Andressa Marinho, rainha de bateria da Unidos de Padre Miguel fotos Deivid Maldonado / Divulgação

Rio - Moradora da Vila Vintém e apaixonada pelo Carnaval, Andressa Marinho estreia como rainha de bateria da Unidos de Padre Miguel em um momento histórico para a escola, que retorna ao Grupo Especial após 52 anos. O Boi Vermelho apresentará na Avenida o enredo "Egbé Iya Nassô", desenvolvido pelos carnavalescos Alexandre Louzada e Lucas Milato, no dia 2 de março. Em entrevista ao MEIA HORA, a professora de samba recorda sua trajetória na agremiação da Zona Oeste, celebra o novo cargo, dá detalhes de sua preparação para o desfile deste ano e conta como concilia a rotina de majestade com a de mãe. Confira! 

- Me conta um pouquinho da sua história com a Unidos de Padre Miguel.

Sempre morei na comunidade da Vila Vintém e já era passista mirim na coirmã, Estrelinha da Mocidade. Para mim, a Unidos de Padre Miguel sempre teve um axé diferente, uma comunidade quente, bateria diferenciada e isso me chamou atenção. Entrei para a vermelho e branco com 7 anos como passista e estou até hoje. Se tornou a minha escola do coração por ser uma família. Cresci naquele chão, criei relações que quebram essa barreira de Carnaval e são parte do meu dia a dia. Passei por alguns momentos difíceis e de inseguranças na vida pessoal, como paralisia facial e gravidez, e a UPM foi a responsável por me manter de pé. Sempre que piso na quadra sou acolhida, livre, espontânea e feliz. Todos esses anos sempre fui presente e me dediquei a tudo na escola, defendendo a classe das passistas com muita essência, garra e samba no pé.

- Como foi receber o convite para ser rainha de bateria? Sempre sonhou em ocupar esse posto?

Muito especial e gratificante. Coroação ancestral! No Carnaval de 2024, ano em que fomos campeões, a escola me consagrou musa da comunidade após eu ter obtido uma proporção e torcida enorme no concurso da Corte Momesca da Riotur. Pós-carnaval estávamos nos organizando para o concurso de rainha de bateria da comunidade, que seria entre passistas da escola, e eu com certeza iria participar. Sempre sonhei com esse cargo, representatividade e oportunidade. Mas, em um evento da escola, a feijoada convida a Imperatriz Leopoldinense, me anunciaram como a nova rainha de bateria, com um discurso lindo e forte da nossa diretora Lara Mara. Realizei meu sonho, estou representando toda comunidade e a ala de passistas, lugar de onde eu vim.

- Qual é a sua relação com o Carnaval? Você atua em outra profissão durante o ano?

Sou sambista da gema, desde 5 aninhos vivendo por essa cultura. O Carnaval é liberdade de expressão, é meu trabalho, minha arte e fonte de trabalhos. Sou professora de samba no pé, o Carnaval me rende frutos o ano todo.

- Qual é a sensação de ver a escola voltar ao grupo especial?

Surreal. O grito que estava entalado há anos, a euforia, o ápice, o melhor momento. Nossa escola lutou muito por essa conquista, nós vínhamos mostrando competência e muita garra! Agora estamos vivendo e aproveitando cada momento e cada oportunidade desse sonho em conjunto.

- O que achou do enredo deste ano, "Egbé Yá Nassô"?

Muito forte e lindo. De se emocionar. A Unidos de Padre Miguel é uma escola muito ancestral, família e as mulheres predominam na linha de frente, nada mais justo que reverenciar e homenagear Iyá Nassô e o terreiro de candomblé, a Casa Branca do Engenho Velho. Um enredo que traz uma resistência e axé muito presente. Vai levantar a Sapucaí!

- O que espera sentir na Avenida, liderando a bateria pela primeira vez?

Muita firmeza e consciência da responsabilidade que é representar uma comunidade e apresentar o trabalho da minha bateria e seu diferencial nas bossas, através do meu carisma, samba no pé, conexão e beleza.

- Pode dar um spoiler do seu figurino? O que podemos esperar da sua fantasia, o que irá representar?

Só digo que podem esperar muito de mim e de toda escola. (risos)

- Como tem sido sua preparação física e emocional para o desfile?

Bem firme, tenho que me cuidar. Essa época é de grande demanda, os compromissos intensificam. Preciso ter uma alimentação regrada com nutricionista, musculação com personal, faço estética corporal e facial. Tudo para poder ter resistência e alinhar o espiritual, para que nenhuma energia negativa consiga me atingir e tudo flua como esperado.

- Você tem algum ritual antes de entrar na Avenida?

Abaixar na linha do início e pedir licença, proteção e axé. Que todos os olhares sejam bons e que a energia se mantenha leve.

- As rainhas de bateria enfrentam muita pressão estética. Como lida com isso?

Eu me cuido, mas me cuido por mim. Pelo o que me satisfaz, pelo meu gosto, pela forma que gosto de ser, aparecer e viver, sem deixar com que a alienação alheia mexa comigo ou tenha autoridade sobre mim. Eu sou eu e uma coisa que não perco nunca é a minha própria essência e saúde mental.

- Quais são os segredos de beleza para manter a autoestima sempre em alta? Existe algum cuidado que você nunca abre mão na rotina?

Usamos muita maquiagem, então não deixo de cuidar do rosto, procedimentos estéticos me ajudam muito. Os pés pedem socorro e exigem uma atenção maior na podologia. O corpo se mantém em cuidados constantes com procedimentos estéticos e musculação. O cabelo é a minha coroa natural, estou sempre hidratando e nutrindo, além dos penteados com cabelos orgânicos. Também sou vaidosa com as unhas, cílios, sobrancelhas e bronze. Isso tudo faz a autoestima viver lá em cima.

- Tem algum truque de beleza que aprendeu nos bastidores e que adora usar?

Nós passistas aprendemos desde sempre a sermos sagazes. Diversos truques e gambiarras, como óleo com purpurina para deixar o corpo radiante, abrir cachos com pente/garfo para ficar aquele cabelo 'blackzão' de respeito.

- Você é mãe. Como concilia a vida de rainha e a maternidade?

Graças a Deus, minha família é minha rede de apoio. Conto com meus pais, irmão, titias, titios, primos e o pai dele. Não falta gente para ajudar quando tenho algum compromisso ou trabalho. Eles me apoiam e me deixam com o coração tranquilo, sabendo que meu filho está sendo bem cuidado. Ele já está inserido na minha vida de rainha, meu companheiro número 1, gosta de ir aos ensaios, sambar e tocar com a mamãe. Com toda ajuda que tenho, é possível conciliar de boa.

- Você lançou um projeto que busca fortalecer a cultura do samba no pé, promovendo aulões que você mesma ministra. Como surgiu essa iniciativa e qual o principal objetivo desses encontros?

Sempre fui professora de samba no pé, e o que me enche de garra e força para continuar é a magia de ensinar a arte que tanto amo. Ver aqueles olhos brilhando, aqueles sorrisos de felicidade quando aprendem um passo ou a cadência do samba, é mágico! Sou rainha da UPM e ainda não tínhamos um projeto de samba no pé na escola, então o projeto surgiu daí. Quis dar esse primeiro passo e fazer com que todas as idades tivessem a oportunidade de aprender a sambar. O nosso futuro nós plantamos hoje! Levarei comigo sempre a missão de germinar a nossa cultura! Samba é resistência, é liberdade de expressão, alegria e superação. É mais ou menos essa energia e emoção que sinto ao ensinar. Faço com muito amor.