Os desfiles do Cacique de Ramos de 2024 atraíram uma multidão às ruas do RioMichelle Beff / Cacique de Ramos

Rio - O Cacique de Ramos, um dos blocos mais tradicionais do Rio, vai agitar na Avenida Chile, no Centro, com desfiles no domingo (2), na segunda-feira (3) e na terça-feira (4), sempre com concentração a partir das 18h, na esquina da Avenida Almirante Barroso. O tema de 2025 é "O Cacique é Show! Identidade e Resistência do Samba". E para embalar a multidão, clássicos que não podem faltar nunca, como "Vou Festejar", "Caciqueando" e muitos outros.

Fundador do Cacique, Ubirajara Félix Nascimento, o popular Bira Presidente, reforça ao DIA o orgulho que sente desde o início da trajetória do bloco. "Ser presidente do Cacique... Ah, isso é uma missão. Quando a gente começou, lá atrás, não imaginava que ia chegar tão longe. O Cacique foi crescendo, e eu fui junto. Cada vez que vejo o bloco na rua, escuto a bateria, lembro dos amigos que sonharam isso comigo. Tem coisa que a memória às vezes me escapa... Mas o que eu sinto, isso não muda. O Cacique é minha vida."

Ao falar da força do bloco, que tem a primazia de ser o único a desfilar três vezes durante a folia, Bira cita uma união de fatores. "O Cacique tem um encanto. O lado espiritual é muito forte, e quem pisa aqui sente. É raiz. A gente nunca precisou de modismo, nunca se desviou do caminho. O samba no nosso quintal, cresceu e tomou o mundo, mas o coração continua batendo aqui, no mesmo compasso. O segredo? O povo. Quem veste essa camisa carrega junto um pedaço dessa história."

Atualmente com 87 anos, o sambista, que também é fundador do grupo Fundo de Quintal, ficou internado no início do ano e não deve participar dos desfiles. No entanto, isso não o desmotiva, pois sabe como o papel de líder é fundamental na organização do Cacique. E em meio ao encerramento de blocos tradicionais, como o Imprensa Que Eu Gamo e o Escravos de Mauá, Bira se mostra orgulhose de ver o Cacique ainda como um dos protagonistas do Carnaval de rua.

"Ah, é uma pena [encerramento de blocos], não é? Mas [os blocos que estão acabando] devem ter seus motivos. No Cacique é diferente. Sempre foi. Mas eu não fiz isso sozinho, não. Eu contei com muita gente boa, porque uma andorinha só não faz verão. No começo era luta, e ainda é, mas nunca estive só. Minha diretoria, nossos componentes, os amigos que chegaram e ficaram, e a fé... Isso nos trouxe até aqui", pondera.

O líder também ressalta que as atividades na quadra, no restante do ano, são um grande diferencial. "O Cacique não para. Não é só no Carnaval, é o ano todo. As rodas de samba continuam, agora tem até shows! E eu sei que, minhas filhas, meu genro, e essa diretoria de ouro seguram essa bandeira. O Cacique segue sua caminhada, porque o show tem que continuar", destaca.

64 anos de história

Tendo São Sebastião como padroeiro, o Cacique de Ramos foi fundado em 20 de janeiro de 1961 no bairro de Ramos, na Zona Norte - a quadra há décadas fica em Olaria. Não demorou para que o bloco se tornasse uma referência no carnaval de rua, tornando-se uma marca registrada do Rio.

Desde então, vem arrastando multidões e atraindo foliões de todas as regiões da cidade. No início da década de 1970, o Cacique adquiriu a sua sede permanente e começou a realizar rodas de samba no local. Aos pés da famosa tamarineira, o evento semanal chamou a atenção de artistas, como Beth Carvalho e outros nomes da MPB.
Segundo Walter Pereira, coordenador do Centro de Memórias do Cacique de Ramos, esse foi um momento muito importante para a a trajetória do bloco.
"A partir daí, [a Beth Carvalho] catapulta aquela coisa que era tão pequena para um grande público. Esse pequeno pagode do Cacique passa a atrair novos compositores, que tinham um espaço para apresentar suas canções, algo que não acontecia nas escolas de samba, que já estavam focadas exclusivamente em apresentar seus sambas-enredo. Dessa fluência de cantores, surge um novo movimento. Esse pagode do Cacique de Ramos acaba colocando a agremiação muito em evidência", explica. Em seguida, o Cacique viria a revelar bambas Jorge Aragão, Zeca Pagodinho, Arlindo Cruz e muitos outros.
Walter também reforça que a motivação dos integrantes do Cacique desde a sua fundação ajudou a mantê-lo de pé, mesmo em momentos de crise financeira. "Esse espírito, que é compartilhado por vários diretores, entusiastas e membros que mantiveram o Cacique aberto e desfilando todos os anos, apesar da falta de dinheiro e reconhecimento do poder público por algumas décadas. Mantendo os desfiles nos três dias, mesmo com poucas pessoas, fazendo vaquinha para pagar camisa, e mantendo as atividades na quadra. O Bira à frente, com seus diretores, mantendo o Cacique aberto, ao contrário do que aconteceu com outros blocos congêneres da época, que não conseguiram renovar sua convivência comunitária. O Cacique foi um símbolo de resistência."

No último mês de novembro, o Cacique foi declarado patrimônio histórico e cultural de natureza imaterial do estado do Rio de Janeiro

Ronaldo Felipe, diretor do bloco há mais de 30 anos, diz que a constância é uma característica essencial para ele ser sucesso até hoje. "O Cacique foi fundado em 1961 e, sempre sob o comando do nosso Bira Presidente, nunca deixamos de desfilar. Sempre desfilamos nos três dias de Carnaval. Todo ano, estamos lá. Uma alegria, carinho, um povo presente, as alas, a bateria… Nós somos uma família", afirma.

Vendas de camisas

Os foliões poderão fazer parte do desfile adquirindo as camisetas "Eu Sou Cacique" e "Cura Ressaca 2025", à venda na quadra da agremiação até sábado, na Rua Uranos, 1326, em Olaria, das 10h às 16h. As roupas também estarão disponíveis para compra na concentração do bloco, a partir das 18h, durante os três dias de celebração.