Shakira in Riodivulgação

Depois de quase um ano promovendo suspense, não foi à toa o anúncio de Shakira ter ocorrido às vésperas do Carnaval.  Além dos dividendos políticos em ano eleitoral, tem a aposta na maior repercussão. Os holofotes da mídia estão naturalmente voltados para a cidade que realiza o maior evento momesco do planeta.
E ainda aproveitar que o Rio já estava antecipadamente lotado para tentar seduzir os visitantes foliões para que retornem em maio ou que promovam a divulgação boca a boca quando retornarem aos seus destinos. Como efeito imediato, bastou o anúncio oficial da diva pop para que explodissem as buscas nas plataformas de venda de passagens para o Rio de Janeiro. Na Buser, por exemplo, o aumento chegou a 225%.
Cacife Eleitoral
Com as eleições em Outubro próximo também para governadores e presidente, é uma oportunidade para Paes surfar em torno dos efeitos positivos desse evento. Embora diretamente não possa concorrer duas vezes a reeleição, aumenta o cacife político de Eduardo Paes para fortalecimento de seu próprio futuro após 2028. Além disso reforça suas influencias imediatas no pleito deste ano em fechamentos de acordos, de apoios, coligações e fortalecimento de candidatos de sua base. 
Também serve para estreitar ainda mais sua antiga aliança com o candidato à reeleição, Lula da Silva, recepcionado pelo prefeito anfitrião na Marquês de Sapucaí com o desfile da Acadêmicos de Niterói que escolheu o petista como enredo.
Embora o calendário de espetáculos internacionais em Copacabana só tenha sido criado em 2004, já mostra-se como consolidado e de grande visibilidade. Nem mesmo os opositores mais radicais ousam condenar esse evento.
Tem apoio da maioria da população, comprovados impactos sociais e econômicos fora os dividendos que deixa nos cofres da Prefeitura e nos bolsos de muitos moradores que aproveitam financeiramente essa oportunidade.  
Não coincidentemente foram confirmadas as duas próximas edições de Todos no Rio para 2027 e 2028 períodos que a administração carioca ainda deve estar nas mãos de Eduardo Paes
Impactos Sociais e Econômicos
Estrategicamente esses shows foram programados para maio, que figurava entre os meses mais fracos no volume de visitantes. Depois desse projeto implantado, a cidade fica lotada. A Praia de Copacabana serve como vitrine durante a transmissão da apresentação para o Brasil e o exterior.

Há ainda a mídia espontânea mundial gerada já semanas antes com os bastidores. Em alguns países, a chamada “publicidade gratuita” já supera o Carnaval e o Réveillon, os maiores eventos da cidade.

Essa visibilidade impacta na decisão das pessoas na escolha para suas próximas viagens. Ela também impulsiona a escolha da Cidade Maravilhosa para eventos corporativos nacionais e internacionais, como congressos, encontros e fóruns.
Soma-se a isso a valorização da imagem do Rio como cenário para comerciais e locações de filmes e séries.
Economia Circular
Essa engrenagem fomenta a chamada economia circular. Há os setores de impacto direto, como companhias aéreas, hotelaria, restaurantes, agências e concessionários de pontos turísticos. Pegam carona nessa exposição midiática os tradicionais Corcovado, Pão de Açúcar, Jardim Botânico, Arcos da Lapa, Pequena África, Maracanã entre outros. E não representa apenas o aumento na venda de ingressos, mas também impacta a cadeia de serviços oferecidos em torno desses cartões postais.

Há ainda o reflexo social, gerando renda com aluguéis de vagas e serviços de motoristas de aplicativo, entregadores de comida e até catadores de materiais recicláveis, como latinhas. Já percebido pelas cooperativas que além do grande volume de material recolhido no espetáculo, aumenta também a quantidade nos dias próximos devido ao movimento de pessoas.

A exploração do Suspense

A estratégia, incluindo o anúncio pegando carona no Carnaval, faz parte de uma programação com roteiro e calendário cuidadosamente elaborados. É óbvio que o acordo com a diva pop não foi coincidentemente fechado agora. As negociações envolvendo contratos e espaços nas agendas de artistas internacionais desse porte começam, em média, um ano antes.

Assim que se encerrou a apresentação de Lady Gaga no ano passado, já se fomentava a curiosidade sobre a atração seguinte. E as pistas já demonstravam, desde então, a intenção em torno de Shakira.

Chamado no segmento de publicidade e marketing de aquecimento de mercado, o suspense sobre quem viria a subir no palco em Copacabana ganhou mais força uma semana antes da oficialização. O próprio prefeito publicou nas redes sociais vídeos de Justin Bieber, U2, Paul McCartney e, naturalmente, Shakira, acompanhados da legenda: “Sonhei com esses quatro essa noite. Não estou querendo dizer nada”.

Para despistar, desde o ano passado outros nomes eram ventilados e não desmentidos, como Britney Spears, Adele, Beyoncé, Rihanna e Coldplay.
Quase que simultaneamente ao anuncio, a diva pop já postavas um vídeo dizendo estar ansiosa e que este seria o show mais sonhado de sua vida.
É incerto se o público de Shakira vai superar os recordes das antecessoras Lady Gaga (2,1 milhões de pessoas) e Madonna (1,6 milhão). Mas certamente, entre os três espetáculos, será o que renderá mais dividendos políticos a Eduardo Paes.
* Luiz André Ferreira é professor universitário, jornalista, apresentador e podcaster
Mestre em Projetos Socioambientais, em Bens Culturais e Designer Educacional