Entre a esperança de salvar uma vida e a impotência diante da perda, permanece a luta diária de quem tenta oferecer uma nova chance aos animais abandonadosfotos de Arquivo pessoal
Na sexta-feira (2/10), o golden retriever Rudá, que atua como “CÃOdenador” do Cãonexão Saúde RJ e cão de suporte emocional de Danielle Cristo, reuniu os AUmigos Paçoca, Marley, Luck, Florzinha e Luna em uma ação solidária de doação de sangue para cães, realizada na Tijuca, Zona Norte do Rio. A iniciativa voluntária contou com a participação da médica-veterinária Sarynna Sally Pimenta, do banco de sangue Vital Plasma, e destacou a importância de ampliar a rede de animais doadores.
Para Danielle, a mobilização representa uma oportunidade de transformar o vínculo com Rudá em uma corrente de solidariedade.
“Fico toda boba quando alguém diz que o Rudá é especial e, sim, eu concordo. Ele abriu lindas portas no meu caminho. E fazer essa ação de solidariedade ao lado dele e de tantos parceiros é um presente. Em torno do Rudá, nos unimos por amor e fazemos o bem, ajudando outros cães que precisam”, destacou.
Uma história de solidariedade e direitos
A trajetória de Danielle Cristo também está relacionada à criação da Lei Estadual nº 9.317/2021, conhecida como Lei Prince, inspirada na relação dela com Prince, seu cão já falecido. A legislação assegurou, no estado do Rio de Janeiro, o direito de pessoas com transtornos mentais ou deficiência intelectual ingressarem e permanecerem em ambientes públicos e privados de uso coletivo acompanhadas de cães de suporte emocional, conforme as condições previstas na norma.
A iniciativa de Rudá e seus AUmigos mostra que o vínculo entre humanos e animais pode ir além da companhia e do acolhimento, mobilizando pessoas em ações que contribuem para o bem-estar e a sobrevivência de outros animais.
Compatibilidade e exames são fundamentais
Para que uma transfusão seja segura, não basta encontrar um animal disposto a doar sangue. É necessário avaliar a saúde do doador, investigar doenças transmissíveis e verificar a compatibilidade sanguínea entre os animais.
Cães e gatos possuem diferentes tipos sanguíneos, e uma transfusão incompatível pode provocar reações graves. Por isso, exames como hemograma, tipagem sanguínea e testes de compatibilidade são fundamentais para orientar o procedimento.
Também é necessário investigar doenças infecciosas. Em cães, merecem atenção a babesiose, a erliquiose e a leishmaniose. Nos gatos, os exames podem incluir a investigação de FIV, FeLV e infecções por hemoplasmas. Como alguns animais podem estar infectados sem apresentar sintomas, a avaliação laboratorial é indispensável.
“Não basta encontrar um doador. É fundamental garantir que o sangue seja seguro e compatível com o animal que vai recebê-lo”, destaca Otávio Valério, médico-veterinário do Time de Pesquisa & Desenvolvimento.
Segundo o especialista, os exames laboratoriais contribuem para decisões clínicas mais seguras, auxiliando na identificação de doenças infecciosas, na avaliação hematológica e na verificação da compatibilidade sanguínea.
A Bioclin Vet disponibiliza soluções voltadas ao diagnóstico veterinário, incluindo equipamentos para realização de hemogramas, testes rápidos para tipagem sanguínea felina e investigação de doenças infecciosas, além de tecnologias de biologia molecular que podem complementar a avaliação clínica. Esses recursos auxiliam os profissionais na tomada de decisões, sempre em conjunto com os demais exames e procedimentos necessários.
A coleta deve ser realizada em serviços especializados, sob acompanhamento veterinário. A falta de doadores cadastrados e as dificuldades de acesso aos serviços podem comprometer o atendimento de animais que precisam de transfusão em situações de emergência.
Entre a esperança e a perda: a luta das protetoras para salvar vidas
Se, por um lado, iniciativas como a de Rudá ajudam a conscientizar sobre a importância da doação, por outro, a realidade das protetoras revela os obstáculos enfrentados para conseguir sangue e custear tratamentos veterinários.
O projeto Anjos de Quatro Patas mantém um abrigo em Niterói dedicado ao acolhimento de gatos abandonados. Embora o espaço não comporte cães, as protetoras procuram alternativas para recebê-los quando surge uma situação de resgate.
Foi o que aconteceu com Foca, encontrado nas ruas com leishmaniose. Durante quatro anos, ele recebeu tratamento e precisou passar por diversas transfusões de sangue. Segundo Patrícia Marins, protetora do projeto, a luta para mantê-lo vivo foi marcada por esperança, dedicação e dificuldades financeiras.
“Essa doença por si só já é muito triste, porque a gente sabe que não tem cura e uma hora ele vai partir. A gente se apegou ao Foca, fizemos o possível, tratamos, pedimos ajuda na internet. A bolsa de sangue não é barata. Cada vez que ele precisava de uma era um desespero. Mas chegou um momento da doença que, mesmo a gente conseguindo sangue, não adiantou nada, ele partiu. Mas já vi casos também de protetoras precisarem da bolsa e não conseguirem arrecadar o dinheiro. É muito triste”, relata Patrícia.
A história de Foca representa uma realidade enfrentada por muitas pessoas que dedicam a vida à proteção animal. Além da dor de acompanhar o sofrimento de um animal resgatado, elas precisam lidar com os altos custos dos tratamentos e com a dificuldade de arrecadar recursos para procedimentos que podem ser decisivos para a sobrevivência dos pacientes.
Nem sempre, porém, todo o esforço é suficiente. Em alguns casos, mesmo quando o sangue é conseguido, a doença já está em estágio avançado. Em outros, a falta de dinheiro impede que a transfusão seja realizada.
Entre a esperança de salvar uma vida e a impotência diante da perda, permanece a luta diária de quem tenta oferecer uma nova chance aos animais abandonados.
Conscientização pode fazer a diferença
Ampliar o número de cães e gatos aptos à doação é um passo importante para aumentar a disponibilidade de sangue na Medicina Veterinária. Para isso, é fundamental conscientizar os tutores sobre a possibilidade de seus animais se tornarem doadores, desde que atendam aos critérios estabelecidos pelos profissionais.
A doação responsável, acompanhada de exames e realizada em serviços especializados, pode ajudar a salvar animais em situações graves. Ao mesmo tempo, o apoio às iniciativas de proteção animal e a divulgação de campanhas solidárias podem contribuir para que mais pacientes tenham acesso ao tratamento de que precisam.
Em meio às dificuldades, histórias como a de Rudá e a luta das protetoras do Anjos de Quatro Patas mostram que a solidariedade pode representar uma nova chance de vida.



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