Deputada federal Heloísa Helena (Rede Sustentabilidade) Leo Cabral/Rede

Heloísa Helena está na política há 33 anos. Permaneceu quase duas décadas no PT, sendo eleita vice-prefeita de Maceió, deputada estadual e senadora de Alagoas. Foi expulsa, em 2003, ao votar contra a Reforma da Previdência. Com outros dissidentes, fundou o PSOL, do qual foi a primeira presidente. Em 2006, ficou em terceiro lugar na eleição, sendo a terceira mulher mais votada para a Presidência da República. Foi uma das fundadoras da Rede Sustentabilidade, em 2013. Atualmente, é suplente do deputado Glauber Braga (PSOL-RJ).
SIDNEY: A senhora exercerá o mandato durante os seis meses de suspensão do deputado Glauber Braga. Quais as prioridades e os desafios para o período?
HELOÍSA HELENA: Primeiro, quero registrar o meu repúdio ao que aconteceu com o deputado Glauber, pois respostas institucionais baseadas na moral das conveniências, que condenam no adversário o que acobertam nos seus, é sempre desprezível e muito utilizada à direita e à esquerda. Espero trabalhar muito para garantir eficácia e resolutividade nas políticas sociais, seja por meio de alterações na legislação, fiscalização ou monitoramento. E, claro, continuarei firme no combate ao banditismo político.
O que o carioca pode esperar da sua atuação representando o estado do Rio na Câmara?
Sou uma velha sertaneja durona no Rio de Janeiro — cidade que viu meu pai voltar ao Nordeste com o coração partido, corpo quebrado, sonhos destruídos e com meu irmão mais velho, nascido no Rio, enrolado em trapos. Portanto, tenho obrigação de lutar muito pelo que chamo de "Rio Profundo" - o Rio da vida real, muito distante da beleza da mãe natureza nos cartões postais. O carioca pode esperar de mim dedicação e trabalho incansável para o aprimoramento das políticas públicas que impactam diretamente a vida cotidiana da maioria da população.
Quais os planos da senhora para as eleições de 2026?
Estamos discutindo com o coletivo que faço parte na Rede. Mas a maior probabilidade é que eu seja candidata a deputada federal.
A senhora está representando o estado do Rio, onde política e crime, muitas vezes, se misturam. O que a senhora tem a dizer sobre esta situação? Tem saída?
Sinceramente, não é apenas no Rio. No estado, a situação é dolorosamente mais alarmante, mas, em muitos outros estados, a promiscuidade entre várias modalidades de crimes com a política também existe. Não tenho fórmula mágica, mas considero que a garantia da dignidade humana, especialmente em territórios dominados, é o precioso mecanismo para disputar o coração de crianças e jovens que se tornam mão de obra escrava do crime. O Brasil é rico e o Rio também é - apenas a concentração de renda é perversa. Portanto, é fato, demonstrado nas frias estatísticas oficiais, que apenas migalhas jogadas aos pobres não combatem a violência - pelo contrário, as alimentam.
Qual é a sua análise sobre a atuação da direita no país?
Sempre me pergunto quais as condições no cotidiano brasileiro que possibilitaram germinar, com tanta força, um misto de mediocridade intelectual, frieza e ódio. Não adianta dizer que ventos de longe a trouxeram para aqui, pois há um crescimento mundial da direita. Mas por que não nos perguntamos como estava o solo brasileiro que possibilitou que estas coisas germinassem? Dor, sofrimento e miséria humana já possibilitaram germinar sementes malditas e, aqui, não seria diferente. Combater, sim, mas especialmente não possibilitar, pela covarde omissão e cumplicidade com o modelo econômico, que eles avancem mais.
A cláusula de barreira determina que, em 2026, os partidos precisarão eleger 13 deputados federais em pelo menos nove unidades da Federação ou, no mínimo, 2,5% dos votos válidos para a Câmara dos Deputados com um mínimo de 1,5% dos votos válidos em cada um deles. Caso contrário, perdem o fundo partidário e tempo de propaganda no rádio e na TV. A medida pode prejudicar o seu partido?
Se não estivermos em uma Federação, voltaremos à clandestinidade eleitoral, por mais lutadores que sejamos politicamente. Portanto, é fundamental estarmos ou na mesma Federação de hoje, com o PSOL, ou em outra que a maioria da Rede democraticamente decida. Isoladamente, considero que hoje é impossível superarmos sozinhos a cláusula de barreira.
Apesar de serem maioria no eleitorado, as mulheres ainda têm pouca representatividade na política. Na sua opinião, por que isso acontece?
Esta situação reflete a maldita análise machista do papel da mulher na vida em sociedade. Além de ser infinitamente mais difícil para a mulher, que já vivencia a dupla jornada, aumentar mais ainda sua carga de trabalho. Se existissem equipamentos públicos para minimizar o imenso trabalho feminino em casa, exaustivo, repetitivo, não remunerado e não reconhecido socialmente como trabalho, certamente as mulheres participariam mais. Devemos refletir sobre como criamos nossas meninas e nossos meninos para garantir que, desde cedo, possamos compreender que devemos estar nas instâncias de decisão política e espaços de poder. O problema é muito maior e não podemos desistir de insistir que metade da população, que pariu e cuidou da outra metade, não fique distante das decisões políticas.