Por daniela.lima

Rio - Certa vez, Graciliano Ramos foi interpelado por um desconhecido ao entrar em uma livraria da Rua do Ouvidor: “Boa tarde, seu Graciliano”. Ríspido, ele respondeu: “Tem certeza de que é uma boa tarde?”. A história é lembrada pelo cineasta Nelson Pereira dos Santos, que transformou obras do autor em clássicos do cinema — ‘Vidas Secas’ (1962) e ‘Memórias do Cárcere’ (1983). Essa é apenas uma palinha dos ‘causos’, histórias e análises que vão florescer, a partir de hoje, na 11ª Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), que homenageia o romancista alagoano. Entre brasileiros e estrangeiros, mais de 40 convidados participam do evento até domingo. 

Show de abertura com Gilberto Gil será às 21h30Felipe O`Neill / Agência O Dia


“Graciliano era seco”, define Nelson. “Era um cara muito sério, mas que sempre teve posição humanista. Queria o melhor para o futuro do homem, e não só para ele. Tinha um raciocínio correto, enxuto”, afirma o cineasta, que participa da mesa ‘Uma Vida no Cinema’, na sexta, ao lado da cantora Miúcha.

Nelson driblou o mito de que livro bom rende filme ruim. “Contei com a ajuda de Deus. Na primeira vez em que tentei filmar ‘Vidas Secas’, em Juazeiro, na Bahia, em 1959, me deparei com uma chuva que inundou a cidade. O sertão ficou verde. Acabei inventando outro filme, ‘Mandacaru Vermelho’. Essa experiência me ajudou. Ainda não estava maduro para fazer ‘Vidas Secas’”, revela o cineasta.

Política na Flip

A abertura da feira, hoje, terá show de Gilberto Gil, às 21h30. Além da programação principal, a Flipinha, FlipMais, FlipZona e Off Flip oferecem amplo cardápio alternativo. Para o deleite da criançada, por exemplo, o autor infantil Ricardo Ramos Filho lança duas obras: ‘O Cravo Brigou Com a Rosa’ (ed. Melhoramentos, 32 págs., R$ 36) e ‘Se eu Não Me Chamasse Raimundo’ (ed. Globo, 32 págs., R$ 36). O sobrenome não engana: ele é neto de Graciliano Ramos — nasceu em 1954, um ano depois de o avô morrer de câncer no pulmão, aos 60 anos.

“Não penso muito no Graciliano como avô. Meus primos falam: ‘Você não fala vovô Graciliano; fala só Graciliano’. Não sinto falta do avô Graciliano, porque não o conheci. Gostaria de conhecer pessoalmente, sim, o escritor. Para mim, é um dos dois maiores, ao lado de Machado de Assis”, exalta ele, que é filho do também escritor Ricardo Ramos (1929-1992).

E Ricardo não titubeia ao apontar o livro de Graciliano de que mais gosta. “É ‘Infância’, que, aliás, tem tudo a ver com a minha trajetória. Acho que essa obra chegou a influenciar meu interesse pela literatura infantil”, explica.

A homenagem a Graciliano revela ainda uma das características desta edição da Flip: o tom político. Haverá, por exemplo, debates sobre as manifestações que tomaram conta das cidades brasileiras nos últimos dias.
“Graciliano tinha viés político muito forte. Ele percebeu que fazer uma obra crítica significava, também, uma reflexão sobre a função da literatura num país de desigualdades como o Brasil. Criticava a literatura como passatempo refinado para a elite. Sua obra, entretanto, não era panfletária”, comenta o curador Miguel Conde. “Além de debates ocasionais, achamos importante fazer mesas para debater diretamente o momento político”.

Talvez inspirado no legado da obra do homenageado, Miguel enxerga para o futuro da Flip um diálogo maior com as regiões mais pobres de Paraty. “Já temos uma relação muito forte com a cidade, que pode ser aprofundada. Podemos tentar, nas próximas edições, fazer debates nas áreas mais pobres, fora do centro histórico. Essa seria a principal novidade”, adianta.

Alguns destaques

Hoje

Mesa: ‘Graciliano Ramos: Aspereza do Mundo e Concisão da Linguagem’. Com Milton Hatoum. Às 19h. Show de abertura com Gilberto Gil. Às 21h30.

Amanhã
Mesa: ‘Culturas Locais e Globais’. Com Marina de Mello e Souza e Gilberto Gil. Às 14h30.

Sexta
Mesa: ‘Lendo Pessoa à Beira-Mar’. Com Maria Bethânia e Cleonice Berardinelli. Às 19h30.

Mesa: ‘Uma Vida no Cinema’. Com Nelson Pereira dos Santos e Miúcha. Às 21h30.

Sábado
Mesa: ‘Encontro com Eduardo Coutinho’. Com o cineasta. Ao meio-dia.

Domingo
Mesa: ‘A Arte do Ensaio’. Com Geoff Dyer e John Jeremiah Sullivan. Às 17h.
Festa de encerramento. Às 19h30.

Você pode gostar