Racismo Ambiental agravam efeitos das chuvasFoto: Defesa Civil de São João do Meriti
Na Baixada Fluminense, destacam-se negativamente regiões como Tinguá, Valverde e Duque de Caxias. Já na Zona Norte carioca, bairros como Acari, Fazenda Botafogo, Higienópolis e Manguinhos enfrentam alagamentos recorrentes.
Os impactos naturais recaem de forma desproporcional sobre esses territórios, não coincidentemente majoritariamente negros, que convivem há décadas com a ausência de investimentos em drenagem, saneamento, contenção de encostas e infraestrutura básica. O que ocorre nessas áreas não pode ser tratado como problema pontual ou natural, tornando-se parte de uma rotina de violações de direitos.
Dimensão da Negligência
Levantamentos do Projeto Retrato das Enchentes evidenciam a gravidade do cenário. Em Acari, 91,2% dos entrevistados afirmaram que as ruas alagam com frequência. Na Vila Kennedy, o índice é de 84,9%.
A situação é agravada por falhas na comunicação: 40% dos moradores, na média geral da pesquisa, relatam não receber qualquer orientação de segurança. Alertas por sirene ou SMS frequentemente não chegam ou são incompreensíveis, deixando essas populações desassistidas em momentos críticos.
Em Acari, 84,1% das famílias perderam bens essenciais, como: sofás (64,9%), camas (62%) e geladeiras (50%) , e 71,7% das residências sofreram danos estruturais. Na Vila Kennedy, 58,5% das casas registraram comprometimento físico, enquanto 60,6% das famílias perderam eletrodomésticos.
Diante da omissão do poder público, moradores investem em soluções improvisadas, como pequenos muros de contenção e elevação de móveis, tentando reduzir prejuízos futuros.
Isolamento e Deslocamentos Forçados
O isolamento geográfico e a interrupção de serviços essenciais comprometem o funcionamento coletivo desses territórios. Na Vila Kennedy, 74,5% da população fica sem acesso a transporte e serviços básicos durante as cheias. Em Acari, a paralisação atinge 56,2% do transporte público e 50,4% dos serviços de saúde.
A situação é agravada pela perda de documentos importantes em quase metade dos lares pesquisados, aprofundando a exclusão civil e dificultando o acesso a atendimento e auxílios pós-enchente.
Enfrentar a emergência climática exige combater diretamente o racismo ambiental. A justiça climática no estado só será possível com o reconhecimento das dívidas históricas que estruturam não apenas as favelas, mas todos os territórios sistematicamente privados de investimento público.
A resposta à crise demanda que o Estado abandone intervenções genéricas e implemente políticas de mitigação e adaptação que respeitem as especificidades dessas comunidades, com investimentos proporcionais à vulnerabilidade a que foram submetidas ao longo de décadas.
e-mail: pautasresponsaveis@gmail.com
Twitter: https://twitter.com/ColunaLuiz
Instagram: https://www.instagram.com/luiz_andre_ferreira/
Linkedin: https://www.linkedin.com/in/luiz-andr%C3%A9-ferreira-1-perfil-lotado-



Os comentários não representam a opinião do jornal e são de responsabilidade do autor.