Barracão da Grande Riofoto reprodução

Embora ainda haja muito a avançar, não resta a menor dúvida de que a Responsabilidade Socioambiental está cada vez mais inserida nos desfiles das Escolas de Samba. Infelizmente, o mesmo não ocorre em relação à segurança e aos bastidores, que ainda deixam muito a desejar.
Não me lembro, nas últimas três décadas, de não terem ocorrido incêndios ou outro tipo de acidentes envolvendo barracões, ateliês, depósitos ou no transporte dos carros alegóricos até seus respectivos pontos de armação, parte anterior à concentração, fase em que já estão prestes a entrarem na avenida
Deusas na Passarela. Ratos e Urubus nos Bastidores 
Historicamente, a indústria dos desfiles, sempre foi baseada em improvisos, gambiarras, gatos, puxadinhos e espaços inadequados. A realidade de boa parte remonta ao conto de fadas já usado até em seu enredos. Muitas escolas ainda precisam se virar "nos trinta'.
Numa espécie de alquimia, Gatas Borralheiras saem de casulos inadequados para se transformarem em Cinderelas, ao adentrarem no setor 1 do Sambódromo. E o pior, a maioria faz essa transformação sem a figura de uma Fada Madrinha. 
O curioso é que as estatísticas de acidentes não caíram proporcionalmente com inauguração da Cidade do Samba, erguida sob as promessas de maior segurança e reunir o que há de mais moderno e funcional, através de uma concepção criada especialmente para atender às necessidades e características da indústria do Carnaval.
Grande Rio: a mais recente
Até o momento, o último episódio foi no barracão da Acadêmicos do Grande Rio, nesta quarta-feira. A rica escola oriunda da carente Baixada Fluminense é chamada entre as mais tradicionais como sucursal do Projac. Trata-se de uma referência aos Estúdios da Rede Globo, tamanha a quantidade de astros e estrelas da dramaturgia da emissora, reproduzindo uma espécie de "Calçada da Fama" durante sua passagem pelo Sambódromo carioca.
Felizmente as chamas foram controladas sem que ninguém tenha se ferido. Isso graças ao privilégio da presença permanente da Brigada de Incêndio somada aos plantonistas do Corpo de Bombeiros alocados nesse espaço restrito às escolas de elite.

Apesar dos danos exclusivamente materiais e de ter atingido uma das agremiações com maior poder financeiro, os prejuízos se irradiam para outras instituições, com paralisações, evacuações e interdições da Cidade do Samba, que mesmo sendo provisórias, não deixa de afetar o processo produtivo às vésperas do Carnaval. Isso sem contar o efeito psicológico sobre as centenas de trabalhadores que atuam diretamente nesse espaço conjunto.

Azar de Estreante

O ditado “sorte de principiante” funcionou às avessas para a chegada ao Grupo de Elite, da Acadêmicos de Niterói, que sofreu recentemente a uma pane elétrica no barracão. Os sinistros não fazem distinção de tamanho, status, história ou recursos financeiros. A diferença se faz nas condições de reconstrução.
Na semana passada, foi vítima novamente nesta temporada a Unidos do Jacarezinho. Por não estar entre a elite, não tem direito aos modernos barracões da Cidade do Samba, disponibilizados pela prefeitura. Sendo assim, seus estoques estavam improvisados na própria quadra. Atingidas três salas.
Foram danificadas 12 alas e diversos adereços. São equipamentos que dificilmente serão repostos à altura, devido ao calendário apertado até o Carnaval e ao seu menor poder aquisitivo.
Sem uma brigada de incêndio à disposição, a própria comunidade tentava conter as chamas com baldes de água, até a chegada da guarnição do Corpo de Bombeiros mais próxima.

A escola do Jacaré já havia amargado perdas e prejuízos anteriores. No final do ano passado, o fogo também atingiu um espaço dividido com outras coirmãs da Série Ouro, eufemismo criado para denominar as agremiações de acesso, que disputam a difícil e concorrida elevação para o Grupo Especial, que congrega a elite do carnaval carioca.

Tiveram perdas também, Acadêmicos de Vigário GeralInocentes de Belford RoxoUnidos do Porto da Pedra e novamente o Jacarezinho, que enfrenta sucessivas agruras justamente no seu retorno à passarela da Marquês de Sapucaí, depois de 12 anos ausente.

Princípio de Desigualdade
Ou seja, além do luxo e da importância cultural, os desfiles do Rio de Janeiro são tradicionalmente marcados por acidentes facilitados pela falta de estrutura. E, como se, na prática, a isonomia não faça parte do cotidiano do carnaval carioca. O socorro varia de acordo com o prestígio, a influência, a história e o poder econômico. A complacência da flexibilidade do regulamento diante de imprevistos não se mostra universal.
Mesmo quando enfrentaram historicamente situações semelhantes, nem todas contaram com a mesma complacência, como desfilarem provisoriamente em regime “hors concours” ou poupadas do fantasma da queda de grupo, ou mesmo não terem computadas as notas nos quesitos evidentemente prejudicados pelo acidente ou na impossibilidade de tempo hábil para reposição dessas perdas. 
* Luiz André Ferreira é professor universitário, jornalista, apresentador e podcaster
Mestre em Projetos Socioambientais, em Bens Culturais e Designer Educacional