Por daniela.lima

Rio - Quando falou para Maria Rita, sobrinha de Irmã Dulce (1914-1992), da ideia de fazer um filme sobre sua tia, a produtora Iafra Britz só tinha um medo. “Ela pedia para que ele correspondesse à realidade”, lembra Iafra, ressaltando saber não se tratar de um simples documentário e que seria praticamente impossível contar toda a vida e obra da religiosa, conhecida como Anjo Bom da Bahia. No fim da empreitada, não só Maria Rita aprovou o longa batizado com o nome de sua tia (que estreia amanhã no Nordeste e chega ao Rio no dia 27), mas também pessoas que conviveram e que trabalham até hoje para as obras deixadas pela beata. 

Regina na pele da Irmã Dulce ajudando os necessitados Divulgação


“É um compromisso muito sério. Estamos falando de uma pessoa pública, que morreu há pouco tempo e que é amada por muita gente”, diz a produtora de ‘Irmã Dulce’ sobre uma das mais notórias ativistas sociais brasileiras, que pode vir a se tornar a primeira santa brasileira, após sua beatificação, em 2011. Com a ajuda da família, que acolheu a ideia, apesar do receio inicial, Iafra e o diretor Vicente Amorim garantem que em nenhum momento sofreram censura, nem por parte dos parentes, nem da Igreja Católica.

“Pelo contrário, todos nos ajudaram muito com dados históricos e contando casos que viveram ao lado dela. Não daria para fazer um filme sobre a Irmã Dulce sem ir a Salvador, conhecer suas obras e as pessoas que viveram com ela”, diz Amorim. Captada a alma do Anjo Bom da Bahia, era hora de transmiti-lo através do cinema. “Adaptei o longa para ele ser representativo desse espírito. Não dá para ser literal em uma hora e 40 minutos”, explica o diretor.

O resultado é focado na luta de Irmã Dulce em ajudar os pobres e seu espírito revolucionário. Bianca Comparato e Regina Braga interpretam a freira em sua juventude e vida adulta, respectivamente. São cenas como os embates que a religiosa teve dentro da própria Igreja, para seguir ajudando os necessitados (ela infringiu a norma de sair de noite do convento para dar assistência a doentes), a passagem em que invade uma casa para abrigar enfermos e como se tornou uma figura popular e respeitada até entre os políticos.
Regina deixou São Paulo e Bianca, o Rio, para uma temporada em Salvador. Vestiram o hábito de freira, dormiram no convento, participaram das orações, conversaram com muitas pessoas próximas a Irmã Dulce e refizeram os passos dela pelas ruas — onde todos tinham algo a dizer.

“Tenho um amigo baiano que me contou como ela ajudou a cuidar da mãe dele, que tinha um problema cerebral. Ele não tinha como ficar ao lado dela, porque precisava trabalhar. Irmã Dulce foi a única que a acolheu e disse a ele que, quando tivesse condições, poderia levar a mãe para casa de novo”, lembra Bianca. Mesmo assim, ela e Regina dizem só ter tido noção da dimensão de quem foi e o que fez a beata após viverem por um mês na Bahia.

“Ela era muito além de uma freira. Era uma libertária. Aqui no Brasil, com toda essa pobreza, dificuldade, mentiras e falso discurso político, ficamos muito pessimistas em relação à bondade e ao amor. A Irmã Dulce praticava isso no dia a dia dela. E não é só pela religião. As religiões podem encampar isso, mas trata-se de algo humano”, sintetiza Regina.

“A gente que vive no eixo Rio-São Paulo fica viciado em um certo cotidiano. Não olhamos nem falamos com o outro, estamos sempre com medo, agarrados às nossas bolsas”, reforça Bianca, que dá um exemplo dentro de sua própria rotina: “Em frente ao meu prédio, mora um mendigo, que dorme debaixo da nossa marquise. Na reunião de condomínio, surgiram as ideias mais absurdas para tirá-lo dali. Gente, ele é um ser humano!”

Essa maior noção de generosidade contaminou as atrizes não através das filmagens, mas pela experiência que tiveram antes delas. Irmã Olívia, que conviveu por décadas com o Anjo Bom da Bahia e, hoje, vive no Convento de Santo Antônio, tenta explicar o motivo: “Deus dá força para todo mundo. E ela recebeu muita força de Deus. A gente que conviveu com Irmã Dulce sentia que ela era diferente. Dava para sentir essa força. Mesmo doente (ela sofria de problemas respiratórios), às cinco da manhã ela já estava na rua. A gente que é religiosa sabe que, com a força de Deus, tudo se consegue. São poucos os chamados a ser santo. Todo mundo pode fazer o bem, mas nem todo mundo escolhe esse caminho.” 

HISTÓRIA DE FÉ

Batizada como Maria Rita de Sousa Brito Lopes, ela veio a ser chamada de Irmã Dulce, mesmo nome da mãe, após entrar para a Congregação das Irmãs Missionárias da Imaculada Conceição da Mãe de Deus. Bem nova, já demonstrava sua vocação para a caridade. Aos 13 anos, passou a acolher mendigos e doentes em sua própria casa. Na década de 30, ajudou a comunidade de Alagados, conjunto de palafitas que crescia no bairro de Itapagipe, em Salvador. Na mesma época, fundou o Círculo Operário da Bahia, mantido por doações. Também fundou o Cine Roma, o Colégio Santo Antônio, com ensino gratuito, e tocava acordeão para presidiários, demonstrando preocupação não só com a saúde, mas também com a cultura e a educação.

No galinheiro do Convento Santo Antônio, deu início ao que é hoje o Hospital Santo Antônio, que atualmente atende mais de cinco mil pessoas por dia. “A obra é tão grande que é mesmo impossível de falar sobre tudo”, conclui a sobrinha Maria Rita, que segue os passos da tia, administrando e ampliando as obras em Salvador.

Você pode gostar