Moacyr Luz comemora 60 anos com o CD 'Natureza e Fé'

'Uma coisa elegante, sem me afastar do popular', diz cantor e compositor sobre novo trabalho

Por RICARDO SCHOTT

Moacyr Luz
Moacyr Luz -

Rio - A vida de compositor deu muitas alegrias a Moacyr Luz, que retorna num disco novo cheio de parcerias, 'Natureza e Fé' (Biscoito Fino). E ele mantém o bom humor para afirmar, até como uma recomendação a quem só pensa no lado positivo, que as dificuldades são muitas. Faz isso inclusive na faixa de abertura do disco, 'Atravessado', parceria com Fred Camacho e Pretinho da Serrinha, em que enumera problemas do dia a dia: os horários sempre esticados que vão madrugada adentro, a música que não toca no rádio.

"A gente, que é compositor, vive num tempo e num planeta diferente das outras pessoas. É o planeta do sonho e da utopia", conta Moacyr, 60 anos completados em 5 de abril. "Não dá para viver de direito autoral no Brasil, nem para esperar que vá vender CD. O compositor tem que ser um obstinado. O que resta a ele é a criação. E o que vai encher a barriga dele vai depender de muita coisa que a gente ainda não tem certeza se vai acontecer", diz. "Adoraria ir no 'Faustão', no 'Fantástico', mas a gente vai onde consegue. Tento fazer uma coisa elegante e acho que consigo dentro do possível. E não quero me afastar do popular".

Moacyr está mais numa de enumerar as vitórias. "Me orgulho de cada minuto da vida que eu tenho. Gosto da resistência. Se fosse fácil, não teria feito as músicas que fiz", alegra-se ele, que convidou para dividir parcerias em 'Natureza e Fé' amigos como Hamilton de Holanda ('No Baile do Almeidinha'), Martinho da Vila ('Na Ginga do Amor'), Teresa Cristina (a canção título), Jorge Aragão ('Samba de Obá'), Fagner ('Periga' e 'Samba em Vão'), Zélia Duncan ('Gosto'). Boa parte desse pessoal também comparece nos vocais. E há ainda músicas compostas com amigos que já não estão mais aqui: Luiz Carlos da Vila ('Conto de Fadas') e Wilson das Neves ('Chapéu Panamá', esta também com Mestre Trambique).

"Queria aproveitar essa data redonda. Foi um motivo para unir as pessoas. Encontrei o Fernando Merlino (pianista do disco), com quem não tocava desde 1988. E o disco tem uma unidade na harmonia, não é uma colcha de retalhos, mesmo com parceiros tão diferentes", conta Moacyr, que até hoje aproveita as lições que teve com o guitarrista de jazz e MPB Hélio Delmiro, e com o parceiro Aldir Blanc.

"Morei muito tempo com o Hélio. E o Aldir é uma coisa muito rebuscada, cada verso tem um sentido. Ele me ensinou que tudo o que eu falo, tenho que falar muito bem. Que a ideia que você está deixando fica registrada na história", conta Moacyr, que pela primeira vez, nem chegou perto do violão num disco. "Fui para a casa do Carlinhos Sete Cordas (violonista do CD), que tem um quintal maravilhoso, e só passei os tons. O Carlinhos e o Merlino decidiram o que era melhor para cada música. Quis ser surpreendido".

Moacyr, sempre aberto a desafios (nesse ano, fez até o samba-enredo que levou a pequena Paraíso do Tuiuti ao vice-campeonato), tem vários projetos. Um deles, lógico, é o Samba do Trabalhador, que acontece toda segunda no Renascença Clube, no Andaraí. Vem por aí também um disco do amigo Nego Álvaro (também da turma do Samba do Trabalhador), só com parcerias de Moacyr com Sereno. E 2018 ainda traz outra data redonda para o compositor os 30 anos de seu primeiro álbum, 'Moacyr Luz', só com parcerias com Aldir Blanc. E participações de Sivuca, Hélio Delmiro e Raphael Rabello.

"Fiz esse disco independente. Vendia o disco nas lojas, de mão em mão, deixava em consignação. Eu achava que fosse viver de direitos autorais, tinha como exemplos meus ídolos Aldir Blanc e Paulo Cesar Pinheiro, que ficavam trabalhando em casa", conta. "Em 1989, deu vontade de começar a me apresentar ao vivo e mudou um pouco a história. Depois, Beth Carvalho gravou música minha, Gilberto Gil gravou... Uma coisa deu na outra", completa.

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