso redor […] a gente se sente sozinho", afirmou, ao destacar que a peça aborda esses vazios e a forma como eles atravessam a existência.

Nesse contexto, o teatro aparece como um espaço de pausa. "Você convidar as pessoas para um tempo que é só delas […] isso é maravilhoso", disse. Para Pitombo, a experiência ao vivo ainda tem força justamente por exigir presença e imaginação.

O ator também faz uma crítica direta ao ambiente digital. "A gente vive um momento em que as pessoas são muito frustradas, em que as redes sociais são muito tóxicas", afirmou. Ele atribui parte desse cenário à forma como influenciadores expõem padrões irreais. "[...] com tantos ídolos que ficam usando as suas imagens para ostentar a riquezas que a grande maioria dos seus seguidores não corresponde […] ficam usando a sua relevância e a sua influência para escancarar mundos que a maioria das pessoas não vai ter", disse. "Isso cria uma frustração absurda nas pessoas", completou.

Apesar disso, ele aposta na arte como caminho de reflexão. "[...] por isso que eu acredito cada vez mais no poder do teatro, no poder de reflexão, nesse repensar que a gente faz com que o público tenha para se despertar para esse mundo que está acontecendo hoje", disse. Para o ator, a experiência teatral ainda cumpre um papel essencial ao provocar esse tipo de consciência em meio ao cenário atual.

Ao final, resume o que espera provocar na plateia. "Valorizar as relações, o afeto, o respeito entre as pessoas", afirmou. "Acho que valorizar as relações entre as pessoas é fundamental", concluiu.