Luiz Antonio Simas: A chegada de Sinhá Pureza
'Valadão, você não está acostumado'
Rio - E lá se foi mais uma noite de Réveillon e tudo amanheceu da mesma forma. Eu passei a virada manso, sem maiores alardes. Nunca fui de traçar planos mirabolantes para um novo ciclo que se inicia nem costumo me entregar aos estados extremos de euforia e depressão que essa época do ano sugere. Prefiro ficar na moita; pegando leve e tomando uns biricoticos com parcimônia.
Passei, para preparar os comes e bebes da virada, por um supermercado na véspera do fuzuê e fiquei impressionado com a quantidade de gente comprando sidra. A garrafa de champanhe anda pela hora da morte e a sidra cumpre o papel de fingir que é champanhe nessas ocasiões. Tudo é questão psicológica. Já vi até malandro beber Sonrisal em taça de espumante para entrar no clima. De toda forma, quero distância das sidras. São perigosíssimas, sobretudo nessas datas festivas.
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Lembro-me de uma ocasião em que os moradores da vila em que minha tia-avó morava resolveram fazer um Réveillon. Foi quando vi o Dr. Oswaldo Valadão, um advogado sério, calado, metido a intelectual, se transformar completamente. O homem, que tinha fama de reserva moral, emburacou na sidra de macieira de terceiro escalão e perdeu as estribeiras. É justo dizer que a esposa do esnobe, prenunciando a catástrofe, fez vários alertas no estilo: “Valadão, você não está acostumado.”
Pois houve finalmente um momento em que o homem pirou. Aos primeiros acorde de ‘Sinhá Pureza’, um carimbó de Pinduca que fez um sucesso estrondoso nos anos setenta (“vou ensinar a Sinhá Pureza, a dançar o meu sirimbó / Sirimbó que remexe, mexe/ sirimbó da minha vovó”), Sua Excelência deu um grito, jogou a sidra para o alto e começou a tirar a roupa.
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Enquanto ameaçava ficar pelado, o homem gritava algo como “eu sou a Sinhá Pureza; nesse ano que está começando, eu só quero ser chamado assim”. Incontrolável, o doutor só acabou contido pela entidade de uma vizinha. Apesar de católica (apostólica romana, como gostava de frisar) e detestar macumba, a dona invariavelmente recebia um caboclo na noite de Réveillon que urrava e saía dando consultas, passes com baforadas de charuto e esporro em todo mundo. O caboclo enquadrou o doutor Valadão.
A festa passou e o distinto voltou a vestir a carranca de advogado sério e impenetrável, além de ameaçar meter um processo em todo mundo que o chamasse pelo mimoso apelido de Sinhá. Ameaçou também processar a fábrica da sidra de macieira, mas desistiu. Seis meses depois daquele Réveillon, Sinhá Pureza mudou-se de mala e cuia com a família para destino ignorado.
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